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Santos negros


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

A dependência mais curiosa da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco foi, para mim, a Casa dos Santos. É uma divisão rectangular, no piso térreo, com saída e janelas para o exterior, que preserva um importante conjunto de imagens de santos de roca e de vestir, instalados numa série de capelas neoclássicas que circundam o aposento. Estátua de roca ou imagem de roca designa a tipologia de imagens sacras que se destinam a ser levadas em procissão e que são vestidas com trajes de tecido. Este género de imagens adquiriu considerável importância no culto católico, especialmente durante o período barroco, estendendo-se até meados do século XIX.
A Casa dos Santos foi construída em 1844, sob a direcção de Joaquim Francisco de Mattos, e alberga, além das figuras que, na Semana Santa, representam as diferentes estações da Via Sacra (o Senhor no Horto, o Senhor na Pedra Fria, o Senhor na presença de Pilatos, o Senhor na Prisão, o Senhor dos Açoites, o Senhor dos Passos, Cristo Crucificado e o Senhor Glorioso), as imagens marianas de Conceição Maria Santíssima e de Nossa Senhora das Dores e todo um panteão de devoção franciscana: Santa Margarida de Cortona, Santo Ivo Doutor, São Domingos, São Francisco, Santa Clara, Santa Coleta, São Vivaldo, Santa Rosa de Viterbo, São Elzeário, Santa Delfina, São Lúcio, Santa Bona, Santa Isabel da Hungria, São Conrado, São Luís Rei de França, Santa Isabel Rainha de Portugal. Porém, a que mais chama a atenção é a figura de um negro, de hábito escuro, com um sorriso luminoso e o Menino ao colo, identificado como Beato António de Loures. Ora, com esse nome, não encontrei santo algum.





Uma pesquisa mais demorada levou-me a crer que se trata do santo de devoção popular António de Categeró (ou de Cartago, de Noto ou Etíope). Foi um negro muçulmano do Norte de África, vendido, no século XVI, como escravo para a Sicília, onde foi catequizado e se converteu ao cristianismo. Após ser libertado, dedicou-se a cuidar de doentes, em hospitais, ingressou, posteriormente, na Ordem Terceira de São Francisco e, mais tarde, decidiu seguir uma vida contemplativa e tornou-se eremita no deserto. O seu corpo incorrupto, 50 anos após a morte, assim como as histórias de milagres ocorridos por sua intercessão, conduziram à sua beatificação, cerca de 1611.
Foi por intermédio dos jesuítas que a devoção a Santo António de Categeró foi de Itália para o Brasil. A primeira Fraternidade de António de Categeró foi fundada em 1592, muitas igrejas lhe foram dedicadas e mais de 60 imagens representavam este santo africano, no final do período barroco. Foi objecto de devoção, sobretudo, pelos escravos trazidos de África, que se identificavam com a cor da sua pele e com a sua história de vida. Santo Antônio de Categeró, São Benedito, Santo Elesbão e Santa Efigénia são os quatro santos negros cuja devoção se espalhou pela comunidade de ascendência africana, entre os séculos XVI e XVIII.
Já em Cairu, na Igreja de Santo António, fui recebida à entrada por outra imagem de um santo negro com o Menino ao colo, que depreendi que fosse o mesmo que vira em Salvador.




Cairu (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

Mas não era. Este foi mais fácil de identificar como São Benedito, santo padroeiro com grande tradição em Cairu, que, anualmente, organiza as festividades conhecidas como Reinado (ou Reisado) de São Benedito.
Como se explica, então, a semelhança entre as imagens? São Benedito é tradicionalmente figurado tendo nos braços ou o Menino Jesus ou um cesto de pão. Acontece que também Categeró foi frequentemente representado com o Menino, o que tendia a gerar confusão com São Benedito. Foi por isso que, em 1699, a autoridade religiosa da Bahia censurou o uso dessa imagem no processo de instituição da Irmandade, definindo que Categeró usaria como atributo o crucifixo na mão direita. Mas nem assim conseguiu tirar o Menino do colo do Beato, onde, pontualmente, se vinha aninhar, para grande irritação dos franciscanos baianos, que, desde 1699, iniciaram uma "obsequiosa negação de Categeró", que se agudizou entre 1764 e 1768.

Um São José de azulejos T6:3










Alandroal, Outubro de 2023


Terena (Alandroal), Outubro de 2023














Juromenha (Alandroal), Janeiro de 2026

Igreja da Ordem Terceira de São Francisco


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

Do lado esquerdo do complexo constituído pela Igreja e Convento da Ordem Primeira de São Francisco, encontra-se a Igreja da Venerável Ordem Terceira da Penitência do Seráfico Padre São Francisco da Congregação da Bahia, cuja construção teve início em Janeiro de 1702, sob projecto atribuído ao mestre Gabriel Ribeiro. Destaca-se, no conjunto, pela opulência da sua fachada em estilo barroco de inspiração espanhola (com características de churrigueresco, ou barroco mexicano), única no Brasil.



A igreja é um templo de nave única, com planta inspirada em modelo jesuítico amplamente difundido em toda a arquitectura religiosa brasileira. A decoração interna primitiva, em estilo barroco, foi substituída na sua maior parte, entre 1827 e 1828, por seis altares laterais e uma capela-mor em estilo neoclássico com talha dourada, que constituem o principal trabalho do mestre entalhador José de Cerqueira Torres, ainda em excelente estado de conservação. De sua autoria são também a talha das tribunas, do arco do cruzeiro, da caixa do órgão, dos púlpitos, da grade do coro e os caixotões do tecto da nave. A douração foi contratada, em 1830, com Franco Velasco, a quem são também atribuídas as pinturas do tecto da nave, inseridas nos caixotões. A igreja foi reconsagrada e reaberta em 4 de Julho de 1835. Uma belíssima colecção de fotografias dos detalhes do interior da igreja, de Rogério P. D. Luz, pode ser vista aqui e aqui.





Entre as várias dependências da igreja dignas de visita, contam-se a sacristia, o museu e a Sala da Mesa (imagem acima), onde se reuniam os membros da confraria da Ordem Terceira, ao redor de uma enorme mesa e cadeiras em madeira de jacarandá. Evidencia-se também o trono usado pelo rei D. João VI e pelos imperadores D. Pedro I e D. Pedro II. Porém, o principal destaque vai para o grande acervo de azulejos portugueses, distribuídos por vários espaços do complexo, como as galerias, corredores e claustro, vindos de Portugal, e que retratam Lisboa antes do terramoto de 1755 e cenas do cortejo do casamento do infante Dom José e Dona Mariana Victoria de Bourbon, em 1729.

Os painéis mostram-nos o dia-a-dia no rio Tejo – os barinéis, os batéis, embarcações a remos e à vela e naus de três mastros, com pavilhões portugueses e holandeses – e na zona ribeirinha, enquadrada pelas colinas da cidade, edifícios com tectos cónicos, coches, grupos de nobres, membros do clero, a tropa com os chuços e as lanças em riste, o Arco dos Ingleses e o Arco dos Medeiros, o Palácio do Conde de Eiras e, em primeiro plano, as escadinhas de acesso ao Castelo de São Jorge. Vê-se também a Torre de Belém e, ao seu lado direito, um edifício quadrangular com quatro torres cónicas e uma escadaria frontal. No terreiro adjacente está em parada um batalhão do exército tendo como pano de fundo uma igreja e um mosteiro que só pode ser o Mosteiro dos Jerónimos.






No claustro, além de um relógio solar de 1736, encontramos uma capela dedicada a São Roque e uma impressionante colecção de lápides funerárias, sobre as sepulturas de fiéis endinheirados e dos irmãos da Ordem. Em meados do século XX, a municipalidade interditou essa prática, pelo que foi criado um ossário, numa cripta branca e luminosa.







Um São José de azulejos T6:2








Aveiro, Julho de 2025


Cortegaça (Ovar), Julho de 2025












Praia de Mira (Mira), Julho de 2025

Mercado Modelo


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

O Mercado Modelo, centro de abastecimento na Cidade Baixa de Salvador, foi erigido perto da Casa da Alfândega (construída em 1860-1861) e foi inaugurado em Dezembro de 1912. No entanto, teve uma história muito acidentada, marcada por diversos incêndios (1917, 1922, 1943, 1969), o último dos quais ditou a demolição dos destroços e a reinstalação do mercado no edifício da alfândega, em 1971.







Porém, a sua má sorte não terminou aqui: a 10 de Janeiro de 1984, novo incêndio conduziu a uma extensa reforma do mercado, que foi reinaugurado no mesmo ano.













É hoje uma das atracções turísticas de Salvador: um mercado de artesanato e gastronomia baiana, onde convivem aromas e cores, os ritmos das rodas de capoeira, o candomblé e a devoção cristã à Virgem Maria, Santo António e Santa Dulce dos Pobres, primeira santa católica nascida no Brasil, canonizada pelo Papa Francisco em 13 de Outubro de 2019.