I Nisa


Nisa, Maio de 2026

Fã que fiquei das paisagens e património do concelho, não perdi a oportunidade de participar em mais uma das caminhadas promovidas pela Câmara Municipal de Nisa, no âmbito do programa "Caminhos de Nisa ao Encontro do Património - Caminhadas 2026". Tratou-se, neste caso, da última da temporada: a partir daqui, o calor excessivo não permitirá aventuras ao ar livre; em Setembro haverá mais.
Numa caminhada circular, com cerca de 9,6 km, designada "À Descoberta da Ribeira de Nisa", pudemos explorar belíssimas paisagens naturais, atravessando o Couto do Cabeço da Ordem (de Cristo), seguindo ao longo do dique do Racheiro e da margem da albufeira e ribeira, até à ponte da Bruceira. Perto da antiga Central Hidroeléctrica, cruzámos a ribeira por uma passadeira de pedras (poldras), passámos pela Ermida de Santo André e seguimos pela Carreira Velha.


Ermida de São Lourenço






Ribeira de Nisa




Açude do Racheiro




Capela de Santo André

Vilnių vėtrungės






Vilnius (Lituânia), Fevereiro de 2026














Vilnius (Lituânia), Março de 2026

Pedras grandes (8)


Castelo de Vide, Abril de 2026

Tantos anos depois, voltei ao Menir da Meada, desta vez, no âmbito do programa de comemoração do Dia Europeu da Cultura Megalítica, organizado pelo Grupo de Amigos de Castelo de Vide e pela Associação de Estudos do Alto Tejo, sob o tema "Monumentos megalíticos como parte de uma paisagem ritual". Do programa constava a inauguração da exposição "Fragmentos de uma Nova Vida: os vestígios materiais da cultura megalítica em Castelo de Vide", na Igreja de São João Baptista, antecedida pelas visitas ao Menir da Meada e à Necrópole Megalítica dos Coureleiros, guiadas pelos arqueólogos Jorge de Oliveira (Professor Catedrático aposentado da Universidade de Évora) e Nelson Almeida. Um privilégio, poder ouvir de viva voz, in loco, a história da exploração arqueológica destes monumentos, contada por quem a levou a cabo!



O Menir da Meada, classificado (agora, sim) como Monumento Nacional, pelo Decreto n.º 16/2013, "é o mais impressionante monumento megalítico da região de Castelo de Vide, e o maior menir totalmente talhado pelo homem em toda a Península Ibérica. O monólito, com cerca de 4 metros de altura a partir do solo, 7,15 m de comprimento total e um diâmetro máximo de 1,25 metros, está implantado de forma isolada no patamar granítico do Rio Sever, fazendo parte de um conjunto de antas e menires deste material lítico, estes últimos implantados sequencialmente na linha de contacto entre granitos e xistos que delimita a mancha megalítica da Serra de São Mamede". Carvões recolhidos no interior da fossa de implantação, junto da sua base, submetidos a datação por radiocarbono e depois de calibrados, revelaram que este menir foi erguido entre 4810 e 5010 a.C., em pleno Neo-calcolítico. Trata-se assim do menir mais antigo até agora datado em todo o mundo. Descoberto em 1965, partido em dois, foi restaurado e levantado em 1993, por meio de um processo atribulado, coordenado pelo Professor Jorge de Oliveira, com o apoio de membros da comunidade. O dia da erecção foi devidamente documentado pela RTP.







Da Necrópole Megalítica dos Coureleiros, conhecia já a anta II (Monumento Nacional desde 1910) e a anta I (classificada como Imóvel de Interesse Público, em 1997). Desta vez, revisitei a anta II (acima) e pude fotografar o que resta da anta III (abaixo, também IIP, desde 1997).



Do outro lado da estrada, pude vislumbrar a anta IV da necrópole, também classificada como Imóvel de Interesse Público. Em tempos, foi-lhe adossada, à esquerda, uma casa, conhecida localmente como Casa do Judeu, hoje em ruínas. A anta foi "reutilizada como pocilga e os vãos preenchidos com pedra seca, entretanto removidos".
Em 1990, todas as antas da necrópole dos Coureleiros foram escavadas e estudadas pelo Professor Jorge de Oliveira, que nos deu preciosas explicações sobre o processo.



Memória futura (31)


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

Mais à frente, quase a chegar à Catedral, encontra-se o Monumento Zumbi dos Palmares, com escultura de bronze, da autoria da artista Márcia Magno, sobre o pedestal que antes sustentara a estátua de Tomé de Sousa, depois transladada para a Praça Municipal.



Zumbi foi um homem negro nascido livre no Quilombo dos Palmares, em 1655. Localizado na Serra da Barriga, na então capitania de Pernambuco (actual Estado de Alagoas), o Quilombo dos Palmares foi uma comunidade fundada por africanos e seus descendentes, fugidos da escravidão, que aí se refugiaram, a partir de 1580. Foi o maior quilombo da história do Brasil, tendo atingido o seu auge em 1690, quando a sua população contou com cerca de 30 mil habitantes, maioritariamente africanos fugitivos, mas também indígenas, caboclos e colonos portugueses marginalizados, como soldados que desertavam do serviço militar obrigatório.
A biografia de Zumbi é incerta e rodeada de mitos. Sabe-se muito pouco sobre ele, e mesmo o nome é controverso: existe a hipótese de que Zumbi não fosse o seu nome próprio, mas sim um título ou mesmo um epíteto (do quimbundo nzúmbi, «espectro; fantasma»). Uma versão, muito disputada, sustenta que, com cerca de 6 anos de idade, o menino teria sido capturado e confiado a um missionário, que o baptizou com o nome de Francisco, após o que recebeu os sacramentos, aprendeu português e latim e ajudava diariamente na celebração da missa, até fugir de volta para o quilombo, com 15 anos. Aos 20, tinha-se já notabilizado como um feroz e corajoso guerreiro, nas batalhas contra os portugueses, que tentavam destruir o quilombo. Por discordar de qualquer cedência aos colonizadores, antagonizou-se com o então rei do quilombo, Ganga Zumba, supostamente seu tio, o qual, por sua vez, reclamava uma suposta ascendência nobre no Reino do Congo. Zumbi afastou o líder, que veio a morrer em circunstâncias misteriosas, e assumiu o comando do quilombo e da resistência contra os portugueses. O ataque final contra Palmares ocorreu em Janeiro de 1694, quando foi tomada a Cerca Real (ou Mocambo) do Macaco, o principal núcleo de povoamento do quilombo. Ferido, Zumbi conseguiu fugir e viveu escondido no mato durante um ano e meio, atacando aldeias portuguesas, até que foi denunciado (supostamente, sob tortura) por um companheiro, emboscado, capturado e morto pelo capitão sertanista André Furtado de Mendonça e seus homens, a 20 de Novembro de 1695. A sua cabeça foi cortada, salgada e levada ao governador da Capitania de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro, que a mandou expor em praça pública, para servir de exemplo a outros escravos. E aí ficou, no Pátio do Carmo, em Recife, no alto de um mastro, até completa decomposição, como prova da mortalidade de Zumbi.





Na sequência de uma ideia surgida na década de 1970, no âmbito dos movimentos sociais contra o racismo, o dia 20 de Novembro, data da sua morte, foi adoptado como o Dia da Consciência Negra, em 1995; em 2003, foi incluído no calendário nacional escolar; em 2011, foi instituído oficialmente como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra; e em 2024 passou a ser feriado nacional.
As placas afixadas no pedestal do monumento exaltam a liderança de Zumbi contra a injustiça racial e em prol da liberdade para todos, naquela que é designada a "primeira experiência democrática" do Brasil. No entanto, discute-se hoje que essa é uma versão romantizada da história: no Quilombo de Palmares, eram mantidas, de forma conservadora, as práticas culturais e sociais africanas das regiões de origem dos seus habitantes; o sistema político vigente era a monarquia, assente na estratificação social, com elites políticas e militares, no topo da hierarquia, e escravos, no fundo; era prática comum a diferenciação entre os escravos fugitivos, que chegavam aos quilombos pelos seus próprios meios, e aqueles que eram trazidos por incursões de resgate dos quilombolas, que iam às fazendas e vilas para "libertar" escravos (frequentemente, os que se recusavam a ir eram capturados, levados à força e convertidos em cativos, para trabalharem nas plantações dos quilombos); quem tentasse sair do quilombo ou comunicasse com pessoas consideradas inimigas era perseguido e executado. Enfim, não seria o sistema ideal, mas era o melhor que muitos conseguiam e a que almejavam, o que tornou Zumbi dos Palmares um símbolo de resistência.

Conhal do Arneiro


Santana (Nisa), Abril de 2026

O Trilho da Mina de Ouro do Conhal (PR9 NIS) desenrola-se na freguesia nisense de Santana, que, no Censos 2021, tinha 277 habitantes, 74,7% dos quais com 65 anos ou mais, o que a revelou como a freguesia com maior percentagem de idosos em Portugal. É constituída por três pequenas povoações (Monte do Arneiro, Monte do Duque e Pardo) e tem uma densidade populacional de 10,2 hab./km².


Casas tradicionais, no Monte do Duque, perto do Centro Interpretativo do Conhal,
na antiga escola primária (Plano dos Centenários), onde tem início o percurso




A freguesia de Santana situa-se na zona norte do concelho, junto ao rio Tejo, que lhe proporciona uma paisagem e vistas belíssimas, sobretudo, junto às Portas de Ródão.





Um dos ramais do percurso vai até à Ilha do Cabecinho, através de uma ponte pedonal que foi destruída pelos temporais do último Inverno, o que inviabilizou essa parte do passeio. Descemos, então, até ao Tejo e ao cais do Pego das Portas, atravessando a Ribeira do Vale, por outra ponte pedonal suspensa, e seguindo pelo Trilho dos Burros, assim chamado porque era o único meio de transporte que por ali conseguia subir e descer, carregado de azeitona. Depois, fomos em direcção ao Arneiro e, pelo ramal do Castelejo, subimos até à zona mais elevada, de onde pudemos ter uma vista mais ampla do Conhal.



A Área Arqueológica do Conhal, também referida como Conhal do Arneiro, ocupa mais de 90 hectares delimitados pelo Ribeiro do Arneiro, pela margem esquerda do Tejo e pelas Portas de Ródão (Serra das Talhadas). Consiste numa extensa escombreira, constituída, essencialmente, por colossais aglomerados de seixos rolados de quartzito (designados localmente como "conhos", daí o nome "conhal"), com configuração cónica arredondada ou formando extensas fiadas, com mais de 100 metros de extensão e 5 metros de altura (as "conheiras"), testemunho da exploração aurífera levada a cabo pelos romanos. Trata-se dos sobrantes de uma exploração mineira de ouro aluvionar, pela técnica de ruina montium ou arrugia, descrita por Plínio, o Velho, na sua História Natural. Esta técnica consistia em desmanchar os depósitos detríticos auríferos, servindo-se da força motriz da água. A água utilizada no desmonte e posterior lavagem dos sedimentos e evacuação dos estéreis seria transportada, desde a Ribeira de Nisa, em canal ou canais (corrugi) escavados nas encostas da Serra das Talhadas até depósitos (piscinae ou stagna) situados a montante das formações a desmontar. A jusante, havia tanques de decantação e lavadouros ou canais de lavagem (agogae), onde as pepitas eram separadas do cascalho e areia. Neste processo, as pedras maiores eram retiradas manualmente e empilhadas onde não estorvassem. Próximo do extremo norte do conhal, o Castelejo, um relevo de 15 metros de altura, ocuparia uma posição central entre os canais de evacuação.
A excelência do ouro proveniente do leito do Tejo foi exaltada por diversos autores da antiguidade. Provando a qualidade do minério alentejano, D. João III terá mandado fazer um ceptro em ouro extraído deste rio, e Vasco da Gama uma cruz, mostrando, assim, aos venezianos que, em Portugal, havia metal mais precioso do que o do Oriente. No que respeita ao Conhal, estima-se que tenham sido extraídas cerca de 3 a 3,5 toneladas de ouro, com destino à capital do Império Romano. Ferro, aço e prata foram igualmente metais explorados nas margens do Tejo. A exploração mineira terá continuado, com menor expressão, na Idade Média, sobretudo, durante o domínio muçulmano. Isso explica que o canal ou levada que fornecia água ao Conhal do Arneiro seja conhecido localmente como Vala dos Mouros.



O percurso, circular, levou-nos de volta à antiga escola primária, situada nas imediações da Igreja Matriz de Santana (também conhecida como Igreja Paroquial do Arneiro).

Trakų vėtrungės


















Trakai (Lituânia), Março de 2026

Está visto que não posso mesmo ir lá acima.