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Onde é que estão, agora, as vacas?




Aveiro, Julho de 2025

Olha só quem é que eu havia de encontrar na estação ferroviária de Aveiro?! Duas das meninas que me fizeram correr Lisboa, nos idos de 2006. A primeira, tinha-a encontrado na Avenida de Roma; a segunda, na Gare do Oriente. Hoje, a Diaphanés continua à espera do TGV (em pé, coitada!) e a Urban Cow está mais pintada do que antes.





Caça e (re)colecção

 
 
 
 
 
 
 
 

Isto do coleccionismo, quando é levado a sério, tem que se lhe diga. Um dia, íamos penosamente a atravessar Hamburgo, pelo meio do trânsito e da chuva, quando fiz parar o carro ("Sei lá, estaciona em cima do passeio, que eu volto já!") e saí a correr, de máquina fotográfica em punho, já ligada, que a polícia de trânsito, na Alemanha, não é para brincadeiras. Tinha vislumbrado uma manada nova.
Fotos de um lado e de outro, individuais e em grupo, e algum trabalho para casa. Sim, porque eu não me lembrava de nenhuma CowParade em Hamburgo (bem bom foi apanhar a de Copenhaga - duas na mesma viagem já era fruta a mais). E não era: as vacas pertenciam a uma iniciativa do Verlagsgruppe Milchstrasse, uma empresa editorial do grupo Burda (sim, sim, cujas origens ascendem àquela famosa revista de moda e confecção que as mães da geração da minha coleccionavam e a que davam o devido uso). A dita iniciativa visava, como é normal nestas coisas, um leilão, recheadinho de vedetas, para fins de caridade. As vacas são perfeitamente confundíveis com as da CowParade - algumas delas podem ser vistas aqui -, o que torna este tipo de eventos cansativo. Faz-me lembrar como esmoreceu o meu interesse filatélico, quando descobri que estavam a ser impressas edições, só para coleccionadores, de selos que nem bem selos eram, visto que nunca haviam de ser colados num envelope ou num postal e nunca haviam de ir mais longe que o álbum do coleccionador que os adquirisse.
O conceito de arte de rua em forma de objectos produzidos em série e decorados de forma exclusiva, espalhados depois por uma cidade, teve origem em Zurique, em 1986, então com leões, o símbolo da cidade. Em 1998, também em Zurique, a primeira exposição de vacas, a Land in Sicht, ideia que seria importada, no ano seguinte, para Chicago. A então denominada CowParade espalhar-se-ia depois pelos EUA, passaria para a Austrália e para o resto do mundo.
Em Junho de 2001, surgiram, em Berlim, os Buddy Bears, baseados no animal símbolo da cidade, que viriam a tornar-se eles próprios símbolo de tolerância e paz, o que os tem levado, também, pelo mundo fora. No Verão passado, em Berlim, cruzei-me com três deles: o #01178, na esquina da Niederkirchnerstraße com a Wilhelmstraße, o #00421, já muito vandalizado, entre a Friedrichstraße e a Unter den Linden, e o #00681, junto ao nº 26 da Taubenstraße.
Em Hamburgo, tropecei também em três Hans Hummel. Este ícone da cidade baseia-se na figura de Johann Wilhelm Bentz (1787-1854), um castiço aguadeiro que deixou marcas na história de Hamburgo, que, em 2003, o recordou com 100 clones.
Já em Agosto de 2001 me tinha deixado fotografar, junto à CN Tower, com o Mountie Moose, um simpático alce vestido de polícia, que, sem que então eu o suspeitasse, era o 48º dos 326 alces da exposição urbana Moose in the City, realizada em Toronto, em 2000.
Em Setembro de 2006, passeando pelo centro de Varsóvia, saltou-me para a frente da máquina, de dentro do átrio creio que de um hotel, a Human Touch, da CowParade Warsaw 2005.
Decididamente, acho que são elas que me perseguem. Caçada, mesmo, foi a Cândida Charneca, após ter sido arrematada por 15 mil euros, no leilão da CowParade Lisboa 2006.

Onde é que estão as vacas? (VIII)

Tresmalhadas: Estação de Santa Apolónia - Belém - Campo Pequeno - Avenida de Roma - Largo das Portas do Sol - Estádio da Luz - Hospital D. Estefânia


Balanço final:
Pronto, já estão todas! 101 vacas da parada, mais uma extra-concurso (a Cowlombus, no Saldanha, pertence à exposição de Barcelona; veio para Lisboa para anunciar o evento).
Os percursos que assinalei foram meras sugestões, uma forma de organizar aquelas vacas todas. Porque eu tornei-me uma verdadeira caçadora, em safari pela cidade, a farejar pistas, sempre com as presas na mira. Descobri estratégias e informadores, cruzei-me com outros caçadores, com quem troquei informações. Vendedores de quiosques, carrinhos de gelados ou lojas de bairro, polícias e funcionários municipais são as fontes mais seguras.
Comecei em força logo em Maio, o que me permitiu, na maior parte dos casos, ser mais rápida que os vândalos. O meu recorde pessoal foi de 48 vacas fotografadas num só dia.
Foi divertido poder tirar umas horas todas as semanas, para percorrer a cidade, a vasculhar os recantos mais insuspeitos. O lugar mais estranho onde alguma vez imaginei ir fotografar uma vaca em fibra de vidro (ou fazer o que quer que fosse) foi mesmo o Estádio da Luz.
Hoje, confesso, cacei uma à traição: cansei-me de esperar que a Calçada Portuguesa voltasse à Praça do Município e fui procurá-la ao Hospital da CowParade, um jardinzinho simpático no recinto do Hospital D. Estefânia. É um local muito agradável, com espaços concebidos para as crianças, onde elas podem desenhar e pintar vaquinhas, enquanto assistem aos trabalhos de recuperação das "doentes". Revi velhas amigas (a Vaca que ri voltou a perder os brincos) e conversei com uma das organizadoras da exposição, uma jovem muito simpática que me explicou que, contra a sua própria percepção, o vandalismo não tem sido assim tão grande. Os organizadores internacionais do evento, em visita a Lisboa, acharam que as vacas até estão em muito bom estado. Ao que parece, nas outras cidades, chega a ser muito pior. Em Paris, por exemplo, foi uma desgraça.
Hoje estavam seis no hospital, mas já chegaram a estar nove em simultâneo. A Calçada Portuguesa estava a receber os últimos retoques, para poder voltar já amanhã para a rua. A Cow-Passion vai finalmente brilhar como uma árvore de Natal, mas já não volta para o Rossio: vai para o Centro Comercial Vasco da Gama. E soube que a Cow Hermeticus, no final da Feira do Livro, sempre foi para a Quinta das Conchas.
A jovem organizadora fez-me uma pergunta terrível: de quais é que eu gostei mais? Senti-me como uma daquelas crianças que se engasgam todas quando as questionam em directo para a televisão. Depois de ter visto 101 vacas, é óbvio que gostei mais de umas do que de outras, mas lembrar-me de quais, assim de repente... E nem acho que isso seja muito importante. Nem isso nem a qualidade das obras. Gosto de arte de rua, sobretudo pelas reacções que provoca e pelas relações que cria. Falei-lhe das pessoas com quem conversei, nas minhas deambulações, que me revelaram a sua consternação pela triste sina das bichinhas: «São tão engraçadas, coitadinhas! Aquilo são uns malvados!». Ela contou-me as sugestões que chegaram a receber, por parte de alguma população mais idosa, coisas como electrificar as vacas e tudo! E uma das autoras, que lhe confessou ter-se fartado de chorar, quando viu a sua obra toda graffitada.
As vacas vão continuar à solta por Lisboa até Agosto, sem haver ainda dia definido para a recolha. Vou gostar de continuar a vê-las, transformadas diariamente pelo confronto com a cidade, e acredito que não vou conseguir resistir a mais uns disparos (apesar de ter já 295 fotografias dos ditos bovinos).
De resto, agora que lhe apanhei o gosto, vou continuar à procura de caça grossa.

Onde é que estão as vacas? (VI)

Percurso: Chiado - Rua do Carmo - Rua Augusta


Notas:
A Vaca que ri, sem brincos e depois de reparada. Sempre fica mais risonha, e o patrocinador agradece.