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O Japão e a arte


Ogata Kōrin, Ácer e pinheiros-negros, século XVIII

Pouco antes de ir ao Japão, numa consulta a um dos meus médicos, contou-me ele a sua experiência recente no País do Sol Nascente: tudo extremamente caro, uma maçã custava uma exorbitância, uma cultura muito diferente, com preceitos de etiqueta muito rigorosos, e uma abordagem da arte estranha para os ocidentais: não tinham museus, as obras mais notáveis eram rolos pintados e biombos, que podiam ser vistos, sob convite, em castelos antigos. Escusado será dizer que passei o meu tempo no Japão a testar a conformidade desta descrição.
Encontrei um país caro, sem dúvida, sobretudo no que diz respeito a produtos estranhos à sua cultura. A fruta é pouco comum na alimentação local, à excepção da melancia e das cerejas, que só comemos em conserva. Toda a restante fruta é produto de importação, considerado exótico, e por isso caro. Já o preço da comida local era aceitável. E, por acaso, num dia em que passámos pela montra de uma agência imobiliária, a minha amiga ficou pasmada quando percebeu que conseguiria, em Tóquio, arrendar um apartamento por um valor inferior ao que pagava em Lisboa.
Quando à inexistência de museus, bem, não sei de onde surgiu essa ideia, que os há, e não são poucos, em Tóquio, em Quioto e no resto do país.
O primeiro que visitámos foi o Jardim das Belas-Artes, em Quioto, também conhecido por Museu das Belas-Artes (Garden of Fine Arts), concebido por Tadao Ando, em 1994. É um complexo de betão, vidro, aço e água, ao ar livre e com vista para o Jardim Botânico, onde se pode apreciar reproduções, em painéis de cerâmica, de obras-primas da arte ocidental e oriental. É muito bonito, como se pode ver aqui.




Garden of Fine Artes, Quioto (Japão), Agosto de 2004

Em Hakone, visitámos o Museu ao Ar Livre (The Hakone Open-Air Museum), um parque grande e muito bonito, onde são apresentadas mais de cem obras de escultura de dezenas de autores modernos e contemporâneos. E ainda um pavilhão dedicado a Picasso, com um espólio de mais de 300 obras, sobretudo de cerâmica, e uma das maiores colecções do mundo de obras de Henry Moore. Vale a pena espreitar, aqui.










Hakone (Prefeitura de Kanagawa, Japão), Agosto de 2004

Em Tóquio, visitámos o Museu de Arte Fotográfica (Tokyo Photographic Art Museum) e não resistimos aos cartazes que, por toda a cidade, publicitavam o grande evento do momento, no MoMAT (National Museum of Modern Art, Tokyo): a exposição RIMPA. Dedicada à escola homónima de pintura japonesa do século XVII e às suas influências na arte moderna e contemporânea, esteve aberta ao público entre 21 de Agosto e 3 de Outubro de 2004, contou com 81 obras de 39 artistas, e foi uma das exposições mais bonitas que eu alguma vez vi. Ainda guardo com carinho o catálogo bilingue japonês-inglês que carreguei o resto da viagem, organizado de trás para a frente, como é normal nos livros japoneses (também guardei para mim um dos livros de manga que comprei, e cuja leitura, devido a essa mesma orientação, me atrapalhou, ao início).
Entre os autores representados, os incontornáveis Ogata Kōrin e Tawaraya Sōtatsu, assim como outros pintores japoneses, do século XVII ao século XX, mas também Gustav Klimt, Odilon Redon, Koloman Moser, Pierre Bonnard, Henri Matisse e Andy Warhol, numa continuidade que atravessou séculos, continentes e culturas.
Decididamente, não me faltou arte, no Japão.


Ogata Kōrin, Tigre e bambu, século XVIII


Pormenor de um extenso rolo de poemas, com caligrafia de Hon'ami Kōetsu e
pintura com grous de Tawaraya Sōtatsu, século XVII

#TBT: Osaca, 2004


Osaca (Japão), Agosto de 2004

Depois de Atami, voltámos a Tóquio, para mais dois dias de passeio, findos os quais rumámos a Osaca, para gastar os nossos últimos dois dias, antes da viagem de regresso a Lisboa.
No início do nosso périplo japonês, o tempo estava quente e húmido, mas, em Hakone, tornou-se enevoado, por vezes chuvoso. Creio que foi nessa altura que resolvemos investir em capas impermeáveis; de regresso a Tóquio, comprámos guarda-chuvas.
Em Osaca, no final de Agosto, o tempo instável foi-se agravando: ainda quente, mas cada vez mais húmido e chuvoso. As abertas permitiram-nos alguns passeios, mas não nos aventurámos muito, e não nos afastámos demasiado de Umeda, tanto mais que aterrámos em plena época de saldos e as paisagens interiores, protegidas, tornaram-se mais apelativas. De resto, ao fim de três semanas, sentimos que já tínhamos a nossa dose de Japão tradicional.



Lembro-me de termos ido à procura do Teatro Nacional Bunraku. Apeámo-nos do metro, na estação indicada, mas não conseguíamos perceber qual a saída correcta. É de notar que as estações de metro, em Osaca como em Tóquio, chegam a ter 15 saídas, todas numeradas e orientadas para direcções totalmente diferentes. Naquele dia, tínhamo-nos esquecido de anotar a saída pretendida e arriscávamo-nos a acabar desorientadas. Assim, pedimos ajuda a outro passageiro que saiu na mesma estação.
Antes de mais, convém explicar que essa era uma prática que evitávamos ao máximo. Não porque não quiséssemos interagir com os habitantes locais, mas por medo de incomodar. Explico melhor: a primeira vez que parámos alguém para pedir ajuda, esperávamos algo como: "Está a ver aquela esquina ali à frente? Vá por essa rua, vire na segunda à esquerda, depois na terceira à direita, siga até um cruzamento, onde há-de ver uma bomba de gasolina, vire à direita, depois na segunda à esquerda,... Ou então pergunte outra vez na bomba de gasolina. Sempre às ordens!" Na prática, esperávamos aquilo que é comum em Portugal: que nos pusessem na direcção certa, que depois nos encarregaríamos de ir pedindo instruções pelo caminho. Não. O primeiro japonês a quem pedimos uma orientação disse, num inglês difícil e acompanhado por gestos: "Follow me". Levou-nos até ao sítio pretendido, fez uma vénia e um sorriso e afastou-se. O segundo japonês fez exactamente o mesmo, o terceiro e o quarto também. O que mais nos afligia era a ideia de que estávamos a perturbar aquelas pessoas, que se desviavam do seu caminho por nossa causa, e algumas até tinham um ar apressado, de quem estava a cumprir um horário apertado e exigente (no geral, todas tinham). Por isso, só mesmo em último caso é que pedíamos uma orientação. Naquele dia, lá teve de ser, antes que recomeçasse a chover. Ainda tentámos explicar ao senhor que bastava dizer-nos o número da saída, mas ele nem ouviu mais nada: levou-nos directamente ao teatro, que ficava a vários quarteirões de distância. Depois, sorriu, fez uma vénia e voltou, apressado, para trás. No fim, nem nos serviu de muito, que a temporada tinha acabado poucos dias antes, e não havia ali muito que ver.



Na última noite em Osaca, o tempo piorou abruptamente. Decidimos que não havia muito que pudéssemos fazer no exterior, mas também não nos apetecia ficar no nosso business hotel. Foi então que a minha amiga teve uma ideia peregrina: por que não irmos ao cinema? Havia salas na maior parte dos centros comerciais, mas ao contrário do que era comum em Portugal, o cinema situava-se no último andar dos edifícios. Fomos até ao depāto mais próximo e escolhemos um filme cujo cartaz andava espalhado por todo o lado e nos parecia bonito. Tratava-se de uma história de heróis de artes marciais, situada na China antiga, com paisagens lindíssimas, guarda-roupa vistoso e muitos efeitos especiais, mais precisamente este. Era um belo filme, falado em chinês e legendado em japonês, que nos manteve entretidas durante duas horas. Na prática, tive de o rever em Portugal, por acaso, numa cópia pirata, legendada em inglês, para conseguir perceber alguns pormenores da trama que escapavam à linguagem corporal.
Quando saímos do cinema, o tempo estava mesmo muito mau: chovia torrencialmente e o vento soprava em rajadas fortíssimas. As ruas estavam praticamente desertas, mas não podíamos ficar no centro comercial, que estava a fechar. Embrulhámo-nos nas nossas capas plásticas e lá decidimos fazer-nos ao caminho, sempre encostadas às paredes, parando e agarrando-nos a alguma saliência, quando o vento soprava mais forte. Avançando devagar, lá conseguimos chegar ao hotel, todas ensopadas, e, pela primeira vez no Japão, ligámos a televisão, para tentar perceber o que se estava a passar. No écran, mapas e imagens com anotações meteorológicas, enquanto, em voz-off, se sucediam os comentários num japonês rápido e nervoso. Percebemos que aquele temporal não era coisa banal, mas não havia nada que pudéssemos fazer, por isso, embalámos a bagagem e, até adormecermos, ficámos a discutir a possibilidade de o nosso voo ser cancelado.
De manhã, o dia estava bonito, um belo céu azul com simpáticas nuvenzinhas brancas e um sol radioso. No comboio para o aeroporto, uma síntese informativa que passava numa linha de pontinhos vermelhos dava conta dos principais índices da bolsa e da passagem, na véspera, do tufão #16 por Osaca. Aparentemente, tudo normal.
Só recentemente descobri que o 16.º tufão da época de 2004 foi o segundo pior do ano, classificado na categoria de super-tufão (categoria 5, na escala de Saffir-Simpson) e designado pelo nome próprio de Chaba.



Regressámos a Lisboa sem qualquer percalço. Eu, contente por reencontrar leite, fruta, talheres e guardanapos (não, os japoneses não usam guardanapos, só às crianças é admitido sujarem a boca a comer). Os amigos pediam-me histórias, mas o que me marcara perdia-se no indizível do cheiro do tatâmi, da elegância dos japoneses (eles e elas: nunca vi tantos cabeleireiros por metro quadrado), da omnipresença dos recentes smartphones, da estridência das vozes femininas, da delicadeza das vénias, dos olhares cúmplices entre ocidentais, que se reconheciam mutuamente pelos olhos redondos, da sensação de ter ido até ao fim do mundo, de onde nunca se retorna igual.

#TBT: Atami, 2004


Atami (Prefeitura de Shizuoka, Japão), Agosto de 2004

Ao fim de quatro dias em Hakone, resolvemos que estávamos fartas de montanhas e de chuva, que Agosto faz-se é de praia, e apanhámos o comboio para Atami. É um conhecido destino balnear, geminado com a nossa vila de Cascais.
Ficámos alojadas num hotel grande e moderno, com excelentes instalações de banhos.
Saímos para dar uma volta, mas a humidade persistia e a temperatura era pouco agradável, pelo que estava fora de questão usufruir da praia, que, de resto, se encontrava deserta. Uma caminhada pela marginal, ao longo da baía, deixou-nos ver pouco mais do que hotéis e edifícios modernos e incaracterísticos. Além de que os sinais informativos que fomos encontrando no murete da marginal (e em ruas paralelas) não nos deixaram muito tranquilas:



Aos poucos, fomos sentindo saudades de Tóquio, onde, apesar do forte calor húmido, havia sol e animação. Por isso, decidimos ficar só essa noite e regressar pela manhã à capital, onde haveríamos de permanecer mais dois dias, com muita animação, mas sem sol, que a chuva também já lá tinha chegado.
Nessa noite, a minha amiga decidiu que não haveria de me deixar sair da região dos onsen sem que eu experimentasse um verdadeiro banho japonês. Arranjei mil e uma desculpas, e ela foi sozinha. Voltou deslumbrada, que aquilo era uma maravilha, uma experiência inolvidável, um bálsamo para o corpo e para a mente, que, àquela hora, estava praticamente vazio, que era um privilégio, que eu tinha porque tinha de ir experimentar. Eu, já sem argumentos, agarrei nas toalhas e fui.
Eram, de facto, umas instalações excelentes, com duas grandes banheiras, em forma de piscinas, onde a penumbra e o vapor permitiam um ambiente discreto. Além disso, estavam divididas por sexos, e, de facto, tão perto da hora do fecho (passava das 11 da noite), já só lá havia uma senhora, que eu decidi observar, para poder imitar. Após as abluções da ordem, dirigi-me à tina onde ela se encontrava, imersa até ao pescoço. Fiz, com a cabeça, uma pequena vénia de respeito e entrei, calmamente. A água estava bastante quente, mas eu não vacilei e continuei a descer, degrau após degrau, com a elegância de uma lady. Sentei-me, deixei que o corpo se habituasse à temperatura, e agradeci mentalmente à minha amiga pela insistência. Parecia-me ver as toxinas a fugirem, e eu a ficar mais saudável e mais bela. Despertei com a senhora a levantar-se e a dirigir-se para a outra tina. Aguardei um pouco e segui-a. Porém, ao pousar o meu pezinho no primeiro degrau, senti que estava a mergulhar no Árctico. Mantive, exteriormente, a pose de lady, mas senti-me uma personagem de Tex Avery, a estilhaçar como vidro. Foi uma das situações da minha vida em que senti o coração parar. Ao fim de um bocado, o corpo lá se ajustou à temperatura, mas não é que a senhora se levantou e voltou à primeira tina, depois à segunda, e assim sucessivamente? E eu, que não lhe podia ficar atrás, a segui-la. Depois de algum tempo, acabei por me habituar, já não era nem bom nem mau, era uma experiência radical, a não repetir, enquanto me lembrasse.
Por acaso, dois anos e meio depois, em Budapeste, já esquecida deste percalço, também me aventurei pelas salas de sauna do Hotel Gellért: a primeira estava tão cheia que a minha colega e eu continuámos para a segunda, e para a terceira, percebendo que, quanto mais andássemos mais espaço livre havia. Fomo-nos aventurando, que não éramos nenhumas preguiçosas acomodadas, que aquilo era como nas praias do Algarve: quem não quer sair da zona de conforto não tem onde estender a toalha. Quando chegámos à última, a minha colega bradou: "Para mim, chega, já me estou a sentir mal, vou-me embora". Eu, sempre lady, não quis dar parte fraca à frente daqueles húngaros sisudos, que por acaso eram todos homens de constituição forte, e sentei-me. Foi então que, enquanto olhava discretamente à minha volta, me caíram os olhos numa inscrição na parede de azulejo, num tipo de letra muito Arte Nova, que indicava a temperatura, e que era alguma coisa na ordem dos 80º C. Aguentei estoicamente o mais que consegui, cerca de 30 segundos, e saí discretamente, atravessando as salas, cuja temperatura, só então percebi, descia progressivamente 5 ou 10º C.

Papa-unescos (XV)


(imagem daqui)

(44) O Monte Fuji, local sagrado e fonte de inspiração artística (Japão)

O Monte Fuji (Fujisan) foi acolhido na lista de Património da Humanidade em 2013, mas é, desde há muito, um ícone incontornável do Japão. Foi por isso que, depois de Tóquio, fomos até Hakone, com o intuito de contemplarmos toda aquela fonte de inspiração artística.
Sabíamos pouco, à época, sobre as múltiplas maneiras que o Monte Fuji tem de se esquivar a olhares indesejados, mas, mesmo assim, considerámos dois percursos que, habitualmente, proporcionam vistas magníficas.
O primeiro foi um passeio no teleférico de Hakone, o Hakone Ropeway. Já o apanhámos modernizado, com cabines diferentes, mas esperávamos uma panorâmica deste género (imagem daqui):



Em vez disso, o nosso trajecto começou, logo na base, com o tempo enevoado. Porém, como nos últimos dias o clima tinha vindo a piorar, imaginámos que não podíamos esperar muito mais, que talvez melhorasse com a altitude. E foi assim que correu o nosso passeio:







Nós bem que desconfiámos, quando não vimos mais ninguém a entrar, quando percebemos que éramos as únicas passageiras. À medida que o teleférico subia e que nos víamos mergulhadas no silêncio e na mais profunda desolação branca, passou-nos pela cabeça toda a espécie de receios: avarias, quedas, os meios de socorro que não nos conseguiriam encontrar, no meio do nevoeiro,... Enfim, ficámos muito contentes quando chegámos ao fim da viagem, mais inspiradas do que se tivéssemos conseguido ver o bom do vulcão.
Mas não desistimos: no dia seguinte, fomos passear até ao Lago Ashi (Ashinoko), um local agradável e turístico, com os seus passeios de barco e réplicas de navios piratas, rodeado por uma paisagem de montes e florestas. O passeio, de barco e a pé, pelas margens do lago, foi muito agradável, mas as vistas, bonitas é verdade, foram assim:














Lago Ashi (Hakone, Prefeitura de Kanagawa, Japão), Agosto de 2004

Depois do passeio, fomos almoçar a um restaurante, bastante concorrido por famílias japonesas. Não havia amostras nem menu em inglês, só uma carta ilustrada com fotografias dos pratos e a respectiva descrição em japonês. Apontei para o que me pareceu mais seguro: uma receita de massa clara, não me lembro já se grossa ou fina, com qualquer coisa que só consegui distinguir no fundo do prato, e que até hoje estou convencida de que eram pequenas larvas brancas, com dois olhinhos pretos.
Quanto ao Monte Fuji, vimo-lo em todo o lado: cartazes, fotografias, ilustrações, logotipos. E continuo a vê-lo hoje, a decorar os restaurantes sino-japoneses, que se tornaram o upgrade dos velhos e batidos restaurantes chineses, Portugal afora.

Histórias de Hakone


Hakone (Prefeitura de Kanagawa, Japão), Agosto de 2004

Após quatro dias em Tóquio, fomos passar outros quatro a Hakone, terra de montanhas e águas termais. Foi a última vez que ficámos num ryokan, mas moderno e funcional, um compromisso entre hotel e estalagem tradicional, perto da estação de Hakone-Yumoto. A roupa de cama estava incluída no preço do quarto, mas as toalhas eram adquiridas numa máquina de venda automática. Ainda tenho a minha: serviu-me para o duche, que nem os onsen de Hakone me conseguiram seduzir para as prometidas delícias dos banhos japoneses. Nada a fazer, a simples ideia daquele ritual fazia-me fugir:


(imagem daqui)

Porém, foi em Hakone que nos estreámos no sushi. Até aí, e já a viagem ia a meio, a nossa dieta consistia em donburi, com diferentes coberturas, é verdade, mas quase sempre aquelas malgas de arroz, que intercalávamos com refeições de massa. Apostámos, desde o início, em seguir e imitar os locais, à hora das refeições. Um dia, em Tóquio, esperámos que os funcionários das empresas de Ginza saíssem para o almoço e fomos atrás de um grupo até um pequeno e discreto restaurante de massas, fresquíssimas e saborosas, confeccionadas mesmo à nossa frente. O único senão dos restaurantes de massas era ter de ouvir o ruído ensurdecedor e confrangedor dos clientes a sorverem a massa (o que não diria a minha mãe, se ali estivesse!). Ainda hoje não percebo por que é que as massas eram servidas com um pequeno bule de água de cozedura, ainda fervente (daí a necessidade da sorvedura).



Na verdade, nunca vimos nenhum japonês comer sushi, mas, em Hakone, quisemos provar. Para o meu gosto, tinha demasiado wasabi e um sabor muito forte, pelo que não fiz questão de repetir a experiência. Gostar, gostar, gostei dos doces, sobretudo de daifuku, e de tudo o que tivesse recheio de pasta de feijão, e dos gelados, com cores e sabores exóticos: o verde de chá, o cinzento de sésamo, o castanho de feijão-azuqui. Para refrescar, nos dias mais quentes, nada como kakigōri, sobretudo com cobertura de chá verde.



Finalmente, ao fim de duas semanas, os nossos estômagos amotinaram-se: a simples visão das amostras de donburi começou a causar-nos náuseas. Ora, nessa altura, tínhamos tirado o Hakone Free Pass, que nos permitia circular à vontade nos transportes públicos da zona, pelo que decidimos ir até à cidade mais próxima, Odawara, à procura de comida mais ocidental. Não conseguimos encontrar grande coisa, mas, de repente, lembrei-me de que tinha vislumbrado, da janela do comboio, um grande M amarelo, no cimo de um edifício. Assim, corremos as ruas, de cabeça no ar, à procura do dito. Como não o conseguíamos encontrar, perguntámos a uma senhora que estava a fechar a loja, mas ela não parecia perceber-nos. Repetimos, mais devagar, e fez-se luz: "Ah, Makudonarudo!" Como estava muito ocupada, não nos pôde acompanhar (ainda hei-de falar sobre a disponibilidade dos japoneses para ajudarem turistas desorientadas), mas indicou-nos o caminho, que haveríamos de fazer dois dias seguidos, até o motim terminar, ao fim de quatro refeições de Teriyaki McBurger.
Em Hakone, o tempo começou a piorar, mas nem os chuviscos nos impediram de fazer vários passeios, de que ainda hei-de falar. Numa voltinha ao serão, encontrei este delicioso sinal de informação rodoviária, suspenso sobre uma estrada de montanha:

Tokyo Water Cruise
















Tóquio (Japão), Agosto de 2004

Fizemos, uma tarde, um passeio pela baía de Tóquio, àquela hora em que o poente proporciona imagens bonitas. Os barcos eram então bem menos aerodinâmicos do que são hoje.

#TBT: Tóquio, 2004


Tóquio (Japão), Agosto de 2004

De Quioto, apanhámos o shinkansen para Tóquio. Rápido, muito rápido, mas não dei por que levantasse voo, nem nada que se parecesse.
Tóquio se parecia com aquilo que eu esperava: grande, muito grande, o centro da maior área metropolitana do mundo, com cerca de 40 milhões de habitantes, 10 milhões dos quais só na cidade. Muito bulício, muito néon, muitos edifícios altos, muitas lojas, muita tecnologia, muito de tudo, cadeias ocidentais incluídas (e o que nós gostámos da colecção japonesa da Zara...). É uma cidade verdadeiramente fascinante, a que até a minha amiga se rendeu.





Curiosamente, das minhas memórias restam flashes, imagens soltas que já nem sei bem situar cronologicamente. Lembro-me de termos uma reserva num ryokan, já nem sei onde. Era um bairro pacato e da estalagem só recordo a banheira privada, funda, sinistra, forrada a pastilha preta e enterrada no chão, para a qual descíamos por uns degraus. A ideia era enchê-la de água e deleitarmo-nos com a experiência oriental. Eu limitava-me a descer os degraus numa corrida, usava o chuveiro para tomar um duche rápido e fugia o mais depressa que conseguia. A minha amiga também não morreu de amores por aquela antecâmara tumular, por isso, assim que pudemos, realojámo-nos num business hotel, em Kamata.





Passávamos uma boa parte do dia no metro, a tentar decifrar o diagrama de rede, frequentemente sem transliteração em alfabeto latino, pelo que tínhamos de saber ler os nomes das estações em japonês. Alguns, de tão habituais, tornaram-se fáceis, outros nem por isso. O pior é que o preço do bilhete, adquirido em máquinas automáticas, dependia das distâncias e do número de estações a percorrer, o que tornava o processo complicado. Às vezes, tínhamos mesmo de pedir ajuda. Mas não foi por isso que deixámos de explorar a cidade, e meter o nariz em cada bairro que podíamos.



À superfície, a loucura do trânsito e o fascínio das passadeiras para peões, de que as de Shibuya são as mais conhecidas. É muito interessante subir ao primeiro andar do Starbucks e ver de cima aquele formigueiro humano em acção. Já ao nível do chão, a experiência é mais complexa. Na prática, o trânsito vai fluindo, enquanto os transeuntes se concentram junto aos semáforos. De repente, os automóveis param e abre o acesso às passadeiras, todas ao mesmo tempo, as das ruas que se cruzam e uma diagonal (em alguns sítios são duas), no meio do cruzamento. A primeira vez, assustei-me, achei que ia ser arrastada por aquela debandada de centenas de pessoas, mas logo percebi que havia ali um civismo coreográfico que permitia que aquela maré fluísse com naturalidade. Fascinante. Aqui, pode ver-se o que eu tentei explicar, em tempo real (ter em atenção que o número de transeuntes varia muito com a hora do dia).



Um dia, decidi que queria comprar uma câmara digital e percebi, de repente, que, no meio de tanta loja, tanto centro comercial, o Sony Building, com as suas exposições de protótipos e novidades (lembro-me de assistirmos a uma exibição das proezas do mais recente AIBO), tanta publicidade às marcas, ainda não tinha visto um único sítio que vendesse equipamento electrónico. Tivemos mesmo de perguntar, e a resposta, admirada, não se fez esperar: "Isso é na Electric Town, claro!" E lá fomos nós, para Akihabara, um imenso bazar, horizontal e vertical, lojas e mais lojas a exibirem produtos, preços e saldos, em néon e tintas fluorescentes.
E explorámos outros bairros, com nomes igualmente sonantes e caracteres marcantes: Ginza, Shinjuku, Roppongi. E ainda passámos uma bela tarde no Tokyo Sea Life Park, que o orçamento já não chegava para a Disneylândia.


No exterior do Palácio Imperial

Papa-unescos (XIII)


Rokuon-ji, mais conhecido como Kinkaku-ji, o Templo do Pavilhão Dourado,
Quioto (Japão), Agosto de 2004


(42) Monumentos Históricos da Antiga Quioto

É claro que quem vai a Quioto não deixa de visitar os seus locais mais bonitos, classificados pela UNESCO em 1994. Templos, santuários, jardins de grande beleza e imponência que evocam a antiga capital imperial, que o foi de 794 a 1868. Os monumentos são muitos e estão espalhados por diversas zonas da cidade e arredores. Creio que não chegámos a visitá-los todos, mas uma parte significativa.