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Memória futura (25)


Cairo (Egipto), Agosto de 2024

A memória, no Cairo, faz-se presente de variadas formas e em diferentes línguas. Nuns casos, há tradução em inglês, noutros, apenas o texto em árabe e uma ajudinha do Google.
O primeiro memorial encontra-se junto à entrada da Cidadela e relembra as respectivas obras de restauro. As lápides laterais enumeram as intervenções realizadas; a central diz algo como:

Ministério da Cultura, Departamento de Antiguidades Egípcias
Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso, Senhor Presidente
Mohammed Hosni Mubarak
Primeira e principal fase do projecto de restauro e manutenção da Cidadela de Saladino e dos seus elementos arqueológicos e construção de novos museus históricos.
Na presença do Dr. Fuad Mohieddin,
o Primeiro-Ministro, e do Sr.
Mohammed Abdel-Hamid Radwan,
o Ministro da Cultura,
na Terça-feira, 20 Shawwal (...) [1983]


Os próximos foram encontrados no bairro copta.













Estes, nos museus.





Finalmente, nas imediações da Praça Tahrir, um monumento de homenagem a Simón Bolívar, inaugurado no dia 11 de Fevereiro de 1979. Oferecida pela Venezuela, a estátua de bronze, de 2,3 metros de altura, é da autoria do escultor venezuelano Carmelo Tabaco e o pedestal foi realizado pelo seu compatriota Manuel Silveira Blanco. Nele pode ler-se algo parecido com:
Simon Bolivar
1783-1830
A paz desfruta de todos os significados da liberdade e da independência
A glória está em ser grande e útil


Museus no Cairo


Cairo (Egipto), Agosto de 2024

Quando se fala em museus no Cairo, vêm logo três à ideia: o antigo, o novo e o futuro. O antigo é o Museu Egípcio, ou Museu do Cairo, na Praça Tahrir. Foi criado, no século XIX, para evitar que os achados arqueológicos do Antigo Egipto fossem todos expedidos para museus estrangeiros. Após ter ocupado diversas instalações, foi concebido, por arquitectos europeus, um edifício à imagem dos grandes museus ocidentais, que abriu ao público em 1902.





É hoje o maior museu de África e alberga a maior colecção do mundo de antiguidades egípcias, com mais de 120 mil itens, grande parte deles em exposição. Entre as suas maiores atracções conta-se o tesouro do faraó Tutancamon, incluindo a sua icónica máscara funerária de ouro.
Porém, é um produto da sua época e da concepção museológica do século XIX, que privilegiava a quantidade de artefactos em detrimento da sua qualidade e que era pensada por e para estudiosos, sem qualquer propósito educativo para a população em geral. Assim, encontramos no Museu Egípcio um labirinto de mais de 80 salas, divididas por dois andares, com milhares de objectos, mas com pouca informação sobre eles, a que acresce a fraca climatização e a falta de espaços de descanso. Contudo, a colecção inclui objectos incontornáveis e é de visita imperdível.







Já no presente século, foi decidido criar um novo museu, com uma concepção mais moderna e uma colecção mais abrangente: o Museu Nacional da Civilização Egípcia, na zona de Fustat.



Com um espólio de cerca de 50 mil peças, é um museu amplo, espaçoso e convidativo que apresenta a civilização egípcia desde os tempos pré-históricos até à era moderna, com muita informação sobre as épocas e os objectos. A colecção está organizada nas seguintes áreas cronológicas: arcaica, faraónica, greco-romana, copta, medieval, islâmica, moderna e contemporânea. Os artefactos em exposição foram escolhidos, com a assistência técnica da UNESCO, de entre o espólio de outros museus do país, para serem os mais representativos de cada época.





O Museu está dividido em quatro espaços: a Galeria Principal, muito ampla, onde se encontra a exposição cronológica e temática; a Galeria Têxtil, dedicada à evolução da tapeçaria, dos tecidos egípcios e da indústria têxtil ao longo de milénios; a Tinturaria, um notável achado arqueológico; e a grande atracção do Museu, a Galeria das Múmias Reais, uma cripta na penumbra, com entradas controladas, onde, em silêncio e recato, podem ser vistos os restos mortais de 17 reis e 3 rainhas do Antigo Egipto, assim como vários objectos provenientes dos seus túmulos e vasta informação sobre os mesmos, numa exposição interactiva que utiliza tecnologia de ponta.





Apesar de ter sido parcialmente aberto em 2017, o Museu foi oficialmente inaugurado a 3 de Abril de 2021, pelo presidente Abdel Fattah El-Sisi, com a transferência de 22 múmias do Museu Egípcio, num evento sumptuoso denominado "Desfile Dourado dos Faraós" (The Pharaohs' Golden Parade) que, literalmente, parou a cidade do Cairo e foi transmitido em directo para todo o mundo.





Porém, quando se fala no novo museu, aquele que vem logo à ideia é o Grande Museu Egípcio, também conhecido como Museu das Pirâmides, em Gizé. Já eu chamo-lhe "futuro", porque a sua construção teve início em 2012 e ainda não foi dada como terminada. O Grande Museu Egípcio irá acolher mais de 100 mil artefactos da antiga civilização egípcia, incluindo o espólio completo de Tutancamon, e será o maior museu arqueológico do mundo. Irá também acolher galerias de exposições permanentes, exposições temporárias, exposições especiais, museu infantil e écrans virtuais e de grande formato. Actualmente, estão abertas, a um público diário limitado a 4 mil visitantes, as áreas comerciais, os jardins exteriores, o átrio da entrada principal e doze galerias, como parte de um teste. A inauguração oficial e a abertura total do museu, com acesso às galerias de Tutancamon e ao Museu dos Barcos de Quéops, continuam pendentes, após sucessivos adiamentos. Enquanto isso, o tesouro de Tutancamon permanece no Museu Egípcio, onde pode ser visitado.

Fuga para o Egipto


Cairo (Egipto), Agosto de 2024

A Igreja dos Santos Sérgio e Baco, também conhecida como Abu Serga (ou Abu Sarga), é uma das igrejas coptas mais antigas do Egipto. Localiza-se no bairro copta, no Cairo Antigo. Foi construída no século IV e, provavelmente, concluída durante o século V. Ardeu no incêndio de Fostate, durante o reinado de Marwan II, por volta de 750, foi restaurada durante o século VIII e tem sido reconstruída e restaurada constantemente desde a época medieval (nomeadamente, nos séculos XI e XVII e em 2000). Contudo, ainda é considerada um modelo das primeiras igrejas coptas. É dedicada aos soldados romanos cristãos Sérgio e Baco, martirizados na Síria, no século IV, cujas relíquias são guardadas nesta igreja.




Segundo a tradição, assim como vários historiadores, entre eles o teólogo Hipólito de Roma e o Papa Teófilo I, 23.º Patriarca de Alexandria (385-412), a igreja de Abu Serga foi construída sobre a gruta onde a Sagrada Família descansou três semanas, durante a sua fuga para o Egipto, tendo aí vivido, enquanto José trabalhava na Fortaleza de Babilónia. Sob a igreja, a cripta tem 10 metros de profundidade, chegando a ficar inundada, quando os níveis do Nilo sobem, e abriga o poço do qual a Sagrada Família bebeu, a pedra sobre a qual o menino Jesus dormiu e algumas pedras que pisaram, todos devidamente sinalizados.



Tal como várias outras igrejas cristãs primitivas, a Igreja de Abu Serga foi concebida no formato de uma basílica, com três partes: o nartece, a nave e o santuário (a gruta fica sob o santuário). A nave é acompanhada por dois corredores laterais, dos quais está separada por doze colunas, onze de mármore branco e uma de granito vermelho. A nave e os dois corredores laterais formam um rectângulo com 27 m de comprimento e 17 m de largura, com uma altura de cerca de 15 m. Algumas das colunas de mármore apresentam vestígios claros de figuras que, provavelmente, representam santos. Capitéis coríntios originários de edifícios mais antigos foram colocados entre os fustes das colunas e as arquitraves de madeira que suportam o telhado, construído no formato da arca de Noé.
A extremidade poente da igreja é ocupada por um corredor de retorno. No lado leste, um santuário tripartido está separado do salão das congregações por uma impressionante iconóstase de madeira, decorada com ébano e marfim, cuja parte mais antiga remonta ao século XIII. No lado noroeste, existe um baptistério. Nas paredes da igreja, vêem-se belíssimos ícones, com várias cenas da vida de Cristo, da Virgem Maria e de diversos santos. O púlpito de mármore é uma cópia moderna do que está na igreja vizinha de Santa Bárbara. Partes do púlpito original de madeira foram levadas para o Museu Copta e também para o Museu Britânico, em Londres. Por cima dos corredores laterais e de retorno, existe uma galeria com duas capelas (uma dedicada a Sérgio e Baco, a outra a Abraão, Isaac e Jacob) que são utilizadas para serviços privados e durante o jejum da Páscoa.





A igreja tem uma grande importância histórica, por aí terem sido eleitos muitos patriarcas da Igreja Copta, o primeiro dos quais foi o Papa Isaac de Alexandria (689-692). É a igreja episcopal do Cairo, e foi a Sé episcopal do Cairo Antigo, substituindo a antiga Sé de Babilónia. Muitos bispos da Sé foram consagrados nesta igreja, até ao pontificado de Cristódulo de Alexandria (1047–1077), que quis ser consagrado na Igreja Suspensa, o que desencadeou uma forte rivalidade entre ambas.






Para melhor apreciar a Igreja de Abu Serga, é possível fazer uma visita virtual, aqui.

Igreja suspensa


Cairo (Egipto), Agosto de 2024

A Igreja Copta de Santa Maria Virgem (oficialmente, Sitt Mariam), também conhecida como Igreja Suspensa (em árabe, al-Kanīsah al-Mu'allaqah, ou apenas El Moallaqa), é uma das mais antigas do Egipto, havendo referências a uma igreja neste local, desde o século III. Situa-se no Cairo histórico, no bairro copta. A Igreja Copta Ortodoxa de Alexandria enquadra-se na Ortodoxia Oriental, tendo-se afastado, ao longo dos séculos, tanto da igreja romana como da bizantina.
As igrejas do bairro copta foram construídas após a conquista árabe (640). A Igreja Suspensa foi atestada pela primeira vez em documentação sob o Papa José I de Alexandria (831-849), por ocasião de uma obra de restauro. O edifício foi também amplamente reconstruído na época do Papa Abraão (ou Efrém I, 975-978) e, posteriormente, sofreu várias outras destruições e restauros. No final do século XVIII, ocorreu uma grande remodelação do edifício, que lhe conferiu o aspecto actual.




A entrada, ao nível da rua é feita por portões de ferro sob um arco de pedra em ogiva (imagem do topo). A fachada do século XIX, com torres sineiras gémeas, é visível ao passar por um pátio estreito decorado com motivos bíblicos modernos. A designação de Igreja Suspensa provém da sua localização sobre um dos portões da Fortaleza de Babilónia. Porém, o nível do solo subiu seis metros desde a época romana, tornando a sua posição elevada menos notória. Mesmo assim, a igreja é precedida por uma escadaria de vinte e nove degraus, o que levou os primeiros viajantes europeus a chamar-lhe "Igreja da Escadaria". Subindo as escadas e passando pela entrada, encontra-se outro pequeno pátio que conduz ao pórtico exterior do século XI.

A igreja é composta por duas partes: uma igreja principal com planta de basílica e, no lado sudeste, uma capela e um baptistério, estando as duas partes ligadas por uma colunata. A igreja principal mede 23,5 m comprimento, 18,5 m de largura e 9,5 m de altura e é constituída por nartece, nave central e quatro corredores laterais, sem matroneu. O tecto é de madeira, em forma de arca de Noé.



O ambão (púlpito), de mármore branco e colorido, suportado por quinze graciosas colunas islâmicas montadas sobre uma laje de mármore branco, data do século XI.

Existem três santuários no lado nascente da igreja: o do meio é dedicado à Virgem Maria, o da esquerda a São Jorge e o da direita a São João Baptista. O painel de madeira que divide os espaços (iconóstase) é uma obra de arte única, ricamente decorada com padrões geométricos e cruzes em ébano e marfim, encimada por ícones magníficos.





A Igreja Suspensa alberga um total de 110 ícones, na sua maioria, do século XVIII. Na parede sul da igreja principal, existe um ícone de São Marcos Evangelista (primeiro Patriarca, ou Papa, da Igreja Ortodoxa Copta) que data do século XV. O mais antigo é a "Mona Lisa Copta", que remonta ao século VIII e representa a Virgem Maria, Jesus Cristo e São João Batista. Chamam-lhe assim porque, tal como na pintura de Leonardo da Vinci, parece que os olhos da Virgem nos seguem, em todas as direcções.

Cairo copta


Cairo (Egipto), Agosto de 2024

Outra parte fundamental do Cairo antigo é o bairro copta (Qasr al-Sham'a), fortemente ligado à história do cristianismo no Egipto. Ao longo dos três primeiros séculos da era cristã, uma parte substancial da população do Egipto converteu-se ao cristianismo, tendo sofrido forte perseguição sob o Império Romano. As perseguições só terminaram em 313, com o Édito de Milão, que consagrou a tolerância religiosa.
O Cairo copta está situado dentro da antiga Fortaleza de Babilónia, cujo nome foi trazido pelos persas, que aí fundaram uma colónia homónima da antiga cidade junto ao rio Eufrates. A fortaleza foi construída, por volta de 300 d.C., pelo imperador romano Diocleciano, para proteger a entrada de um antigo canal que ligava o Nilo ao Mar Vermelho. Quando os árabes muçulmanos conquistaram o Egipto, no século VII, estabeleceram, fora dos muros da Fortaleza de Babilónia, uma nova cidade, Fostate, que se tornou a capital administrativa do Egipto e a sua cidade mais importante. Nos primeiros anos do domínio árabe, os cristãos foram autorizados a construir várias igrejas na antiga área da fortaleza, onde ainda se encontram algumas das mais antigas do Cairo.

Acima, a Igreja de São Jorge, também conhecida como Mar Girgis, sobre cuja torre está o único cata-vento que encontrei no Egipto. Representa o dragão alado, derrotado por São Jorge.



A Igreja de São Jorge é uma igreja ortodoxa grega que foi construída no século X (VII, segundo algumas fontes), sobre uma das torres redondas da fortaleza romana, daí a sua forma circular, única no país. A actual estrutura foi reconstruída entre 1904 e 1909, na sequência de um incêndio, e foi restaurada em 2015. Faz parte do Santo Mosteiro Patriarcal de São Jorge, sob o Patriarcado Ortodoxo Grego de Alexandria e toda a África. Desde 2009, o abade do mosteiro tem o título de Bispo Babylonos ("Bispo de Babilónia").

Entrada do Mosteiro Ortodoxo Grego de São Jorge. De notar a presença de um segurança informal que controla as entradas e que, a troco de algumas libras egípcias (ou euros ou dólares), se prontifica a guiar a visita. São comuns à porta de todos os monumentos, assim como a segurança armada (polícia e/ou exército) em todos os sítios turísticos, como se pode ver na imagem do topo. A segurança é hoje quase obsessiva, no Egipto, onde os fluxos do turismo (fundamental para a economia do país) têm sofrido oscilações, em virtude de passados atentados terroristas e da recente guerra em Gaza. Assim, as forças de segurança controlam as movimentações nos sítios arqueológicos, nas zonas históricas, nas fronteiras provinciais, nas estradas, onde calha. Mesmo as entradas nos hotéis são fiscalizadas com recurso a detectores de metais, como nos aeroportos.

A Rua Mar Gerges (ou Mar Girgis, Mary Gerges -- nunca hei-de compreender estas transliterações) dá acesso ao bairro copta, que é igualmente servido pela estação de metro Mar Girgis, da linha 1, uma estação moderna, em frente à Igreja de São Jorge.





As ruas interiores do bairro são, porém, antigas, estreitas, marcadamente medievais.