Memória futura (32)


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

A Cidade Baixa tem também grande quantidade de monumentos, que homenageiam tanto figuras histórico-políticas como a cultura popular.
Em frente ao Mercado Modelo, aos pés do Elevador Lacerda, fica o imponente conjunto monumental em homenagem ao Visconde de Cairu. José da Silva Lisboa (1756-1835), primeiro Barão e Visconde de Cairu, foi um importante economista, parlamentar, orador e político brasileiro, nascido em Salvador. A escultura, inaugurada em 2 de Julho de 1923, é da autoria de Pasquale de Chirico, que realizou diversos monumentos públicos na cidade.





Próximo deste, encontra-se o Monumento à Cidade do Salvador, também conhecido como Fonte da Rampa do Mercado. Informação no local esclarece: "Fonte da Rampa do Mercado. Obra de autoria do escultor Mário Cravo Jr., a fonte luminosa é composta de escultura em fibra de vidro com estrutura metálica interna. É também chamada de Monumento ao Povo da Bahia. Desde que começou a ser montada, no local onde ficava o primitivo Mercado Modelo, destruído por um incêndio, causou curiosidade devido às suas formas arredondadas. Foi inaugurada em [13 de Janeiro de] 1970". Em 21 de Dezembro de 2019, o monumento foi consumido por um incêndio, restando apenas a estrutura de metal que o sustentava. A obra foi, posteriormente, recuperada, devolvida à sua forma original e reinaugurada em 11 de Janeiro de 2023. Placa no local refere que a forma da escultura remete para as velas dos barcos saveiros que atracavam na rampa do mercado. Pessoalmente, à primeira vista, vi nela um biquíni.





Atrás do Mercado Modelo, encontra-se o busto em bronze de Arnaldo Pimenta da Cunha (1881-1956), engenheiro, político e professor universitário, primeiro prefeito de Salvador nomeado em carácter efectivo no primeiro Governo Vargas, entre 1931 e 1932. A obra é da autoria de Ismael de Barros, discípulo de Chirico, e foi inaugurada em 1957. O pedestal foi, entretanto, substituído.





De onde se encontra, o busto parece observar atentamente o imponente conjunto escultórico designado Arena da Capoeira. Projectada pelo arquitecto e urbanista André Moreno, "a estrutura é composta por quatro arcos de 12 metros de altura, que simbolizam os berimbaus, o instrumento musical fundamental da capoeira, unindo-se no topo para formar a cabaça. Entre esses arcos, dez esculturas em bronze, sobre pedestais de concreto, retratam mestres capoeiristas tocando seus instrumentos, em uma homenagem viva aos grandes nomes que moldaram essa arte". No centro, dois mestre jogam capoeira, rodeados por outros oito, sobre pedestais onde se conta as suas histórias. Os homenageados (os mestres capoeiristas Pastinha, Bimba, Besouro, Noronha, Waldemar, Canjiquinha, Gato Preto, Caiçara, Aberrê e Totonho) foram escolhidos por votação online. A obra foi inaugurada em 4 de Julho de 2024.











Mais à frente, na Avenida Contorno, a Estátua dos Irmãos Pereira, também da autoria de Pasquale de Chirico, datada de 1954. O monumento é composto por três estátuas em bronze sobre pedestal tríplice em betão revestido com placas de granito rosado. No pedestal, encontram-se inscrições alusivas aos homenageados e o símbolo da República, também em bronze. Os três irmãos soteropolitanos, Manuel Vitorino Pereira (1853-1902, médico, professor catedrático e político, foi presidente do estado da Bahia, senador federal, vice-presidente e presidente interino do Brasil), José Basílio Pereira (1850-1930, padre católico, escritor, tradutor e teólogo) e António Pacífico Pereira (1846-1922, médico, professor catedrático e escritor, foi director da Faculdade de Medicina da Bahia e um dos fundadores da Academia de Letras da Bahia), foram figuras de relevo na história baiana.

Cidade Baixa


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

Como já aqui expliquei, a cidade do Salvador foi, desde a sua fundação, estruturada em dois níveis: a Cidade Alta, institucional e política, e a Cidade Baixa, portuária e comercial.
Após a sua fundação, em 1549, no cimo da escarpa, a cidade começou a expandir-se em direcção ao mar, ocupando uma estreita faixa costeira, o chamado Bairro da Praia, com uma rua comprida que dividia o porto e as casas comerciais. Nascia, assim, a divisão de Salvador em cidades Alta e Baixa. Porém, a ligação entre essas duas partes da cidade sempre foi complicada. Com o tempo, foram abertas ladeiras e caminhos, construídos guindastes e, em 1873, foi inaugurado um dos principais ícones da cidade, o Elevador Lacerda, hoje totalmente integrado na paisagem e no quotidiano do povo soteropolitano.





O centro nevrálgico da Cidade Baixa é a Praça Visconde de Cayru (mais conhecida como Praça Cairu, apesar da actual designação de Praça Maria Felipa), onde se situa a estação inferior do Elevador Lacerda e o antigo prédio da Alfândega, no qual seria reinstalado o Mercado Modelo, depois do incêndio de 1969.




Cidade da Música da Bahia, o museu da música baiana, ao lado do Mercado Modelo

Após vários aterros sobre a Baía de Todos os Santos, foi construído, em 1920, o bairro do Comércio, para concentrar as actividades financeiras da cidade, com sedes de agências de exportação e de câmbio e instituições bancárias e financeiras.



Como principal acesso ao bairro do Comércio, foi projectada, pelo arquitecto Diógenes Rebouças, uma extensa estrada marginal, ao longo da orla costeira, desde o Campo Grande até à Praça Cairu, comummente conhecida como Avenida Contorno. Inaugurada em 1958, foi baptizada como Avenida Lafaiete Coutinho (ou suas variantes Lafayete e Lafayette), em homenagem a Lafayette Coutinho de Albuquerque (1906-1959), médico e Professor Catedrático de Urologia da Faculdade de Medicina da Universidade da Bahia, empresário e deputado estadual e federal, entre outros cargos públicos. A avenida proporciona uma agradável caminhada, ao longo das praias da Baía de Todos-os-Santos, de um lado, e dos muros de contenção da encosta, do outro.


Praia da Preguiça


Comando do 2.º Distrito Naval da Marinha do Brasil


Do outro lado da estrada

Em frente ao Comando Naval, já ao chegar à Praça Cairu, a jóia barroca da Cidade Baixa, a Igreja Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia. A igreja original foi mandada construir por Tomé de Sousa, na altura da fundação da cidade, em 1549. Era uma capela de taipa de pilão, erigida na base da falésia, junto à linha de água. Porém, ao longo dos séculos, os sucessivos aterros para ampliação da zona portuária foram afastando o mar. A primitiva capela foi também substituída por soluções mais robustas. A igreja actual, o terceiro templo construído no local, foi erigida entre 1739 e 1849, mas consagrada em 1767. A edificação, engastada na rocha viva, foi projectada por Manuel Cardoso de Saldanha, arquitecto e engenheiro militar português. A construção foi, essencialmente, pré-fabricada em Portugal, pelo mestre pedreiro Manuel Vicente, em pedra lioz, e chegou ao Brasil, no lastro dos navios, em pedaços separados e numerados. O mestre pedreiro arquitecto Eugénio da Mota preparou as pedras e acompanhou o seu transporte para Salvador, ficando responsável pela edificação do monumento.
O interior da igreja, que não visitei, consta que possui a primeira demonstração mais completa do barroco de D. João V no Brasil. Segundo alguns historiadores, a fachada sofreu influência do Palácio de Mafra, com traços neo‐clássicos. Sobressai a implantação das duas torres na diagonal, a 45º em relação ao plano principal.



Ao que percebi (e é bem difícil perceber as designações e classificações soteropolitanas), a Cidade Baixa não está incluída no Centro Histórico de Salvador, conforme foi delimitado pela UNESCO. No entanto, faz parte do Centro Antigo de Salvador, que corresponde à área do Centro Histórico e seu entorno, num conjunto de dez bairros de valor histórico e cultural: Centro Histórico, Centro, Barris, Tororó, Nazaré, Saúde, Barbalho, Macaúbas, Liberdade (parte do espigão), Comércio e Santo António Além do Carmo (e, lá está, eu conto aqui 11, vale o que vale).

I Nisa


Nisa, Maio de 2026

Fã que fiquei das paisagens e património do concelho, não perdi a oportunidade de participar em mais uma das caminhadas promovidas pela Câmara Municipal de Nisa, no âmbito do programa "Caminhos de Nisa ao Encontro do Património - Caminhadas 2026". Tratou-se, neste caso, da última da temporada: a partir daqui, o calor excessivo não permitirá aventuras ao ar livre; em Setembro haverá mais.
Numa caminhada circular, com cerca de 9,6 km, designada "À Descoberta da Ribeira de Nisa", pudemos explorar belíssimas paisagens naturais, atravessando o Couto do Cabeço da Ordem (de Cristo), seguindo ao longo do dique do Racheiro e da margem da albufeira e ribeira, até à ponte da Bruceira. Perto da antiga Central Hidroeléctrica, cruzámos a ribeira por uma passadeira de pedras (poldras), passámos pela Ermida de Santo André e seguimos pela Carreira Velha.


Ermida de São Lourenço






Ribeira de Nisa




Açude do Racheiro




Capela de Santo André

Vilnių vėtrungės






Vilnius (Lituânia), Fevereiro de 2026














Vilnius (Lituânia), Março de 2026