Cidade alta


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

A cidade do Salvador foi construída como uma das primeiras cidades planeadas no mundo, seguindo o modelo de urbanização adoptado por várias cidades costeiras portuguesas, a saber: escolha de sítios elevados para a implantação dos núcleos defensivos; estruturação da cidade em dois níveis (a cidade alta, institucional e política, e a cidade baixa, portuária e comercial); cuidadosa adaptação do traçado das ruas às características topográficas locais; um perímetro de muralhas que não acompanhava o tecido construído, mas que se adaptava às características do terreno; e uma concepção de espaço urbano em que os edifícios públicos, civis ou religiosos, localizados em pontos proeminentes e com uma arquitectura mais cuidada que os destacava na malha urbana, tinham um papel estruturante fundamental na organização da cidade. A cidade alta de Salvador, construída num sítio elevado sobranceiro à Baía de Todos os Santos, foi uma cidade planeada segundo um traçado que, se por um lado, se adaptava às características topográficas do terreno e a um perímetro de fortificações de forma trapezoidal, por outro lado, era constituída no seu interior por quarteirões sensivelmente rectangulares. Daqui resultava uma malha regular, mas não perfeitamente ortogonal (adaptado de "As Formas Urbanas das Cidades de Origem Portuguesa", citado aqui).



Quando, em 1549, Tomé de Sousa, primeiro Governador-geral do Brasil (1549-1553), fundou a cidade de São Salvador da Baía de Todos os Santos, escolheu o sítio pela sua localização estratégica: elevada, próxima do porto e com uma barreira natural, constituída por um acidente geológico que funcionava como uma verdadeira muralha defensiva de 90 metros de altura por 15 quilómetros de extensão. O núcleo de onde irradiou a cidade situava-se no cume da elevação, onde foram construídos os edifícios administrativos. Corresponde hoje, grosso modo, à Praça Municipal (oficialmente, Praça Thomé de Souza).







Monumento de homenagem a Tomé de Sousa, encimado por uma réplica em bronze da estátua da autoria do escultor italiano Pasquale de Chirico. Na base, várias placas que evocam as figuras principais da fundação de Salvador.
Esse primitivo núcleo da cidade foi executado pelo arquitecto militar Luís Dias, nomeado, em 1549, "Mestre da Fortaleza e Obras de Salvador". Era rodeado por uma cintura de muralhas, em taipa, que possuía duas portas: a de Santa Catarina, ao Norte, e a de Santa Luzia, ao Sul, flanqueadas por baluartes com pontes levadiças sobre os fossos circundantes, ao estilo medieval.

Excerto do mapa de Salvador em 1551, elaborado por Theodoro Sampaio (reproduzido aqui). Pode ver-se, na extrema esquerda, fora de portas, a área doada por Tomé de Sousa aos jesuítas, liderados pelo padre Manuel da Nóbrega, que aí fez construir uma primeira capelinha de taipa e o primeiro edifício do Colégio dos Jesuítas da cidade. No mapa, a área é referida como "Conjunto dos Jesuítas".
Porém, em 1587, os muros de taipa estavam em ruínas, por falta de manutenção, pelo que, em 1605, foi desenhada uma nova muralha, em alvenaria, que envolvia uma área três ou quatro vezes maior que a original. No centro da nova expansão urbana, desenvolvida ao longo da segunda metade do século XVII, situavam-se o Colégio dos Jesuítas e o Terreiro de Jesus. Na secção Norte da muralha, abria-se a Porta do Carmo, assim chamada por dar acesso ao caminho conducente ao Convento do Carmo. A partir de 1613, foi aí construída uma bateria, conhecida como Castelo das Portas do Carmo, que ficava no que é hoje o Largo do Pelourinho. João de Lencastre, Governador-geral do Brasil (1694-1702), ordenou a construção do hornaveque e do reduto a cavaleiro, que defendia a porta exterior, brasonada ao alto com as armas da cidade. Apresentava-se como uma "soberba plataforma com dois baluartes", onde diariamente permanecia de guarda uma companhia. A estrutura terá sido demolida no tempo de Rodrigo José de Meneses e Castro, Governador da Capitania da Bahia entre 1784 e 1788 (uma descrição detalhada da fortificação de Salvador pode ser encontrada no dossier elaborado como suporte à proposta de inscrição do Centro Histórico da Cidade de Salvador na Lista do Património Mundial da UNESCO, disponível aqui).



A Casa da Câmara foi inaugurada em 13 de Junho de 1549, numa construção de taipa e palha que reunia os poderes executivo, judiciário e legislativo. Em 1551, foi construída, pelo mestre Luís Dias, nova Casa de Câmara e Cadeia, feita com pedra, cal, barro e coberta com telhas. Nos pisos térreo e subterrâneo, funcionavam a cadeia, com celas e enxovias, açougues e mercado. Em 1660, o governador Francisco Barreto de Menezes deu início a uma reforma que concedeu à Câmara a imponência que deveria ter um edifício público da sua importância. Alguns anos depois, em 1696, foi construída uma torre, onde foi instalado um sino, resultando na actual estrutura arquitectónica do edifício, derivada do maneirismo português do século XVII, ou estilo-chão. Em 1885, a fachada original foi profundamente alterada, para se adequar ao estilo artístico vigente, ganhando um aspecto neo-renascentista, e o velho sino deu lugar a um relógio eléctrico. Porém, em 1970, foi restituída a antiga fachada, convertendo o Paço da Câmara Municipal num dos mais importantes exemplares da arquitectura civil colonial brasileira. Lamentavelmente, no início da tarde do dia 24 de Fevereiro de 2025, um incêndio, que começou no ar condicionado do Salão Nobre, atingiu parte do edificado.



Também no tempo de Tomé de Sousa, em meados do século XVI, começou a ser construído, igualmente em taipa, o Paço do Governador, para ser o centro da administração portuguesa. Posteriormente, sofreu alterações e ampliações, e teve várias funções, como quartel e prisão. No fim do século XIX, foi submetido a uma profunda reforma, concluída em 1900, que lhe conferiu um nobre e imponente estilo neo-clássico, ao gosto francês. Porém, em 10 de Janeiro de 1912, o palácio foi atingido pelo bombardeio da cidade e ficou praticamente em ruínas. Foi reconstruído e reinaugurado em 1919, com o nome de Palácio Rio Branco, em homenagem a um dos maiores estadistas brasileiros, o Barão do Rio Branco. Em 1984, foi feita uma restauração completa do edifício, devido ao péssimo estado de conservação em que se encontrava. Actualmente, encontra-se fechado para nova reforma.
Na foto, à esquerda do Palácio Rio Branco, pode ver-se parte da fachada do Palacete Tira-Chapéu, um dos poucos remanescentes e um dos mais importantes exemplares do estilo eclético em Salvador.
Ainda na Praça Municipal, encontra-se o chamado Palácio Tomé de Sousa, sede da Prefeitura Municipal de Salvador, projectado pelo arquitecto João Filgueiras Lima e construído e inaugurado durante o mês de Maio de 1986. Consiste numa estrutura de aço e vidro, com uma área de 2 mil metros quadrados, que não fotografei, porque não lhe achei graça nenhuma. Agora, conhecendo a sua história, lamento não o ter feito.
A Prefeitura Municipal de Salvador funcionava no Palácio Rio Branco que, na década de 1980, fechou para obras. Então, foi solicitado o projecto de um edifício desmontável que abrigaria, provisoriamente, a Prefeitura, cujo destino final seria um dos casarões abandonados da zona. No entanto, quatro décadas depois, a construção provisória tornou-se a sede duradoura do órgão máximo do Poder Executivo da primeira capital do Brasil. Porém, devido à sua incompatibilidade arquitectónica com o entorno histórico-colonial declarado património, a construção foi alvo de uma acção judicial com vista à sua remoção. Por decisão da Justiça, o prazo para a desmontagem já terminou, pelo que o edifício deverá sair do local a breve trecho.



A Praça Municipal constitui a principal entrada turística no Centro Histórico, pois é aí que vai dar a subida do Elevador Lacerda, o primeiro elevador urbano do mundo, inaugurado em 8 de Dezembro de 1873, ligando a cidade baixa e a cidade alta. Chegados ao topo, come-se um gelado da Cubana, enquanto se usufrui da belíssima vista sobre a baía e a cidade baixa, com o Mercado Modelo aos nossos pés.

Heavens above (91)






Portalegre, Fevereiro de 2026

Um mês de pouco céu (e muito inferno).

Aquém e além do Carmo


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

Ao fundo do Largo do Pelourinho, começa a subida para o Carmo. A Ladeira do Carmo é uma rua estreita, íngreme, empedrada, castiça e colorida, que desemboca junto à Igreja da Ordem Terceira do Carmo, mesmo ao lado da Igreja e Convento de Nossa Senhora do Carmo.

Início da Ladeira do Carmo, à esquerda.
Igreja da Ordem Terceira do Carmo, construída entre 1788 e 1860.
À sua esquerda, a Igreja e o Convento do Carmo.
O Convento começou a ser erguido em 1586, na colina então conhecida como Monte Calvário, ao norte de Salvador, e é um dos maiores e mais antigos da Ordem do Carmo no Brasil. A Igreja do Carmo foi construída no início do século XVII, em estilo neoclássico. No contexto da guerra contra os holandeses, o complexo serviu como quartel-general das forças de resistência, durante a invasão holandesa de Salvador, entre 1624 e 1625: o primitivo convento foi ocupado pelas tropas portuguesas e a igreja transformada em paiol. Foi na Igreja do Carmo, na sala onde fica a sacristia, que os holandeses se renderam e se retiraram da cidade, em Maio de 1625, após serem derrotados pelas tropas luso-espanholas (vigorava, então, a União Ibérica). O actual convento teve a sua construção iniciada em 1681 e, a partir da década de 1970, funcionou aí uma unidade hoteleira de luxo, creio que do Grupo Pestana.



Desde a sua implantação, o Carmo tornou-se um marco de referência na cidade em crescimento: quando, em 1594, Cristóvão de Aguiar Daltro fez construir uma capela em honra de Santo António, todo o bairro que se desenvolveu em seu redor ficou conhecido como Santo António Além do Carmo. O bairro de Santo António compreende a área que vai da Cruz do Pascoal, no Barbalho, ao Largo de Santo António Além do Carmo (oficialmente, Largo do Barão do Triunfo).



A Cruz do Pascoal, ou Oratório Público da Cruz do Pascoal, foi construída, em 1743, por Pascoal Marques de Almeida, natural de Lisboa, em devoção a Nossa Senhora do Pilar. É constituída por uma coluna de secção octogonal encimada por um nicho inspirado nas torres sineiras das igrejas baianas do início do século XVIII, onde fica exposta uma imagem de Nossa Senhora do Pilar. O oratório é praticamente todo revestido a azulejos portugueses azuis e brancos e é cercado por um gradil de ferro, colocado em 1874, para sua maior protecção.

Continuando pela Rua Direita de Santo António, a principal do bairro.




Centro de Convivência Irmã Dulce dos Pobres - OSID.
Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora da Conceição do Boqueirão dos Homens Pardos, ou Igreja da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora da Conceição do Boqueirão, ou Igreja da Ordem Terceira da Beata Maria Virgem de Nossa Senhora da Conceição dos Irmãos Pardos do Boqueirão, iniciada em 1726.




Até à década de 1980, o bairro de Santo António era sinónimo de modernidade e irreverência, abrigando artistas famosos, como Caetano Veloso e Gilberto Gil. No entanto, embora apresentasse uma série de atractivos culturais, entrou em processo de degradação. Com a tomada de consciência da necessidade de preservação do património histórico, iniciou-se a reforma da Igreja de Santo António. A partir daí, o bairro desenvolveu-se sem perder o seu charme, através de um processo de preservação que, ao contrário do que aconteceu com o Pelourinho, ocorreu de forma natural e contínua, permitindo uma ocupação comercial e turística gradual, harmonizada com a tranquilidade de um bairro residencial.



A Igreja de Santo António Além do Carmo surgiu, em 1594, como uma pequena capela, mas foi passando ao longo dos séculos por diversas ampliações e reformas, sendo reconstruída em 1813. No século XX, foi o local de baptismo e comunhão de Santa Dulce dos Pobres.
À importância histórica do bairro acresce que foi o centro da resistência à tentativa de invasão holandesa de 1638, conduzida por Maurício de Nassau, que viu as suas tropas repelidas ao fim de 40 dias de cerco. A Igreja de Santo António abrigou a resistência aos ataques holandeses e, após a vitória, o Padre António Vieira utilizou o seu púlpito para pregar o sermão "À beira das trincheiras que, por 40 dias, defenderam a cidade contra as tropas de Nassau".



O Forte de Santo António Além do Carmo remonta à primeira das invasões holandesas (1624-1625). O governador-geral Diogo Luís de Oliveira (1626-1635) ordenou ao Engenheiro-mor e dirigente das obras de fortificação do Brasil a construção de trincheiras. Alguns denominaram esta fortificação como Baluarte de Santiago. Em 1638, o forte foi reforçado e foi palco da resistência contra a tentativa de invasão conduzida por Nassau. A estrutura actual foi iniciada em Novembro de 1695, no governo-geral de João de Lencastre (1694-1702), e concluída em 1703, no de D. Rodrigo da Costa (1702-1705). Em posição dominante sobre a colina, o Forte de Santo António Além do Carmo defendia a entrada Norte da cidade e cruzava fogos com o Forte do Barbalho, com o qual cooperava. Em 1813, ocorreu um grande desmoronamento na colina junto ao baluarte Norte, após o que, em 1830, o imóvel foi transferido para a jurisdição do Ministério da Justiça, que aí instalou a Cadeia da Correção. No final de 1863, foi transformado em prisão civil, depois Casa de Detenção, desactivada em 1976. Entre 1997 e 2006, o Forte foi alvo de extensas obras que o salvaram da ruína e o converteram num espaço cultural, o Forte da Capoeira – Centro de Referência, Pesquisa e Memória da Capoeira da Bahia, instituição que tem por objectivo preservar e promover a Capoeira.

Vista para o porto e a Baía de Todos os Santos.

Pelô


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

Quem se aventura pelo Centro Histórico de Salvador não procura apenas ver igrejas e arte sacra: o ponto alto do passeio é o bairro do Pelourinho, carinhosamente apelidado de Pelô. Situa-se, genericamente, entre o Terreiro de Jesus e o Largo do Pelourinho, por entre ruas estreitas e íngremes, calcetadas com paralelepípedos e ladeadas por coloridos casarões e sobrados coloniais.





Descendo do Terreiro de Jesus pela Rua das Portas do Carmo (a pintura nas portas já tinha passado por aqui).
Fundação Casa de Jorge Amado, no topo do Largo do Pelourinho (oficialmente, Praça José de Alencar). À sua esquerda, o Museu da Cidade.


Até ao início do século XX, era um bairro eminentemente residencial, onde se concentravam as melhores moradias, e era também o centro comercial e administrativo de Salvador. A partir da década de 1950, com a modernização da cidade e a transferência de actividades económicas para outras zonas da capital baiana, o Pelourinho sofreu um forte processo de degradação, desvalorizou-se e assistiu a uma mudança demográfica que o tornou um bairro popular, palco da cultura negra da cidade. Aí tiveram origem grupos culturais e comunitários que se transformaram, nas duas últimas décadas do século XX, em importantes actores políticos.



Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, ou Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída a partir de 1704.


Somente a partir das décadas de 1980 (com o seu reconhecimento, pela UNESCO, como Património da Humanidade) e 1990 (com a revitalização da zona e a remoção da maioria dos moradores) é que o Pelourinho se transformou num importante centro cultural de Salvador, atraindo artistas de todos os géneros (cinema, música, pintura) e valorizando a expressão popular e étnica.

A Casa do Benin, no edifício branco.
Em 1996, Michael Jackson filmou aí a versão brasileira do videoclipe do seu tema "They Don't Care About Us", acontecimento que ainda hoje é recordado efusivamente na casa do Largo do Pelourinho em cuja varanda o artista cantou.

Na casa azul, à direita, um póster e uma imagem de Michael Jackson em tamanho natural, na varanda central.


Ao fundo do Largo, começa a subida para o Carmo.

Santos negros


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

A dependência mais curiosa da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco foi, para mim, a Casa dos Santos. É uma divisão rectangular, no piso térreo, com saída e janelas para o exterior, que preserva um importante conjunto de imagens de santos de roca e de vestir, instalados numa série de capelas neoclássicas que circundam o aposento. Estátua de roca ou imagem de roca designa a tipologia de imagens sacras que se destinam a ser levadas em procissão e que são vestidas com trajes de tecido. Este género de imagens adquiriu considerável importância no culto católico, especialmente durante o período barroco, estendendo-se até meados do século XIX.
A Casa dos Santos foi construída em 1844, sob a direcção de Joaquim Francisco de Mattos, e alberga, além das figuras que, na Semana Santa, representam as diferentes estações da Via Sacra (o Senhor no Horto, o Senhor na Pedra Fria, o Senhor na presença de Pilatos, o Senhor na Prisão, o Senhor dos Açoites, o Senhor dos Passos, Cristo Crucificado e o Senhor Glorioso), as imagens marianas de Conceição Maria Santíssima e de Nossa Senhora das Dores e todo um panteão de devoção franciscana: Santa Margarida de Cortona, Santo Ivo Doutor, São Domingos, São Francisco, Santa Clara, Santa Coleta, São Vivaldo, Santa Rosa de Viterbo, São Elzeário, Santa Delfina, São Lúcio, Santa Bona, Santa Isabel da Hungria, São Conrado, São Luís Rei de França, Santa Isabel Rainha de Portugal. Porém, a que mais chama a atenção é a figura de um negro, de hábito escuro, com um sorriso luminoso e o Menino ao colo, identificado como Beato António de Loures. Ora, com esse nome, não encontrei santo algum.





Uma pesquisa mais demorada levou-me a crer que se trata do santo de devoção popular António de Categeró (ou de Cartago, de Noto ou Etíope). Foi um negro muçulmano do Norte de África, vendido, no século XVI, como escravo para a Sicília, onde foi catequizado e se converteu ao cristianismo. Após ser libertado, dedicou-se a cuidar de doentes, em hospitais, ingressou, posteriormente, na Ordem Terceira de São Francisco e, mais tarde, decidiu seguir uma vida contemplativa e tornou-se eremita no deserto. O seu corpo incorrupto, 50 anos após a morte, assim como as histórias de milagres ocorridos por sua intercessão, conduziram à sua beatificação, cerca de 1611.
Foi por intermédio dos jesuítas que a devoção a Santo António de Categeró foi de Itália para o Brasil. A primeira Fraternidade de António de Categeró foi fundada em 1592, muitas igrejas lhe foram dedicadas e mais de 60 imagens representavam este santo africano, no final do período barroco. Foi objecto de devoção, sobretudo, pelos escravos trazidos de África, que se identificavam com a cor da sua pele e com a sua história de vida. Santo Antônio de Categeró, São Benedito, Santo Elesbão e Santa Efigénia são os quatro santos negros cuja devoção se espalhou pela comunidade de ascendência africana, entre os séculos XVI e XVIII.
Já em Cairu, na Igreja de Santo António, fui recebida à entrada por outra imagem de um santo negro com o Menino ao colo, que depreendi que fosse o mesmo que vira em Salvador.




Cairu (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

Mas não era. Este foi mais fácil de identificar como São Benedito, santo padroeiro com grande tradição em Cairu, que, anualmente, organiza as festividades conhecidas como Reinado (ou Reisado) de São Benedito.
Como se explica, então, a semelhança entre as imagens? São Benedito é tradicionalmente figurado tendo nos braços ou o Menino Jesus ou um cesto de pão. Acontece que também Categeró foi frequentemente representado com o Menino, o que tendia a gerar confusão com São Benedito. Foi por isso que, em 1699, a autoridade religiosa da Bahia censurou o uso dessa imagem no processo de instituição da Irmandade, definindo que Categeró usaria como atributo o crucifixo na mão direita. Mas nem assim conseguiu tirar o Menino do colo do Beato, onde, pontualmente, se vinha aninhar, para grande irritação dos franciscanos baianos, que, desde 1699, iniciaram uma "obsequiosa negação de Categeró", que se agudizou entre 1764 e 1768.

Um São José de azulejos T6:3










Alandroal, Outubro de 2023


Terena (Alandroal), Outubro de 2023














Juromenha (Alandroal), Janeiro de 2026