Mostrar mensagens com a etiqueta Grécia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Grécia. Mostrar todas as mensagens

Calçada (9)


Lindos (Ilha de Rodes, Grécia), Agosto de 2000

Não é portuguesa, a calçada, está bom de ver, mas é bem bonita. Lembro-me da impressão que me causou, num fim de tarde em que nos lembrámos de explorar a cidade branca que avistávamos da praia de Haraki. Lembro-me da luz do fim do dia, na acrópole, da vista maravilhosa, e de descer, já de noite, pelas ruas estreitas, inclinadas e escorregadias, decoradas a preto e branco por seixos dispostos ao alto. Melhor de ver que de usar, confesso.
Apesar das diferenças na técnica e nos materiais, achei que ficava bem na colecção (que não o é, note-se).

Φάροι


Farol de Hania

120, conta a Grécia, o que não é de mais, tendo em conta a extensão de costa que tem de gerir. Encontrei estes três em Creta, em Agosto de 2000.


O farol de Heraklion (Φάρος Ηρακλείο) reduzido à base


Ainda completo, numa fotografia antiga encontrada aqui


Farol de Rethymno (Φάρος Ρεθύμνου)


Farol de Hania (Φάρος Χανίων)

Ventos passados




Atenas (Grécia), Agosto de 2000

A Torre dos Ventos (Αέρηδες), na ágora romana de Atenas, foi concebida como uma fantástica estrutura de orientação, que possuía uma combinação de relógios de sol, um relógio de água e um catavento (ανεμοδείκτης, em grego) em latão, representando um tritão. Esse catavento, há muito desaparecido, indicava a direcção do vento apontando para cada um dos oito deuses representados no friso da torre.


Reconstituição de Stuart & Revetts, The Antiquities of
Athens (Vol. I)
, 1762 (retirada daqui)

Papa-unescos (I)


Torre de Belém, Lisboa (Portugal), Dezembro de 2007

Porque, no que diz respeito a jogos e colecções, vale tudo, e tendo-me apercebido de que a classificação da UNESCO é um critério forte na escolha de rotas e desvios e de que a lista é uma autêntica caderneta de cromos, comecei a dar forma a um, não sei se jogo ou colecção, que consiste em compilar os sítios classificados como património mundial que já visitei. E foram bastantes. Por aqui passaram já (ordenados alfabeticamente pelo nome do país onde se situam; no número, à esquerda, ligação para a página respectiva, no sítio da UNESCO):

(1) a Ilha dos Museus, em Berlim (Alemanha);
(2) o palácio e os jardins de Schönbrunn (Áustria);
(3) o centro histórico de Viena (Áustria);
(4) o conjunto histórico de Split e o palácio de Diocleciano (Croácia);
(5) a cidade velha de Dubrovnik (Croácia);
(6) o Parque Nacional dos Lagos Plitvice (Croácia);
(7) o centro histórico de Trogir (Croácia);
(8) a catedral de S. Tiago, em Šibenik (Croácia);
(9) o centro histórico de Salamanca (Espanha);


Fortaleza de Suomenlinna (Finlândia), Agosto de 2003

(10) o centro histórico de Cáceres (Espanha);
(11) o centro histórico de Tallin (Estónia);
(12) a fortaleza de Suomenlinna (Finlândia);
(13) o palácio e o parque de Versailles (França);
(14) as margens do Sena, em Paris (França);
(15) os caminhos de Santiago de Compostela em França, nomeadamente, no que diz respeito às basílicas e catedrais em Bordéus (França);
(16) o Porto da Lua, em Bordéus (França);
(17) a Acrópole de Atenas (Grécia);
(18) o sítio arqueológico de Delfos (Grécia);
(19) a cidade medieval de Rodes (Grécia);


Porta dos Leões, Micenas (Grécia), Agosto de 2000

(20) Meteora (Grécia);
(21) os monumentos paleocristãos e bizantinos de Tessalónica (Grécia);
(22) o santuário de Asclépio, em Epidauro (Grécia);
(23) o mosteiro de Osios Loukas (Grécia);
(24) o sítio arqueológico de Micenas (Grécia);
(25) Budapeste e as margens do Danúbio (Hungria);
(26) os locais sagrados e os caminhos de peregrinação nas montanhas Kii, nomeadamente, em Kôyasan (Japão);
(27) a medina de Marraquexe (Marrocos);
(28) a região natural e histórico-cultural de Kotor (Montenegro);
(29) Bryggen (Noruega);


Konpon Daitô, Kôyasan (Japão), Agosto de 2004

(30) o mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, em Lisboa (Portugal);
(31) o centro histórico de Évora (Portugal);
(32) o centro histórico de Praga (República Checa).

Para aqueles que não se conformam com a opinião dos especialistas, nesta época de faça-você-mesmo, há ainda a lista das Novas Sete Maravilhas, ao alcance de todos, por todas as vias. Contempla o Cristo Redentor, que também já passou por aqui. Por aí, não tenho eu muito mais sorte, que as outras que visitei não passaram de finalistas, como, por exemplo, a Torre Eiffel (tão bonita aqui) e a Acrópole de Atenas.


Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa (Portugal), Julho de 2006

O mais interessante é que ainda por aqui não passaram muitos outros, que este diário não anda ao sabor dos dias, mas da minha disposição. Está já na calha um Papa-unescos (II), cheiinho de lugares lindos (pelo menos, mais uns 15), de que ainda aqui não falei.

As minhas imagens\Grécia


O Erecteion, na Acrópole de Atenas


O pôr-do-sol no cabo Sounion, no extremo sul da Ática


O Olimpo


O mosteiro de Osios Loukas


O Mar das Oliveiras, perto de Delfos


A baía de Hania, em Creta


Uma ruela na cidade de Rodes

Tendo adquirido autonomia imagética, não quero deixar de prestar o meu agradecimento ao Google e a todos aqueles que, involuntária e anonimamente, contribuíram para a ilustração deste espaço durante largos meses (mais precisamente, de Julho de 2003 a Julho de 2004).

A Grécia em destaques (IV): os calhaus

Antiga Corinto

Sítios arqueológicos
Há-os por todo o território continental e ilhas, de diferentes épocas, mais ou menos bem conservados. Regra geral, subsistem no local as pedras: esculturas, baixos-relevos, frescos e mosaicos foram retirados e encontram-se em museus, na Grécia ou no estrangeiro, juntamente com todo o tipo de objectos encontrados.
A Acrópole de Atenas é imponente. Situada numa elevação, domina toda uma cidade plana e cinzenta. Junto à Acrópole, o Areópago, a rocha do tribunal dos deuses; em frente, o monte Licabetos; em baixo, a cidade. O Parténon é inconfundível, com a brancura gritante das suas colunas sólidas. Curiosamente, era um templo muito colorido, como de resto a generalidade da arte helénica; o tempo é que se encarregou de limpar a pedra, devolvendo-lhe a brancura original. Transformado pelos turcos em armazém de pólvora, o Parténon explodiu, no século XVII, tendo sido reconstruído depois, com o que foi possível aproveitar. Também o Erecteion, com as suas cariátides, o Templo de Atena Nike, à entrada, o teatro de Dionísio, na encosta, todo o complexo, enfim, é digno de visita atenta.
Ainda em Atenas, a Ágora antiga, a Ágora romana e uma quantidade de pequenas escavações, aqui e ali.
Dos muitos outros sítios arqueológicos que visitei, destaco o de Delfos. Absolutamente impressionante, a situação geográfica, com uma paisagem de cortar a respiração. O complexo foi todo cuidadosamente reconstruído; as pedras não aproveitadas encontravam-se alinhadas, como peças de dominó. Episódio curioso: ao tentar identificar os vários edifícios pelas ilustrações do guia, dei-me conta de que o templo de Apolo, totalmente reconstruído na fotografia dos anos 80, encontrava-se, ao vivo, em 2000, em construção! Apercebi-me de que, como já tinha suspeitado noutros locais, as investigações devem ter provado que a reconstrução não estava exacta, pelo que o templo foi cuidadosamente desmontado e remontado, como uma construção Lego.

Delfos

Museus
Os mais importantes na Grécia são, sem dúvida, os de arqueologia. O maior é o Museu Nacional, em Atenas, com uma colecção impressionante de vestígios de várias épocas e civilizações, de entre as quais se destacam a cicládica, a micénica, a helénica clássica e a romana. Grande quantidade de estelas fúnebres, de jóias (entre elas, as do Tesouro de Atreu), de objectos do quotidiano, vidros e faianças, e de esculturas, com grande incidência de "mulas sem cabeça". Aprendi que a estatuária era uma indústria florescente entre gregos e romanos e que havia um grande cuidado não só com a realização como com a reciclagem das peças. Ou seja, estátuas de políticos mortos ou depostos e de senhores que não as tinham podido manter eram reaproveitadas para novos donos: escolhiam o corpo que mais lhes agradava, a cabeça que mais se lhes assemelhava, faziam-se as trocas e os retoques necessários e nascia nova obra. Eram negócios prósperos, os estaleiros de escultura!
Por entre salas e salas e salas profusamente recheadas, encontram-se peças absolutamente incríveis, de grande beleza, técnica e delicadeza, algumas com mais de 4000 anos!
Grande, também, o museu de Eraklion, em Creta, com o espólio das escavações de Cnossos e grande destaque para as civilizações cretenses, a minóica em particular.
Os maiores sítios arqueológicos têm espaços onde estão expostas as peças que não foram recolhidas pelos grandes museus. Assim, há museus na Acrópole e na Ágora antiga de Atenas, em Delfos, em Corinto, em Epidauro, etc. O de Delfos é pequeno (16 salas), mas tem peças belíssimas. Entre elas, uma estátua de Antinoos. Antinoos era um jovem egípcio (um kouros) de beleza estonteante, por quem o imperador Adriano se perdeu de amores. De tal forma que, quando o moço morreu prematuramente, aos 18 anos, afogado no rio Nilo, o imperador, transtornado, elevou-o à categoria de um deus, ordenando a colocação de imagens suas em lugares públicos de todas as grandes cidades do império romano. A estátua do museu de Delfos ainda congrega amontoados de visitantes em seu redor e suscita olhares lascivos e suspiros, de admiradores de ambos os sexos.

Antinoos

A Grécia em destaques (III): as ilhas

Praia de Matala, Creta

Creta
A maior das ilhas gregas, acima do Norte de África. Devido à sua situação geográfica, teve, desde sempre, grande importância histórica. Berço da civilização minóica, alberga as ruínas do palácio de Cnossos, cuja escavação esteve a cargo de um grupo de jovens e ricos aventureiros do início do século XX, que, no espaço de um (!) mês, puseram à vista a maior parte dos vestígios (que não conseguiram estragar com as pressas). Mesmo assim, provêm de Cnossos achados impressionantes, entre faianças, frescos e jóias, em exposição no Museu Arqueológico de Eraklion, a capital da ilha. Importantes são também os sítios arqueológicos de Phaistos e Gortys, no último dos quais foi encontrado o famoso código da lei. Mais interessantes em Creta, quanto a mim, são as influências turcas e venezianas, em cidades como Rethymnon e Chania, na parte ocidental da ilha. E ainda os curiosos túmulos romanos escavados nas rochas da praia de Matala, que serviram de abrigo aos hippies que para aí foram viver, nos anos 60 e 70.

Porto de Rethymnon, Creta

Rodes
A ilha mais oriental do Dodecaneso, muito próxima da costa turca, teve grande importância geo-estratégica, no tempo das cruzadas. A capital, a cidade de Rodes, possui uma belíssima cidadela medieval (Património da Humanidade), e pouco mais do que isso: o resto da cidade é preenchido com ruas apinhadas de hotéis, restaurantes e lojas para turistas. É um paraíso de férias para jovens escandinavos, que bebem e cantam nas esplanadas noite fora (até a polícia aparecer para acabar com a festa). Não é, decididamente, um bom sítio para descansar. À entrada do porto, duas colunas encimadas por, respectivamente, um veado e uma corça marcam o local onde assentariam os pés do mítico Colosso de Rodes, uma das sete maravilhas da Antiguidade. Destaque, ainda, para a cidade de Lindos, uma perolazinha de casinhas caiadas que se estendem por uma encosta, até à praia. E uma curiosidade: um pequenino santuário, no cimo de um monte, 297 degraus acima da praia de Xaraki. Depois de íngreme escalada, soube que aquele é um santuário onde as mulheres gregas vão pedir fertilidade, graça que, uma vez obtida, é paga atribuindo ao bebé o nome do santo que a concedeu (Trampiko ou Trampika, consoante o sexo). Não sei como é que o nome soa em grego, mas escusado será dizer que fiquei muito feliz por não ter visto a minha família aumentar, nos meses que se seguiram.

Colosso de Rodes

A Grécia em destaques (II): as serras

Canal de Corinto

Peloponeso
É uma península, ligada pela Natureza ao sul da Grécia, e dele separada pelo Homem, pelo canal de Corinto. O dito canal foi uma das maiores obras de engenharia do final do século XIX, concebido para ligar o mar Egeu ao Golfo de Corinto, encurtando assim o tempo de navegação entre o Adriático e o Egeu. Actualmente, a largura do canal é insuficiente para a passagem segura de navios de maior porte, pelo que é essencialmente usado para cruzeiros turísticos. Corinto alberga ainda o sítio arqueológico da antiga Corinto e o respectivo museu. A uma distância aceitável, encontramos o sítio arqueológico de Micenas, com as ruínas do palácio, a Porta dos Leões e os túmulos do tesouro de Atreu, onde foi encontrada, no meio de um espólio magnífico (em exposição no Museu Nacional de Arqueologia), a famosa máscara de ouro que se diz ser de Agamémnon. Ainda na zona da Argólida, o complexo de Epidauro, com o santuário de Asclépio e o teatro, em belíssimo estado de conservação, com uma acústica excepcional.

Teatro de Epidauro

Ática
A região do sul, onde fica Atenas, tem muitas praias, mas pouca areia, pelo menos que eu tivesse visto. A Grécia foi dotada pelos deuses com um mar divino, límpido, calmo e quente, mas a areia deixa a desejar, variando entre areão grosso, acinzentado, e grandes calhaus. Areia fina e clara, que me asseguraram haver, nunca vi. Na ponta sul, no cabo Sounion, o santuário de Poseidon oferece uma vista fabulosa. Numa das colunas do templo, a assinatura vândala de Lord Byron, que, depois de ter sucumbido aos encantos de Sintra, foi arrastado para a Grécia pelo fulgor romântico das lutas pela independência. Apreciei, em particular, as estradas de montanha, com vistas incríveis; o peixe grelhado, fresquíssimo; a maneira de cozinhar o polvo (primeiro cozido e depois grelhado), que o torna muito suave e saboroso; a salada grega, com ingredientes tipicamente mediterrânicos (tomate, cebola, pimento, pepino e alface), temperados com azeite, orégãos e queijo feta; a riqueza dos olivais, imensos, com oliveiras centenárias, cujos troncos assumem diâmetros descomunais (faziam, para aí, 5 de mim).

Templo de Poseidon, Sounion. «Byron», na primeira mancha castanha a contar de baixo

InterRail 2003 / Mediterrâneo (II)

Corfu
Passei quatro dias fantásticos nesta pequena ilha grega. É um local paradisíaco de águas cristalinas e sol radioso, o local ideal para descansar uns dias, que foi o que aconteceu, tendo aproveitado para conhecê-lo melhor. Aluguei um carro (na Grécia nota-se logo que se praticam preços bastante inferiores, na sua maioria, aos praticados em Itália), e sem dúvida que este constitui o melhor meio para visitar a ilha, apesar de as estradas serem estreitas, sinuosas e de fraca qualidade. Esta não possui monumentos dignos de relevo, mas tem muitas praias fantásticas com paisagens de cortar a respiração, desde que se saiba encontrá-las. Gostei muito do artesanato e da gastronomia, sendo que nas localidades do interior, mais afastadas da costa, os preços praticados são bastante inferiores, pelo que devem ser a melhor opção. Nesta ilha voei num barco (depois de pagar 30€, claro!). Era um barco de borracha com uma asa delta acoplada e um motor para impulsão. Foram apenas quinze minutos, mas a paisagem que se tem das alturas (o piloto disse que estivemos a 600 metros de altura, mas ainda hoje eu acho isso muito improvável, apostaria mais nos 300 metros) recompensa largamente o investimento inicial. Não se vê a ilha toda, mas dá para ver o outro extremo da costa, a uns dez quilómetros de distância. Vi também umas danças tradicionais chamadas Sirtaki que me agradaram muito. Adorei a coreografia... feita a um ritmo alucinante!

Palaiostratiska, em Corfu, onde o azul da água se confunde com o azul do céu

Patras
É uma das principais portas de entrada marítimas do continente grego. A arquitectura não é nada de especial, mas enquanto espera pelas ligações por comboio e se se sentir com forças para subir as incontáveis escadarias até ao Castelo (de origem medieval), a visão de lá é deslumbrante. Vê-se o porto, os barcos e uma linha de montanhas ao longe excelente para tirar fotografias. Decidi entrar nalgumas igrejas locais, de estilo Bizantino. Comi um pouco de pão oferecido à entrada e observei como são as suas missas e sermões religiosos. São completamente diferentes dos da Europa Ocidental, mais vivos, têm mais cor e notei também um maior fervor religioso. Aliás, a própria aparência exterior em abóbada e a ornamentação dos templos é muito rica e distingue-se perfeitamente dos nossos templos religiosos.

Atenas
Foi o ponto mais afastado de Portugal em que me encontrei. Eu por mim continuava até à Turquia, que creio ser um local fabuloso com uma cultura completamente distinta da nossa (apesar das notícias nos meios de comunicação, não creio que haja grande perigo em viajar para esta região, desde que se vá acompanhado), mas como os meus companheiros de viagem não tinham mais dias livres, tive de fazer marcha-atrás, para grande pena minha. Atenas tem quatro milhões de habitantes, como se pode constatar através da vista da Acrópole: um imenso manto branco de construções em todas as direcções, vendo-se o mar a este (a uns vinte quilómetros de distância) e o Monte Lycabetus a Oeste. É imprescindível uma visita a este monumento de importância mundial, símbolo da cultura helénica, da qual somos herdeiros. É uma pena esta ter sido bombardeada e quase completamente destruída por uma esquadra turca há cerca de trezentos anos, mas o que restou permite-nos ainda sonhar com esse dias que já fazem parte do passado. A entrada é 12€, mas eu não paguei e inclusive fiz duas visitas, pois na primeira não consegui ver tudo. A estratégia utilizada foi entrar pela saída. Envolve alguns riscos, mas quando um InterRailer vê o dinheiro a voar a cada instante, tem-se outra perspectiva das coisas. Só em água gastei à vontade mais de 50€!! A área envolvente é imensa e possui centenas de pontos de interesse a visitar, apesar de em muitos casos se notar não haver conservação das ruínas que subsistiram até aos dias de hoje. No entanto, devo fazer uma ressalva. Por causa de os Jogos Olímpicos de 2004 serem realizados em Atenas, a cidade é um imenso estaleiro. Inúmeros monumentos e fachadas de edifícios encontram-se cobertos por andaimes e a serem restaurados, estando nalguns casos encerrados e inacessíveis, como foi o caso do Museu Nacional. O melhor meio de transporte é o metro, e, novamente, o meu conselho é o mesmo: se for adepto de correr riscos, poupe nos bilhetes de metro, pois a fiscalização é ainda mais reduzida que em Roma.

No topo da Acrópole, em Atenas. Uma pena existirem andaimes por toda a parte

Impressões da viagem
O balanço global foi muito positivo. Regressei cansadíssimo, mas cheio de boas recordações. Mesmo os momentos menos agradáveis, quando são recordados, são-no sempre com um misto de nostalgia e deslumbramento pela forma como se resolveram (ou não!). E é engraçado que quanto mais afastado de casa estava, mais longe queria ir... e ao mesmo tempo, crescia dentro de mim um sentimento muito português chamado saudade por tudo o que tinha deixado para trás. Talvez por isso, as notícias chegadas de Portugal eram sempre recebidas com alguma emoção e os frequentes encontros com compatriotas nossos em cada cantinho por que passei eram sempre momentos especiais. Não sei se o Portugal de tanga de que alguns falam tanto existe mesmo, ou se não fará parte de um equívoco intencional para ocultar outras coisas, essas bem reais. Mas que havia imensos portugueses a passear pela Europa, isso posso confirmar que havia. Eu gastei, no total, perto de 1200€, mas reconheço que poderia ter poupado bastante dinheiro. O problema é que, infelizmente o "savoir-faire" vem depois e não antes dos acontecimentos. Por esse motivo, é fundamental esboçar um plano de viagem, ver muito bem o que se quer fazer e até onde se pretende ir, levar bebida e alguma comida perecível para os primeiros dias e fazer um orçamento do que se pretende gastar. Deve-se levar roupa leve e prática (mas não muita), umas sandálias de qualidade (para evitar as bolhas que vêm com as constantes deambulações pelas cidades) e deve-se ter sempre um sorriso nos lábios, mesmo ao perdemos uma ligação por comboio... afinal, férias são férias!
A provar que de facto é uma boa alternativa às tradicionais férias algarvias em que uma pessoa passa uma substancial parte do dia estendido ao sol como os lagartos, está a minha pretensão de fazer nova viagem este Verão. Desta feita, pelo norte da Europa. A nível histórico, as cidades do norte têm legados culturais diferentes, talvez menos ricos que as suas congéneres do sul e a cultura europeia no seu conjunto apresenta muitas similitudes, mas se de facto acabar por ir, sei que vão ser de novo momentos inesquecíveis. Lá bem no fundo, viajar de InterRail é uma pequena aventura, feita à escala das nossas modernas sociedades. A diferença é que depois de todas as grandes explorações estarem feitas, a única que resta por fazer é ao interior de nós mesmos. Esse é o melhor "souvenir" que podemos trazer destas viagens pelo estrangeiro...

(1ª parte)

Texto e fotos de Pedro Luís Laima Bicho

A Grécia em destaques (I): as cidades

Atenas
A capital, fica no Sul, na região da Ática. É uma cidade estranha, há até quem a considere feia; é barulhenta, buliçosa, algo suja. É uma mistura de culturas e influências. Incontornáveis, a Acrópole; a Ágora antiga; a Ágora romana; o Museu Nacional de Arqueologia, com um espólio extraordinário (atenção: em 2000, não tinha ar condicionado na maior parte das salas, o que, no pino do Verão, resulta num efeito de estufa pouco agradável); o Museu da Acrópole (está em projecto o novo museu, que espera albergar os mármores do Parténon, actualmente no British Museum, em Londres); a Plaka, o bairro antigo, ao fundo da Acrópole; o render da guarda na praça Sintagma, em frente ao Parlamento, todos os domingos às 11h00. Aconselho também uns passeios pelas ruas, para sentir a vida da cidade, tropeçando, aqui e ali, em todo o tipo de vestígios históricos, de diversas épocas. Mar, estranhamente, não há: capital de um país com uma grande vocação marítima, Atenas é interior; o seu porto fica no Pireu, uma cidade suburbana e feia.

Templo de Teseu na Ágora antiga, Atenas

Tessalónica (ou Salónica)
A segunda maior cidade grega, berço de Alexandre o Grande, fica no Norte, na Macedónia. Mais europeia que Atenas, aparentemente mais ordenada, mais arejada (é costeira). Alberga uma grande quantidade de monumentos paleo-cristãos e bizantinos, cerca de uma centena de igrejas e basílicas. A ver: a Rotunda, uma igreja circular, de origem romana, integrada num complexo triunfal, de que subsiste também o arco de Galério (Kamara); a Torre Branca, antiga prisão para condenados à morte, abriga, actualmente, um museu; as ruínas dos banhos turcos. De entre as muitas igrejas, visitei: a de Santa Sofia (Aghia Sophia); a de S. Demétrio (Aghios Demetrios), santo padroeiro da cidade, onde podemos encontrar o túmulo do santo, no local do seu martírio, às mãos dos romanos; a do Profeta Elias, mais pequena e moderna; a capela de Osios David, que alberga um belíssimo mosaico do século V com um dos raros retratos conhecidos do Cristo sem barba.

Interior da igreja de Santa Sofia, Tessalónica

Romance de Cnossos

Entrada norte do Palácio de Cnossos, Creta

Este canto rouco rouco
das cigarras de Cnossos
Ouvi-o logo no porto
depois nos caminhos tortos
que sobem do porto ao ponto
onde ressurge Cnossos
Mais tarde à beira de um poço
Por fim diante dos cornos
destes inúmeros touros
que há no palácio minóico
Posso fingir que não o ouço
mas atravessa-me os ossos
alastra por todo o corpo
até me escalda nos olhos
este canto rouco rouco
das cigarras de Cnossos
Quando num último sopro
souber que não mais acordo
e tudo estiver em torno
imerso no mesmo ópio
decerto ouvirei de novo
no sono dos outros mortos
este canto rouco rouco
das cigarras de Cnossos
Contudo na manhã de hoje
nem só com isso me importo
Pior é sentir que o fogo
lateja sob este solo
Todo este calor de forno
não sei já como o suporto
Parece haver um acordo
feito entre o solo e o Sol
E terem ambos proposto
como língua de seus votos
este canto rouco rouco
das cigarras de Cnossos
Mas se o palácio percorro
eis que sofro de outro modo
Ver que o palácio é dos outros
mas que o labirinto é nosso
Que alimentamos o monstro
com o sangue de nós próprios
Que lhe damos o contorno
da sombra do nosso ódio
Que lhe buscamos no dorso
os nossos próprios remorsos
E de tudo isto em coro
nos vai verrumando os poros
este canto rouco rouco
das cigarras de Cnossos
Ó Grande Sala do Trono
dos tronos o mais remoto
onde Minos no seu posto
julgará todos os homens
Não de assassínios nem roubos
Só do que entregam à morte
E uns colocados no topo
outros no fundo dos fossos
vai repercutir-se em todos
vibrando de pólo a pólo
este canto rouco rouco
das cigarras de Cnossos

David Mourão-Ferreira
in As Lições do Fogo, Lisboa, D. Quixote, 1976, pp. 68-70.

Uma sala do Palácio de Cnossos, Creta

O lugar da História

Não visitei muitas ilhas gregas, muito turísticas, muito apetecíveis, mas posso gabar-me de ter ficado a conhecer razoavelmente bem a Grécia continental.

Santuário de Poseidon, Sounion, Ática

Lembrei-me, frequentemente, de ter ouvido os meus professores de História dizerem que o que levou os antigos gregos a viajarem e a dedicarem-se ao comércio e à navegação foi o facto de terem um país montanhoso, com solos pobres (em certa medida, o mesmo que se passou com os portugueses). De facto, a Grécia é um país com uma geografia muito acidentada, com paisagens deslumbrantes, sobretudo por ser fácil vislumbrar o mar de quase qualquer ponto do seu território. Mar e ilhas, que são imensas.
A minha amiga Marisa, que, curiosamente, me precede na maior parte das viagens, avisou-me: «Primeira paragem: estádio olímpico: tiras fotografias. Segunda paragem: estádio olímpico: tiras fotografias. Terceira paragem: estádio olímpico: já nem te dás ao trabalho. Chegas a um ponto que deitas estádios olímpicos pelos olhos!». Efectivamente, o que provoca o primeiro impacto e o que cansa mais depressa são os vestígios arqueológicos, que os há, literalmente, por todo o lado, uns mais bonitos, mais bem preservados e menos pilhados que outros. Incontornáveis (justamente classificados como património da humanidade), a Acrópole de Atenas, o santuário de Delfos, o teatro de Epidauro, a cidade de Micenas. Todos reconstruídos como construções Lego. O teatro de Epidauro impressiona pela paisagem magnífica e pelo facto de ainda se encontrar vivo e em funcionamento. Delfos, pela vista deslumbrante sobre o Mar das Oliveiras (um imenso olival). Já Cnossos, em Creta, é conhecido como a Disneylândia dos arqueólogos.

Meteora

Impressionantes, todos estes vestígios do passado. Mas o que mais me marcou foi a convivência de diferentes culturas e, em particular, o meu primeiro contacto com a arte bizantina e com a religião ortodoxa. Só Tessalónica conta com cerca de uma centena de igrejas e basílicas (património da humanidade), mas o mais fenomenal é o complexo de Meteora: cerca de 20 mosteiros medievais (6 ainda em funcionamento) encarrapitados em cima de umas formações geológicas estranhíssimas, que se assemelham a imensas estalagmites no meio da planície da Tessália. Belíssimo, também, o mosteiro de Osios Loukas, a cerca de 150 Km de Atenas.

Osios Loukas

Mas os traços da História, na Grécia, não se ficam por aqui: além das civilizações pré-helénicas, helénica, romana, bizantina, por lá passaram e deixaram marcas os turcos, os cruzados, os venezianos, os ingleses (bom, estes não deixaram marcas, levaram-nas com eles...) e por aí fora. Como resultado, um país jovem (a independência foi conseguida em 1828, depois de séculos de invasões e domínio estrangeiro), produto de múltiplas influências culturais, que, juntamente com a situação geográfica privilegiada, o Sol e o Mediterrâneo, o tornam um dos destinos turísticos mais procurados da Europa.

Fortaleza veneziana, Eraklion, Creta

Uma formiguinha na Grécia

A Grécia é um país de excessos: demasiado bonito, demasiado montanhoso, demasiado quente (em Agosto, claro, sina de professora -- 2000, a propósito), tem demasiadas ilhas (incontáveis), demasiado mar (nenhum ponto do seu território dista mais de 75 km da costa), demasiados mares (Jónico, Egeu e Mediterrâneo), demasiados vestígios arqueológicos (que, ao fim de três dias, passado o respeito inicial, acabamos a apelidar familiarmente de "calhaus"), demasiados turistas... A comida é demasiado boa (as moussakas, senhor, as moussakas... e o kataifi, o tzatziki, o peixe, a fruta...), o vinho retsina demasiado mau (essência de Sonasol Verde, segundo a Ana Isabel), o mar demasiado azul, tépido, calmo e límpido, os condutores demasiado maus (alguém me há-de explicar as estatísticas que põem Portugal no top da sinistralidade rodoviária), a língua e o alfabeto demasiado complicados...
No entanto, logo ao segundo dia, o que mais se insinua, demasiado persistente e irritante, é um som de fundo que penetra nos nossos ouvidos e faz todo o percurso interno até atingir cada um dos nossos neurónios. Nas avenidas atenienses, é abafado pelo tráfego automóvel, nas ruas mais pequenas, pelo bulício do comércio de uma cidade meio indefinida entre o Ocidente e o Oriente. Mas basta tomarmos as ruelas da Plaka, que sobem até à Acrópole, determo-nos um pouco na Ágora antiga, talvez a beber um Frappé (Nescafé gelado), numa esplanada, à sombra de uma latada, ou sairmos da cidade e embrenharmo-nos pelo campo, e lá vem ele, como que exalado das árvores e do calor. Um cri-cri elevado a uma potência com muitos zeros, capaz de liquidificar o cérebro a qualquer um. Uma análise mais atenta dos troncos das árvores (por alguém menos míope que eu) revela uns insectozinhos camuflados, quase imperceptíveis na forma, que não no conteúdo: Cicada fraxini, de seu nome científico.
Apesar de todo o amor universal que me merece qualquer ser vivente, não consegui deixar de sentir uma satisfaçãozinha interna ao pensar que, chegado o Inverno, todos aqueles bichinhos que tanto cantavam haviam de dançar como o Zorba...