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#TBT: Mar Adriático, 2005




Mar Adriático, entre Hvar e Split (Croácia), Julho de 2005

No Verão de 2005, conheci aquele que se viria a tornar, para mim, o alto grau da água do mar. Desde aí, qualquer sítio onde eu molhe o pé se vê comparado ao Adriático, perdendo sempre na comparação. É por isso que só deixo que as ondas me molhem os tornozelos, na Ericeira ("Credo! Se ainda fosse o Adriático..."), miro com respeito e (muita) distância o Mar do Norte ("Ai, que saudades do Adriático!") e, no Algarve, só me arrisco depois de deixar as pernas avaliarem o grau de Adriático da temperatura da água. Há quem use a escala de Celsius, outros, a de Fahrenheit -- eu uso a escala do Adriático: "Não está mal, mas nada que se compare ao Adriático", "Hoje, quase parece o Adriático!". Estremeço de pensar o quanto me diverti na Figueira da Foz, e mesmo na Costa da Caparica, mas a idade (e já há muito) fez de mim uma flor de estufa.
Lembro-me da surpresa que foi para mim a temperatura do Mar Egeu, mas nem esse me conseguiu deslumbrar como o Adriático. Fosse porque o calor, na Croácia, era superior ao que suportei na Grécia, fosse pela beleza da costa, o Adriático marcou-me. Não lhe conheci uma praia digna do nome, mas a água, como já aqui contei, calma, quente, límpida, ficou-me no imaginário (sobretudo desde que me consegui livrar dos picos de ouriço do pé).


Split (Croácia), Julho de 2005




Dubrovnik (Croácia), Julho de 2005


Praia rochosa, creio que em Cavtat (Konavle, Croácia), Agosto de 2005


Praias em Sveti Stefan (Montenegro), Agosto de 2005


Praia em Budva (Montenegro), Agosto de 2005


Ao largo de Budva (Montenegro), Agosto de 2005

Papa-unescos (XVII)


Kotor (Montenegro), Agosto de 2005

(46) Obras venezianas de defesa dos séculos XVI e XVII: Stato da Terra - Stato da Mar ocidental (Croácia e Montenegro)

É como eu costumo dizer: é deixá-los pousar. E, desta vez, o Comité do Património Mundial da UNESCO, na sua 41.ª sessão, em Julho passado, em Cracóvia, decidiu inscrever na lista, com o número 1533, duas fortalezas pelas quais eu passei. Curiosamente, ficam ambas em cidades que já tinham património classificado, e que eu já tinha elencado aqui, a saber, a região natural, cultural e histórica de Kotor, em Montenegro (o meu número 28, 125 da UNESCO, desde 1979), e a Catedral de São Tiago, em Šibenik, na Croácia (o meu número 8, 963 da UNESCO, desde 2000).
Desta vez, o Comité decidiu classificar um conjunto de fortalezas e cidades fortificadas em Itália, Croácia e Montenegro, entre os quais a cidade fortificada de Kotor e o Forte de São Nicolau, em Šibenik.
Kotor ou Cátaro (historicamente conhecida pela designação italiana de Cattaro, do veneziano Càtaro) é uma cidade simpática, com vista para uma baía linda e com um centro histórico muito bonito que beneficiou de uma ampla reabilitação, após a destruição causada pelo terramoto de 15 de Abril de 1979. A cidade antiga está rodeada por uma imponente cintura de muralhas, construída pela República de Veneza, à qual a cidade se uniu, no século XV, para poder contar com a sua protecção contra as investidas do Império Otomano. As muralhas permanecem hoje bem conservadas e podemos vê-las a serpentear pelas rochas, monte acima. É um enorme sistema defensivo, contendo muralhas, torres, cidadelas, portões, bastiões, fortes, cisternas, um castelo e outros edifícios e estruturas auxiliares. Na realidade, foi incorporando elementos de diferentes épocas, desde o domínio romano ao austríaco. O seu baluarte mais imponente é a torre Kampana, que, como o próprio nome indica, parece um enorme sino.







O Forte de São Nicolau (Utvrda sv. Nikole, em croata, ou Tvrđava Sv. Nikole, que as línguas de casos são um problema, sobretudo para quem não as domina) é a única das fortalezas de Šibenik que fica no mar, à entrada do porto da cidade, mais precisamente na ilha de Ljuljevac, no lado esquerdo da entrada do canal de Santo António (Sv. Ante). Em terra firme, estão situadas as restantes fortalezas que constituem o sistema defensivo da cidade: os fortes de São João (Tvrđava Sv. Ivana), do Barão (Tvrđava Barone) e de São Miguel (Tvrđava Sv. Mihovila), também conhecido como Castelo de Santa Ana. Este último é o mais antigo, e, a bem da verdade, o único que visitei e de onde tive uma vista fabulosa da cidade, da Catedral de São Tiago, do Canal de Santo António e das muitas ilhas que se estendem no horizonte, até ao Mar Adriático. Imagino que o Forte de São Nicolau fique numa daquelas que a minha vista alcançou, lá de cima, perdidas na névoa de uma tórrida tarde de Verão.


Šibenik (Croácia), Julho de 2005

Crna Gora

No próximo dia 21 de Maio, um referendo interno decidirá o futuro do Montenegro, a independência ou a manutenção no estado da Sérvia e Montenegro. O resultado é uma incógnita, visto que a divisão de opiniões é ainda muito grande. Lembro-me da confusão nos dísticos identificadores dos automóveis: havia os saudosistas do YU, os unionistas do SCG (Srbija i Crna Gora) e os independentistas do CG (Crna Gora).
Por todo o lado, o cirílico, o alfabeto oficial do sérvio, convivia pacificamente com o alfabeto latino. De resto, quanto à língua oficial, as fontes dividem-se entre o sérvio e o montenegrino (crnogorski).
Crna Gora significa, literalmente, "monte negro", designação generalizada pelos venezianos. A capital, Podgorica, teve vários nomes ao longo da história, e chamou-se, de 1945 até 1992, Titograd, a cidade de Tito.
A moeda corrente no Montenegro é o euro. Há já uns anos que, através de um acordo bilateral com a Alemanha, o Montenegro adoptou o marco, tendo mudado posteriormente para o euro. A nossa guia tratou de advertir os coleccionadores compulsivos para a inutilidade de procurarem moedas montenegrinas, visto que o Montenegro não tem autorização para cunhar moeda.


Kotor

De Perast, continuámos ao longo da baía de Kotor, considerada uma das baías mais bonitas do mundo (ver vídeo). Kotor e a região de Boka Kotorska estão classificados pela UNESCO como património natural, cultural e histórico.


Kotor

Kotor é uma cidade muito bonita, rodeada por uma fortificação medieval, e com muitas igrejas e palácios, que constituem belos exemplares arquitectónicos, que variam entre o românico, o gótico, o renascentista e o barroco. Muitos destes monumentos foram danificados pelo sismo de 1979, mas foram recuperados, com o apoio da UNESCO.


A igreja ortodoxa de S. Nicolau (séc. XX), reconstruída com
pouco apoio da comunidade, maioritariamente católica


De Kotor seguimos para Sveti Stefan (Santo Estêvão), onde almoçámos. Sveti Stefan é uma ilha, fortificada no século XV, que teve, em tempos, grande importância estratégica e comercial. A partir do final do século XIX, perdeu, gradualmente, importância e habitantes. Em 1955, foi totalmente renovada e transformada numa estância turística de luxo, uma "cidade-hotel" para o jet set internacional.


Sveti Stefan

Continuámos para Budva, cidade conhecida pelos seus monumentos, pelo festival de teatro e pela intensa actividade turística, no Verão, e pelas suas muitas praias, apinhadinhas de gente. Demos umas voltas pelas ruas e subimos à fortaleza da Citadela, para melhor apreciarmos as vistas.


Budva

No regresso, encurtámos caminho, atravessando a baía de ferry, o que nos permitiu usufruir das imagens oferecidas pelo pôr-do-sol sobre Boka Kotorska, e seguimos, de volta a Dubrovnik.


Boka Kotorska

REFERÊNCIAS

História:
> Jugoslávia: Yugoslavia (Wikipedia), Socialist Federal Republic of Yugoslavia (Wikipedia)
> Montenegro: Montenegro (Wikipedia), History of Montenegro (Wikipedia), Discover Montenegro

Páginas oficiais:
> República do Montenegro, Governo da República do Montenegro
> Organização Nacional do Turismo do Montenegro (Visit-Montenegro.org)

Turismo:
> Projecto Visit-Montenegro.com: Visit Montenegro, Tourism Montenegro, Best of Montenegro, Destination Montenegro, Weather in Montenegro, Photo Montenegro
> Montenegro.com (contém uma lista completa e bem organizada de links sobre o Montenegro)
> Discover Montenegro
> Montenegro Tourism Directory
> Montenegro Tourist Service

Montenegro Blue

Com todas aquelas fronteiras à volta de Dubrovnik, andávamos cheiinhas de vontade de nos metermos num autocarro confortável, com um bom sistema de ar condicionado, e de irmos ver o que se passava do outro lado. Mostar foi a primeira opção: uma cidade martirizada, a renascer das cinzas da guerra, um velho bastião do império otomano ao sul, o Islão ali ao lado. Porém, e por estranho que pareça, as várias agências de viagem a operarem em Dubrovnik organizam as excursões nos mesmos dias da semana, e os dias destinados à Herzegovina já tinham passado. Restavam os passeios ao Montenegro.
Do Montenegro, sabia eu quase nada. Lembrava-me de que o Corto Maltese tinha por lá passado, em tempos de outra guerra. Sabia que tinha sido independente, até se unir à Sérvia e depois integrar a Jugoslávia, e que alinhava ainda com a Sérvia, para a guerra e para a paz.
Tínhamos duas excursões à escolha: uma ao longo da costa e outra que se aventurava pelo interior. Sabendo que as temperaturas subiam exponencialmente com o afastamento do litoral (até aos 51ºC registados em Mostar, dias antes), não tivemos grandes dúvidas.



Saímos logo de manhã, com um grupo heterogéneo, acompanhados por uma guia jovem, bonita e elegante (como a generalidade das croatas) e muito profissional. Esclareceu logo que não sofria de traumas de guerra, pelo que estava à disposição para qualquer tipo de perguntas. E foi desenrolando, em várias línguas, factos e episódios históricos e geográficos. Falou-nos das três Jugoslávias que se sucederam no século XX, da de Tito e da Grande Sérvia de Milošević. Do país ingovernável, pelas sete razões que Tito enumerava: 7 fronteiras, 6 repúblicas, 5 nacionalidades, 4 línguas, 3 religiões, 2 alfabetos e 1 partido político. De vez em quando parava, para mostrar, à esquerda e à direita, as provas da pobreza montenegrina, que comparava orgulhosamente com a rápida reconstrução croata: «E eles não sofreram uma guerra em casa. Nem um único bombardeamento! Eles é que nos atacaram a nós!». Aguentem-se agora, pois. E lá se foi a teoria sobre os traumas de guerra.
Se eu ainda tinha dúvidas, depressa as tirei, ao encetar com a senhora uma interessante conversa sobre a diversidade linguística da ex-Jugoslávia. Perfeitamente consciente de que uma língua é aquilo que o homem quiser, de que o que distingue uma língua de um dialecto é um mero decreto, de que as línguas unem-se e separam-se ao sabor das fronteiras políticas, quis ainda assim saber como é hoje encarada a identidade linguística na região. Tratou logo de me explicar que o servo-croata nunca existiu de facto, que tinha sido uma mera criação política: os croatas falam croata, os sérvios falam sérvio, os eslovenos, esloveno, os macedónios, macedónio e os bósnios, bósnio. Então e os montenegrinos? Ora, os montenegrinos falam servo-croata, claro. E ficámos conversadas.



Partimos de Dubrovnik, passámos por Župa Dubrovačka e pelo fértil vale de Konavle e saímos da Croácia, em direcção a Boka Kotorska, a baía de Kotor. O que mais aflige esta região montenegrina é a falta de água doce. Agora, como dantes, o abastecimento às populações é assegurado a partir de Dubrovnik. Escusado será dizer qual foi a primeira medida tomada pelos croatas a seguir ao primeiro bombardeamento.
A baía de Kotor oferece vistas muito bonitas, há até quem a considere o fiorde mais meridional da Europa. Na realidade, é o canhão (canyon) submerso de um rio, que sofreu o efeito de diversos processos geológicos. A baía é composta por vários pequenos golfos, ligados por canais.


As ilhas de Sveti Juraj e Gospa od Škrpjela

Em frente à localidade de Perast há duas pequenas ilhas, cada uma com uma igreja: a de Sveti Juraj (S. Jorge) e a de Gospa od Škrpjela (Nossa Senhora da Rocha). Tomámos um barquito que nos levou até à segunda.
A ilha de Gospa od Škrpjela foi construída artificialmente, reza a tradição, sobre navios afundados e pedras trazidas pelos marinheiros, para agradecer o bom sucesso das viagens. Lentamente, a ilha emergiu das águas e aí foi construída uma primeira capela, em 1452.


A igreja e o santuário de Gospa od Škrpjela

A actual igreja barroca, datada de 1632, foi ampliada por volta de 1725, com a adição de um santuário, com uma cúpula octogonal.
O interior da igreja ostenta 68 pinturas de Tripo Kokolja (1661-1713), artista barroco de Perast, algumas obras de origem italiana e um ícone de meados do século XV, pintado sobre madeira, representando Nossa Senhora da Rocha e o Menino, da autoria de Lovro Marinov-Dobričević, de Kotor. A igreja alberga ainda um pequeno museu.
Anualmente, na noite de 22 de Julho, os habitantes de Perast celebram uma festa, durante a qual são lançadas pedras em torno da ilha, para fortalecerem os seus alicerces.


Lovro Marinov-Dobričević, Gospa od Škrpjela, ca. 1452