Pelô


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

Quem se aventura pelo Centro Histórico de Salvador não procura apenas ver igrejas e arte sacra: o ponto alto do passeio é o bairro do Pelourinho, carinhosamente apelidado de Pelô. Situa-se, genericamente, entre o Terreiro de Jesus e o Largo do Pelourinho, por entre ruas estreitas e íngremes, calcetadas com paralelepípedos e ladeadas por coloridos casarões e sobrados coloniais.





Descendo do Terreiro de Jesus pela Rua das Portas do Carmo (a pintura nas portas já tinha passado por aqui).

Quando, em 1549, Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, fundou a cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, escolheu este lugar pela sua localização estratégica: elevada, próxima do porto e com uma barreira natural, constituída por um acidente geológico que funcionava como uma verdadeira muralha defensiva de 90 metros de altura por 15 quilómetros de extensão. Aí fez erigir o pelourinho (hoje desaparecido), símbolo da lei, em torno do qual se desenvolveu a cidade.

Fundação Casa de Jorge Amado, no topo do Largo do Pelourinho (oficialmente, Praça José de Alencar). À sua esquerda, o Museu da Cidade.



Até ao início do século XX, era um bairro eminentemente residencial, onde se concentravam as melhores moradias, e era também o centro comercial e administrativo de Salvador. A partir da década de 1950, com a modernização da cidade e a transferência de actividades económicas para outras zonas da capital baiana, o Pelourinho sofreu um forte processo de degradação, desvalorizou-se e assistiu a uma mudança demográfica que o tornou um bairro popular, palco da cultura negra da cidade. Aí tiveram origem grupos culturais e comunitários, que se transformaram, nas duas últimas décadas do século XX, em importantes actores políticos.



Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, ou Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída a partir de 1704.



Somente a partir das décadas de 1980 (com o seu reconhecimento, pela UNESCO, como Património da Humanidade) e 1990 (com a revitalização da zona e a remoção da maioria dos moradores) é que o Pelourinho se transformou no que é hoje: um centro de cultura pública que valoriza a expressão popular e étnica. Nas últimas décadas, o bairro tornou-se um importante centro cultural de Salvador, atraindo artistas de todos os géneros: cinema, música, pintura.

A Casa do Benin, no edifício branco.

Em 1996, Michael Jackson filmou aí a versão brasileira do videoclipe do seu tema "They Don't Care About Us", acontecimento que ainda hoje é recordado efusivamente na casa do Largo do Pelourinho em cuja varanda o artista cantou.

Na casa azul, à direita, um póster e uma imagem de Michael Jackson em tamanho natural, na varanda central.



Ao fundo do Largo, começa a subida para o Carmo.

Santos negros


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

A dependência mais curiosa da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco foi, para mim, a Casa dos Santos. É uma divisão rectangular, no piso térreo, com saída e janelas para o exterior, que preserva um importante conjunto de imagens de santos de roca e de vestir, instalados numa série de capelas neoclássicas que circundam o aposento. Estátua de roca ou imagem de roca designa a tipologia de imagens sacras que se destinam a ser levadas em procissão e que são vestidas com trajes de tecido. Este género de imagens adquiriu considerável importância no culto católico, especialmente durante o período barroco, estendendo-se até meados do século XIX.
A Casa dos Santos foi construída em 1844, sob a direcção de Joaquim Francisco de Mattos, e alberga, além das figuras que, na Semana Santa, representam as diferentes estações da Via Sacra (o Senhor no Horto, o Senhor na Pedra Fria, o Senhor na presença de Pilatos, o Senhor na Prisão, o Senhor dos Açoites, o Senhor dos Passos, Cristo Crucificado e o Senhor Glorioso), as imagens marianas de Conceição Maria Santíssima e de Nossa Senhora das Dores e todo um panteão de devoção franciscana: Santa Margarida de Cortona, Santo Ivo Doutor, São Domingos, São Francisco, Santa Clara, Santa Coleta, São Vivaldo, Santa Rosa de Viterbo, São Elzeário, Santa Delfina, São Lúcio, Santa Bona, Santa Isabel da Hungria, São Conrado, São Luís Rei de França, Santa Isabel Rainha de Portugal. Porém, a que mais chama a atenção é a figura de um negro, de hábito escuro, com um sorriso luminoso e o Menino ao colo, identificado como Beato António de Loures. Ora, com esse nome, não encontrei santo algum.





Uma pesquisa mais demorada levou-me a crer que se trata do santo de devoção popular António de Categeró (ou de Cartago, de Noto ou Etíope). Foi um negro muçulmano do Norte de África, vendido, no século XVI, como escravo para a Sicília, onde foi catequizado e se converteu ao cristianismo. Após ser libertado, dedicou-se a cuidar de doentes, em hospitais, ingressou, posteriormente, na Ordem Terceira de São Francisco e, mais tarde, decidiu seguir uma vida contemplativa e tornou-se eremita no deserto. O seu corpo incorrupto, 50 anos após a morte, assim como as histórias de milagres ocorridos por sua intercessão, conduziram à sua beatificação, cerca de 1611.
Foi por intermédio dos jesuítas que a devoção a Santo António de Categeró foi de Itália para o Brasil. A primeira Fraternidade de António de Categeró foi fundada em 1592, muitas igrejas lhe foram dedicadas e mais de 60 imagens representavam este santo africano, no final do período barroco. Foi objecto de devoção, sobretudo, pelos escravos trazidos de África, que se identificavam com a cor da sua pele e com a sua história de vida. Santo Antônio de Categeró, São Benedito, Santo Elesbão e Santa Efigénia são os quatro santos negros cuja devoção se espalhou pela comunidade de ascendência africana, entre os séculos XVI e XVIII.
Já em Cairu, na Igreja de Santo António, fui recebida à entrada por outra imagem de um santo negro com o Menino ao colo, que depreendi que fosse o mesmo que vira em Salvador.




Cairu (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

Mas não era. Este foi mais fácil de identificar como São Benedito, santo padroeiro com grande tradição em Cairu, que, anualmente, organiza as festividades conhecidas como Reinado (ou Reisado) de São Benedito.
Como se explica, então, a semelhança entre as imagens? São Benedito é tradicionalmente figurado tendo nos braços ou o Menino Jesus ou um cesto de pão. Acontece que também Categeró foi frequentemente representado com o Menino, o que tendia a gerar confusão com São Benedito. Foi por isso que, em 1699, a autoridade religiosa da Bahia censurou o uso dessa imagem no processo de instituição da Irmandade, definindo que Categeró usaria como atributo o crucifixo na mão direita. Mas nem assim conseguiu tirar o Menino do colo do Beato, onde, pontualmente, se vinha aninhar, para grande irritação dos franciscanos baianos, que, desde 1699, iniciaram uma "obsequiosa negação de Categeró", que se agudizou entre 1764 e 1768.

Um São José de azulejos T6:3










Alandroal, Outubro de 2023


Terena (Alandroal), Outubro de 2023














Juromenha (Alandroal), Janeiro de 2026

Vila de Juromenha


Juromenha (Alandroal), Janeiro de 2026

Juromenha recebeu de D. Dinis a sua primeira Carta de Foral, em 1312, a qual viria a ser confirmada por D. João II, a 28 de Agosto de 1492. Em 1515, D. Manuel I concede-lhe nova Carta de Foral. Foi, assim, sede de um concelho que englobava as freguesias de Nossa Senhora do Loreto de Juromenha, São Brás dos Matos e Aldeia da Ribeira. O concelho de Juromenha tinha, em 1801, 823 habitantes, quando perdeu, de facto, a Aldeia da Ribeira, integrada por Espanha no município de Olivença, com o nome de Vila Real. Juromenha fez parte da Diocese de Elvas até 1881, data em que a mesma foi extinta, passando, então, para a de Évora.





Na sequência da reforma administrativa liberal de 1836, no reinado da Rainha Dona Maria II, pelo Decreto de 6 de Novembro, o concelho de Juromenha foi extinto e anexado ao de Alandroal, do qual se tornou uma freguesia, assim como o antigo concelho de Terena. Após esta anexação, Juromenha iniciou um processo de declínio, acentuado na década de 1920, quando a população, depois de atingida por um surto epidémico, abandonou totalmente o espaço intramuros, desenvolvendo-se o arrabalde em torno da ermida de Santo António, que é hoje o núcleo fundamental da vila.



Em 1950, Juromenha contava com 1518 habitantes, reduzidos a 107, em 2011. Consequentemente, a freguesia de Juromenha foi extinta em 2013, no âmbito da Reorganização administrativa do território das freguesias, tendo sido agregada às freguesias de São Brás dos Matos e Nossa Senhora da Conceição, para formar uma nova freguesia, denominada União das Freguesias de Alandroal (Nossa Senhora da Conceição), São Brás dos Matos (Mina do Bugalho) e Juromenha (Nossa Senhora do Loreto).



É hoje um lugar simpático, pequeno, mas com tudo o que devia ter, inclusive um restaurante onde comemos uma belíssima escalda de peixe do rio (barbo).





Vistas da fortaleza para a vila, respectivamente, os antigos arrabaldes de Santo António e de São Lázaro.







Vista da fortaleza para o rio, podendo ver-se, em primeiro plano, o Guadiana, seguido de campos de cultivo; depois, a aldeia de Vila Real e, ao fundo, a cidade de Olivença.

Fortaleza de Juromenha


Juromenha (Alandroal), Janeiro de 2026

A Fortaleza de Juromenha é constituída por duas cinturas de muralhas, uma interna, onde se situa a torre de menagem, e outra externa, sendo esta de tipo abaluartado, com planta estrelada. No interior do recinto muralhado, existem duas igrejas, a da Misericórdia e a Matriz (Igreja de Nossa Senhora do Loreto), e também os antigos Paços do Concelho (cuja fachada ruiu um 1930) e respectiva cadeia (edifício cuja configuração actual data do século XVII), uma cisterna de planta rectangular que abastecia a população e diversas ruínas pertencentes ao aglomerado urbano. A estrutura defensiva sobrevive desde o período árabe, do qual perduram parte da muralha, uma porta e torres em taipa militar islâmica. Em termos paisagísticos, a antiga fortaleza possui uma localização privilegiada, no que respeita ao domínio visual dos territórios português e espanhol.


No sentido horário: Igreja da Misericórdia, Igreja de Nossa Senhora do Loreto e cadeia







Arquitectura militar, medieval e da restauração. Fortaleza de raiz medieval da qual mantém parte da muralha do castelejo com cubelos rectangulares, acrescentada e circundada por baluartes em forma de estrela e por revelins da época da Guerra da Restauração. Praça fronteiriça de grande importância estratégica, na centúria de seiscentos, considerada a chave do Guadiana e um dos poucos lugares identificados como azóia ou arrábida na época medieval.




Abandonada e em ruínas desde 1920, a Fortaleza de Juromenha foi alvo de obras de recuperação e estabilização, pela DGEMN, a partir 1950, que se prolongaram até 1996. Em 1957, foi, inclusivamente, classificada como Imóvel de Interesse Público. No entanto, nem isso impediu a progressiva degradação do monumento.



Em 2 de Agosto de 2017, a Resolução da Assembleia da República n.º 179/2017 recomendava ao Governo a inclusão da Fortaleza de Juromenha na lista de imóveis do Programa REVIVE. Porém, a intervenção já não foi a tempo de impedir o desmoronamento de uma das torres, em Abril de 2018, provocado por intensas chuvas e pelo avançado estado de degradação do edificado. A derrocada aconteceu na zona mais alta da fortificação, após anos de denúncias sobre o estado de abandono do monumento. O incidente revelou, na altura, a taipa militar islâmica original que se encontrava reforçada com pedra. Finalmente, em Julho de 2019, o edifício passa a integrar o Programa REVIVE.



Após o colapso, foram elaborados projectos de recuperação. Entre 2024 e 2025, a Fortaleza de Juromenha passou por um significativo processo de restauro e consolidação das muralhas. A intervenção, com um investimento de cerca de 5 milhões de euros, foi concluída em 2025, resultando na requalificação do perímetro abaluartado exterior e da cerca islâmica e medieval interior. As obras permitiram a visitação e valorização do património, marcando uma "reconciliação com o passado" da vila raiana. Prevê-se, igualmente, a sua valorização turística, com a eventual construção de um hotel.
Já em 2026, a Câmara Municipal de Alandroal aprovou o projecto de remodelação e restauro da Porta Norte da fortaleza, uma intervenção que representa a fase final da reabilitação das muralhas do monumento.