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Solar do Unhão


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

Construída sobre aterro, no sopé da falha geológica de Salvador, esta antiga quinta consiste num conjunto que integra o Solar do Unhão, a Capela de Nossa Senhora da Conceição, um cais de desembarque privado, fonte, aqueduto, chafariz, senzala, armazéns e um alambique com tanques. Embora situado praticamente dentro da cidade, era um complexo agro-industrial com a estrutura típica de um engenho de açúcar. Foi também um entreposto comercial, de cujo cais era despachado o açúcar produzido em alguns dos engenhos baianos.



O terreno foi doado aos padres beneditinos, em 1584, por Gabriel Soares de Sousa. Em 1690, residiu no local o Desembargador Pedro Unhão Castelo Branco, que vendeu a propriedade, em 1700, a José Pires de Carvalho e Albuquerque, o Velho, que ali estabeleceu morgado, conduzindo a propriedade à sua fase áurea. Com o declínio da economia açucareira, o Solar foi arrendado, período em que passou por um processo de relativo declínio. No início do século XIX, a propriedade pertencia a António Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque, Visconde da Torre de Garcia d'Ávila, sendo utilizada como residência urbana da família.



O Solar é constituído por três pisos: o rés-do-chão ou térreo, o piso nobre, cujo acesso se faz por uma ponte de quatro arcos, e o segundo andar, que foi construído no final do século XIX. Na ponte de acesso ao solar, existem barras de azulejos policromados de ornamentação barroca, produção de Lisboa de 1770/80.



A planta da capela (1794) é típica das igrejas matrizes e de irmandade do começo do século XVIII, apresentando, porém, a particularidade de possuir nave e capela‐mor da mesma largura e altura. Já a fachada, em estilo rococó tardio, data, provavelmente, do século XIX.



O chafariz, do século XVIII, que era originalmente alimentado pelo aqueduto, é uma bela peça barroca em arenito escuro, formado por uma carranca de onde jorra a água, e duas conchas sobrepostas. Também na fonte situada à esquerda da capela existia, até há alguns anos, uma carranca de pedra.



Com o tempo, a quinta foi mudando de vocação. Há relatos de que o alambique ainda funcionava, em 1853. Porém, aí foram instaladas fábricas sucessivas, nomeadamente, de produção de rapé (entre 1816 e 1926), derivados de cacau e manufacturas e oficinas diversas. Em 1928, foi convertida em trapiche, depósito de mercadorias destinadas ao porto de Salvador e de combustíveis. Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu de quartel aos fuzileiros navais.





Em 1943, o conjunto foi classificado pelo então Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional. Porém, em 1952, esteve em risco de ser dividido pelo traçado da Avenida de Contorno, sendo salvo por um projecto alternativo do engenheiro e arquitecto Diógenes Rebouças. O Solar do Unhão foi, então, adquirido pelo Governo do Estado para sediar o Museu de Arte Moderna da Bahia. Após um trabalho de restauração com projecto da arquitecta Lina Bo Bardi, o MAM foi inaugurado, no Solar, em 1963, oferecendo oito salas de exposição, teatro-auditório, sala de vídeo, biblioteca especializada e banco de dados (visita virtual aqui).



O Solar do Unhão tem uma localização privilegiada, entre pequenas praias, com uma vista espectacular para a Baía de Todos os Santos e a vizinhança do conjunto de casas populares da Gamboa de Baixo, uma pequena favela conhecida como Comunidade do Solar do Unhão.



Memória futura (32)


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

A Cidade Baixa tem também grande quantidade de monumentos, que homenageiam tanto figuras histórico-políticas como a cultura popular.
Em frente ao Mercado Modelo, aos pés do Elevador Lacerda, fica o imponente conjunto monumental em homenagem ao Visconde de Cairu. José da Silva Lisboa (1756-1835), primeiro Barão e Visconde de Cairu, foi um importante economista, parlamentar, orador e político brasileiro, nascido em Salvador. A escultura, inaugurada em 2 de Julho de 1923, é da autoria de Pasquale de Chirico, que realizou diversos monumentos públicos na cidade.





Próximo deste, encontra-se o Monumento à Cidade do Salvador, também conhecido como Fonte da Rampa do Mercado. Informação no local esclarece: "Fonte da Rampa do Mercado. Obra de autoria do escultor Mário Cravo Jr., a fonte luminosa é composta de escultura em fibra de vidro com estrutura metálica interna. É também chamada de Monumento ao Povo da Bahia. Desde que começou a ser montada, no local onde ficava o primitivo Mercado Modelo, destruído por um incêndio, causou curiosidade devido às suas formas arredondadas. Foi inaugurada em [13 de Janeiro de] 1970". Em 21 de Dezembro de 2019, o monumento foi consumido por um incêndio, restando apenas a estrutura de metal que o sustentava. A obra foi, posteriormente, recuperada, devolvida à sua forma original e reinaugurada em 11 de Janeiro de 2023. Placa no local refere que a forma da escultura remete para as velas dos barcos saveiros que atracavam na rampa do mercado. Pessoalmente, à primeira vista, vi nela um biquíni.





Atrás do Mercado Modelo, encontra-se o busto em bronze de Arnaldo Pimenta da Cunha (1881-1956), engenheiro, político e professor universitário, primeiro prefeito de Salvador nomeado em carácter efectivo no primeiro Governo Vargas, entre 1931 e 1932. A obra é da autoria de Ismael de Barros, discípulo de Chirico, e foi inaugurada em 1957. O pedestal foi, entretanto, substituído.





De onde se encontra, o busto parece observar atentamente o imponente conjunto escultórico designado Arena da Capoeira. Projectada pelo arquitecto e urbanista André Moreno, "a estrutura é composta por quatro arcos de 12 metros de altura, que simbolizam os berimbaus, o instrumento musical fundamental da capoeira, unindo-se no topo para formar a cabaça. Entre esses arcos, dez esculturas em bronze, sobre pedestais de concreto, retratam mestres capoeiristas tocando seus instrumentos, em uma homenagem viva aos grandes nomes que moldaram essa arte". No centro, dois mestre jogam capoeira, rodeados por outros oito, sobre pedestais onde se conta as suas histórias. Os homenageados (os mestres capoeiristas Pastinha, Bimba, Besouro, Noronha, Waldemar, Canjiquinha, Gato Preto, Caiçara, Aberrê e Totonho) foram escolhidos por votação online. A obra foi inaugurada em 4 de Julho de 2024.











Mais à frente, na Avenida Contorno, a Estátua dos Irmãos Pereira, também da autoria de Pasquale de Chirico, datada de 1954. O monumento é composto por três estátuas em bronze sobre pedestal tríplice em betão revestido com placas de granito rosado. No pedestal, encontram-se inscrições alusivas aos homenageados e o símbolo da República, também em bronze. Os três irmãos soteropolitanos, Manuel Vitorino Pereira (1853-1902, médico, professor catedrático e político, foi presidente do estado da Bahia, senador federal, vice-presidente e presidente interino do Brasil), José Basílio Pereira (1850-1930, padre católico, escritor, tradutor e teólogo) e António Pacífico Pereira (1846-1922, médico, professor catedrático e escritor, foi director da Faculdade de Medicina da Bahia e um dos fundadores da Academia de Letras da Bahia), foram figuras de relevo na história baiana.

Uma coleccionista à solta em Juromenha
























Juromenha (Alandroal), Janeiro de 2026

Como eu dizia, é uma pequena vila que tem tudo o que devia ter, sobretudo, para me fazer feliz.

Papa-unescos (XXVII)


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

(55) Centro Histórico de Salvador (Brasil)

Como primeira capital do Brasil, de 1549 a 1763, Salvador da Bahia testemunhou a mistura das culturas europeia, africana e ameríndia. Foi também, a partir de 1558, o primeiro mercado de escravos do Novo Mundo, que eram trazidos para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar (e, posteriormente, para a extracção de ouro nas Minas Gerais). A cidade conseguiu preservar muitos edifícios renascentistas excepcionais. Uma característica especial do centro histórico são as casas coloridas, frequentemente decoradas com finos trabalhos em estuque.
Classificado pela UNESCO em 1985, o Centro Histórico de Salvador compreende a área do assentamento inicial da primeira capital do Brasil, com ruas e monumentos que constituem o maior conjunto arquitectónico do período colonial preservado na América Latina. É hoje um local muito turístico, com museus, lojas, centros culturais, igrejas, apresentações musicais, variadas opções gastronómicas e de hospedagem e comércio de souvenirs, por entre diversos casarões e sobrados coloniais.
Abrange as áreas do Pelourinho, Praça da Sé, Terreiro de Jesus, Largo de São Francisco e Santo António Além do Carmo.



Começando pelo Terreiro de Jesus (oficialmente, Praça 15 de Novembro), aí encontramos a Catedral-Basílica Primacial de São Salvador, antiga Igreja do Colégio dos Jesuítas, para onde se mudou a sede da arquidiocese, em 1765, após a expulsão da Companhia de Jesus. A antiga Sé, então em muito mau estado e à espera de reconstrução, viria a ser demolida, em 1933. A construção da actual catedral teve início em 1657, e a igreja foi inaugurada e consagrada em 1672, sendo considerada a mais imponente do século XVII no Brasil. A sua fachada maneirista foi construída com blocos de pedra de lioz trazidos de Portugal; o interior contém magníficos retábulos de talha dourada em estilos maneirista e barroco, destacando-se ainda o tecto de madeira esculpida e a sacristia. Abaixo, pormenores do altar-mor e da sacristia, forrada a azulejos do século XVII, com tecto em caixotões com pinturas decorativas, arcaz em jacarandá com pinturas de origem italiana sobre placas de cobre e retábulos em mármore, o que faz deste espaço, alegadamente, o mais rico de toda a arte barroca luso‐brasileira.





No centro da praça, em frente à Catedral, encontra-se um chafariz, em estilo neoclássico, inaugurado em 8 de Dezembro de 1856. Com sete metros de altura, o chafariz assenta numa base de mármore circular, de 15 metros de circunferência. Tem diversos elementos alegóricos que representam riquezas e características da Bahia: é encimado por uma escultura de Ceres, deusa da fertilidade e da abundância agrícola; a base dos seus pés é adornada com taboas, planta da família das Tifáceas, comum no Brasil; abaixo da primeira bacia de ferro fundido, estão quatro meninas de mãos dadas; mais abaixo, uma bacia poligonal ornada com delfins, guirlandas e conchas marinhas. As esculturas da base (duas de entidades femininas e duas masculinas), da autoria do escultor francês Mathurin Moreau, representam os quatro principais rios da Bahia: Jequitinhonha, Paraguaçu, Pardo e São Francisco.



Rodando no sentido horário, a antiga Escola de Cirurgia da Bahia (depois, Faculdade de Medicina), cuja inauguração foi decretada por D. João VI, em 1808, no antigo Hospital Real Militar da Cidade do Salvador, que ocupava o prédio do Colégio dos Jesuítas, construído em 1553. Porém, esse edifício perdeu-se num incêndio, em 1905, tendo sido substituído por outro, em estilo eclético com predominância de linhas neoclássicas, da autoria do arquitecto Victor Dubugras.



À sua direita, a Igreja de São Pedro dos Clérigos, construída pela Irmandade de São Pedro, aproximadamente em 1709, e restaurada nos séculos XVIII e XIX, até à década de 1890.



No seguimento, em frente à Catedral, a Igreja da Ordem Terceira da Penitência de São Domingos de Gusmão, construída entre 1731 e 1747, em estilo predominantemente barroco, sob a direcção do mestre pedreiro João Antunes dos Reis.



À sua direita, ao virar a esquina, entramos no Largo do Cruzeiro de São Francisco (também, Praça Anchieta), dominado pela Igreja e Convento da Ordem Primeira de São Francisco, cuja construção teve início em 1686 e que, devido à sua exuberante decoração interior barroca, é conhecida como Igreja do Ouro. Em Fevereiro de 2025, parte do tecto da igreja colapsou, causando um morto e cinco feridos e levando ao encerramento do complexo, que, por isso, não pudemos visitar.



Em frente à igreja, estende-se o Largo, um adro alongado, onde se localiza o cruzeiro, elemento importante para a liturgia franciscana e para a demarcação de um espaço urbano considerado sagrado. Dali, abre-se a vista para a Catedral.

Pormenores da Cidadela


Cairo (Egipto), Agosto de 2024

A Mesquita de Alabastro, construída ao estilo otomano, consiste numa sala de orações e num pátio aberto (sahn). O pátio é quadrado, mede 50x50 metros e está rodeado por quatro arcadas (riwak) erguidas sobre pilares e cobertas por cúpulas encimadas por crescentes. As arcadas são forradas a alabastro, e as cúpulas, a chumbo.







No centro do pátio, encontra-se a cúpula de ablução, construída em 1844. Ergue-se sobre oito colunas de mármore e ostenta arcos que formam um prisma octogonal, com uma aba com decorações em relevo. O interior da cúpula está decorado com gravuras que representam cenas naturais e cobre uma fonte octogonal em alabastro. De cada um dos lados da fonte, há duas bicas metálicas e dois assentos de mármore, que os fiéis podiam ocupar para fazerem a sua lavagem ritual (wudu), antes de entrarem na sala de orações. Actualmente, a fonte não está em funcionamento, consistindo apenas numa atracção turística.





A fonte está decorada com motivos vegetalistas, entre eles, cachos de uvas, num estilo oitocentista de inspiração europeia. O topo da fonte, contudo, ostenta um crescente em mármore, e os lados exibem placas pintadas e douradas com um padrão colorido gravado em escrita persa.



A meio da arcada poente do pátio, há uma torre de cobre perfurado, decorada em gravura e vidro colorido, com três metros de altura. No seu interior, encontra-se um relógio de carrilhão que foi presenteado a Muhammad Ali Pasha pelo Rei de França, Luís Filipe I, em retribuição pela oferta do Paxá, em 1830, dos dois obeliscos de Ramsés II que se encontravam em frente ao Templo de Luxor. Curiosamente, enquanto os franceses mantêm esta versão da história, as autoridades egípcias garantem que a oferta francesa precedeu a do Paxá. Seja como for, dos dois obeliscos, apenas um foi transportado para França (o segundo manteve-se no lugar, tendo o Presidente François Mitterrand renunciado definitivamente à sua posse, em 1981), e ainda hoje cumpre a sua função decorativa na Place de la Concorde, em Paris. Já no Cairo, o presente francês tornou-se tema de anedotas, visto que, desde a sua instalação, em 1845, nunca funcionou, apesar das contínuas tentativas de conserto. Após o último fracasso, já no corrente século, o Ministério do Turismo e Antiguidades solicitou a intervenção da França nas obras de renovação e reparação da torre e do relógio, que, aparentemente, voltou a funcionar, em Abril de 2021.



Perto da mesquita, na direcção do Sul, encontra-se o Palácio Al-Gawhara, também conhecido como Palácio Bijou. Nomeado em homenagem à última das suas esposas, Gawhara Hanim, foi mandado construir, em 1814, por Muhammad Ali, para albergar a sua administração, para receber e alojar os seus convidados e para ser a sua residência particular. Por isso, o Paxá quis que o palácio fosse luxuoso e magnífico. Foi concebido e construído por artistas e artesãos contratados de vários países, além do seu arquitecto pessoal, o francês Pascal Coste. Reconstruído após incêndios destrutivos, no século XIX (1822 e 1824, e ainda em 1972), o palácio combina elementos dos planos palacianos otomanos e europeus, separando os aposentos privados da família das áreas de recepção. O programa ornamental inspira-se fortemente nos modelos europeus.
Quando perdeu as suas funções, o palácio foi convertido num museu da herança islâmica, onde são exibidos presentes para a dinastia Muhammad Ali, pertences pessoais e artefactos raros, como o trono de Muhammad Ali Pasha, oferecido pelo rei italiano, e um enorme lustre, de 1000 kg, presenteado pelo Rei Luís Filipe I de França. Os seus jardins proporcionam as melhores vistas sobre a cidade antiga, as Pirâmides e o Nilo.





As traseiras do Palácio comunicam com a Mesquita de Alabastro através do Jardim dos Leões, onde existe uma grande fonte em mármore com quatro estátuas de leões, que, actualmente, se encontra seca.