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InterRail 2005 (V)

O Pedro, depois de acabar o curso, deu asas ao seu espírito aventureiro e embarcou numa experiência Comenius que o levou à Noruega, onde se encontra a trabalhar desde Setembro. Mas não se esqueceu de nós, e enviou agora a continuação das suas aventuras no InterRail de 2005, com «snowy regards from Trondheim». Uma delícia, estas crónicas do Pedro, e uma excelente prenda natalícia! Muito obrigada e um grande abraço, deste ameno país que o frio já colocou em alerta amarelo, mas sem perspectivas de um Natal branco.
Não parece, mas estou a viajar de comboio... O local, algures no Báltico, no estreito que separa a Dinamarca do sul da Suécia. O barco está adaptado para receber comboios no porão, pois não existe linha férrea entre as duas margens.
Os dois dias seguintes foram essencialmente a fazer quilómetros e a subir no mapa tanto quanto possível, para depois fazer o trajecto inverso, escolhendo, então, algumas cidades para visitar com mais minúcia.
Deambulei algumas horas por Gotemburgo, cidade que conhecera no ano anterior, mais para recordar sítios e monumentos familiares, do que para fazer visitas mais detalhadas, pois o tempo não era muito. Ao final da noite, embarquei então no comboio da noite e iniciei mais uma viagem do imaginário. Já o referi, mas nunca é de mais referir, os comboios são dos melhores da Europa e dá para descansar relativamente bem, seja recostando a cabeça, procurando a posição mais confortável, seja utilizando dois assentos e improvisando uma cama. Eu enfiava-me no meu inestimável saco-cama e optava sistematicamente por esta última, mas, claro está, se o titular do bilhete onde os meus pés descansavam entrasse a meio da noite, a probabilidade de eles mudarem de posição era assaz considerável.

A vida a bordo do comboio... posando para a fotografia.
Recordo-me de, numa das noites, ter dormido no chão, no espaço entre duas filas de assentos, entre a estrutura metálica. Soa estranho? Bem, é o local onde a trepidação do comboio é menor e a posição horizontal permite algum descanso ao corpo. Para mim, essas horas surgiram como um maná dos deuses, pois o comboio estava apinhado de gente nessa noite em particular, e não havia posição que pudesse proporcionar algum conforto, sem ser essa. Adiante.

Paisagem do norte da Suécia. Muitos lagos, criando uma notável harmonia com as montanhas envolventes. Creio que faz parte de um Parque Nacional, deve ser um sítio fantástico para fugir do bulício da vida stressante das cidades modernas. A única forma de entrar no norte da Noruega é via Suécia, pois é uma zona muito montanhosa e sem ligação por estrada ou linha férrea do lado sul.
Cedo pela manhã, aproveitei os primeiros raios de sol para vislumbrar a imensidão das florestas escandinavas. Devo dizer que fiquei um pouco desapontado. Se bem que parte da floresta seja quase tundra, a dimensão reduzida da maioria das árvores deixou-me um pouco nostálgico de tempos passados, onde a indústria da celulose e a avidez humana pelo lucro fácil ainda não ditavam leis como o fazem hoje em dia. Ainda assim, vi alguns alces e alguns veados. Lobos e renas, nem por isso, talvez por, mesmo aqui, serem espécies ameaçadas e confinadas a alguns parques remotos, onde equipas de televisão se deslocam esporadicamente para alimentar essa mesma nostalgia de tempos passados, onde os animais vagueavam livres pela floresta...
As árvores esbatidas na distância, teimosamente fugindo do meu olhar, sem nunca se deixarem apanhar, fizeram-me regressar à realidade, lembrando-me da minha efémera condição de passageiro. Quando passamos tanto tempo num comboio, às vezes é fácil esquecermo-nos que de facto somos setas em movimento.

Junto à fronteira norte Suécia / Noruega, na parte sueca. Mesmo em Agosto, é possível observar alguma neve nas montanhas, alimentando as muitas cascatas que serpenteiam pelas encostas abaixo.
A paisagem do norte da Escandinávia, junto à fronteira entre a Noruega e a Suécia, foi das mais bonitas com que me deparei durante a viagem. Muitas quedas de água, muitos lagos, numa perfeita harmonia com a natureza envolvente, o recortado das montanhas na distância. Mesmo em Agosto, alguns dos cumes mostravam ainda alguma neve. Encontrei muitos amantes da natureza nestas paragens. Munidos de tenda, mochila e bicicleta, iam saindo um após outro, sempre que nos aproximávamos de algum parque ou lago mais soalheiro. Os comboios encontram-se preparados para transportar as bicicletas e existe um grande vagão onde estas são transportadas.

Junto à fronteira entre a Suécia e a Noruega, do lado sueco. De realçar o padrão de cor das casas, na maioria de madeira e tonalidade ocre, com telhados inclinados (para não acumularem muita neve) e de tom acinzentado.
Gostei muito de ver, mesmo junto à fronteira, numa zona muito pedregosa, as típicas casas de madeira escandinavas, pintadas de vermelho, na sua maioria, o telhado acinzentado inclinado e, em cada casa, um grande mastro de bandeira com a respectiva bandeira ondulando ao vento. Consoante a nacionalidade dos moradores, tanto poderia ser azul e encarnada como amarela e azul, fazendo um enquadramento muito agradável com a paisagem circundante e muito bonito de observar.
Após uma longa e esgotante viagem, cheguei então finalmente a Narvik. Situada já no interior do círculo polar árctico, dista umas centenas de quilómetros acima de Rovaniemi, na Finlândia, onde estive no ano passado e que marca o seu início. É uma pequena e pitoresca cidade do norte da Noruega, que irei descrever um pouco melhor na próxima crónica.

A chegada a Narvik. Aspecto da estação de comboios... um pouco parecido com o fim do mundo, sim (o:
[ I: de viagem para Paris | II: Paris | III: Amesterdão | IV: Haia | V: através da Escandinávia ]

Texto e fotos de Pedro Bicho

InterRail 2005 (IV)

Ainda durante as minhas perambulações pela Holanda, tive oportunidade de visitar a sua capital política: Den Haag, entre nós também conhecida por Haia. No entanto, para muita gente, Amesterdão é a capital de facto da Holanda, nomeadamente, a nível económico. Haia é uma cidade agradável, com meio milhão de habitantes, muito plana e muito verde. Em cada canto deparamo-nos sempre com as inevitáveis bicicletas características do povo holandês.
Após curta viagem nos excelentes serviços ferroviários holandeses, saí da estação e depressa encontrei um posto de turismo estrategicamente localizado defronte desta. Devidamente orientado e já de mapa na mão, eis que parti, uma vez mais, à descoberta de nova cidade. Procurar o palpitar do seu coração entre canais e vielas, sincronizá-lo com o meu e escutar em cada batida deste uma extensão do meu corpo, o meu principal desiderato.
Como tantas cidades holandesas, possui, como já referi, os inevitáveis canais e simultaneamente uma cultura vincada e variada, fruto do seu passado cultural e das suas tradições humanistas e liberais, que com o tempo se tornaram num traço do seu povo. Um facto que creio merecer destaque são os muitos parques e jardins existentes em Den Haag. Um terço da cidade compreende espaços verdes, o que contrasta sobremaneira com as nossas cidades, por norma frias e impessoais, mais sujas e poeirentas, sem espaços onde as pessoas se possam reunir e conviver. A mescla de povos também é notória e salta à vista: 40% dos seus habitantes são de outras nacionalidades, coexistindo de forma mais ou menos harmoniosa. No entanto, o recente assassinato de Theo van Gogh veio inflamar um pouco os ânimos, em especial junto da comunidade muçulmana, que compreende cerca de um milhão de residentes na Holanda.
Em Haia tive a oportunidade de visitar (e pagar!) mais um museu de arte, que destaco: Mauritshuis, casa de quadros de pintores holandeses célebres, tais como: Vermeer, Rembrandt, Rubens, Potter e Hals, entre outros. A pintura mais famosa que alberga é a famosa Lição de Anatomia, de Rembrandt. Escusado será dizer que as fotografias no seu interior são proibidas, conforme pude constatar por mim próprio, uma vez mais...
Mas fiquei com pena de não ter visto tudo quanto queria, não observado a fachada do Tribunal Internacional de Haia, nem percorrido a zona fronteira ao mar, Scheveningen (por falta de tempo), bem como um parque temático de miniaturas dos principais monumentos (uma espécie de Portugal dos Pequeninos) denominada Madurodam, do qual só tomei conhecimento posteriormente, num dos muitos panfletos que recolhera, mas a que não dera a devida atenção. Talvez numa próxima oportunidade. A Holanda, apesar de ser um país pequeno, é muito rico e diversificado culturalmente.
Saber escolher entre a multiplicidade de opções que se nos levantam é um dos principais segredos de todo o viajante... e assim dar o tempo por bem empregue, para mais tarde recordar.
Antes de terminar esta crónica, duas notas finais de destaque. A primeira foi a minha estreia numa coffee-shop de nome Bluebird (segundo me disseram, uma das mais conceituadas da cidade), e, como o próprio nome indica, foi isso mesmo que lá fui tomar. Um café, pois claro! Localizei-me estrategicamente junto a uma janela por motivos de vária ordem: para poder observar o vaivém de quem entrava e saía e para ver se não levava muito com o fumo de quem não estava a tomar café (o: e assim poder sorver tranquilamente o meu café, que me soube a terras de Portugal. Recomendo a experiência. Se optarem por não beber café, a oferta é variada e é disponibilizado aos clientes um menu com as especialidades da casa, em número apreciável, e a possibilidade de poderem tranquilamente fazer algo que, em muitos países europeus, é punível com multas e penas de prisão. Quanto à segunda nota, a raiar a comédia (ou não, eu na altura lembro-me de não ter achado graça nenhuma!), muita atenção ao comprarem "Mineral wasser" na Holanda. Após comprar a dita garrafa, por cerca de 3€, eis que a abro impetuosamente e, sofregamente, engulo vários tragos de uma assentada, posteriormente cuspidos (na medida do possível, infelizmente), enquanto fazia inenarráveis caretas, pois o que tinha bebido era vinagre. Enfim, sem comentários. Mas fica dado o aviso. Adiante.
Parti ao quarto dia de permanência no país, no comboio da noite... rumo ao norte selvagem e desconhecido. Que novas aventuras me reservaria ainda o futuro? Francamente, creio que preferiria não o saber, mesmo que existisse tal possibilidade. Essa é a única forma de poder encarar com um sorriso genuíno cada nova descoberta. E foi assim que embarquei em mais uma jornada. Destino: a Escandinávia.

Foi das primeiras fotos que tirei em Den Haag. Os cisnes são aves muito bonitas, especialmente quando adultos. Lembro-me de, na altura, a minha fértil imaginação me ter transportado, por breves instantes, para o interior de uma das histórias dos irmãos Grimm. Seriam seis príncipes encantados? Bem, nunca o chegarei a saber... a única certeza com que fiquei foi que apreciaram sobremaneira o pão que lhes dei!
Este local foi onde se realizou o primeiro congresso da Europa, no rescaldo da 2ª Guerra Mundial, em Maio de 1948. Terá sido uma espécie de embrião da Europa económica e política, tal como a conhecemos hoje em dia. Ridderzaal significa o "Salão dos Cavaleiros".
À porta do Museu Gevangenpoort, numa pose artística. Pensar que faziam mesmo isto e outras coisas ainda piores que por lá vi, em tempos não tão remotos assim, só mostra até que ponto o racional e o irracional da psique humana convivem lado a lado, cabendo a cada indivíduo (ou sociedade) escolher qual predominará sobre o outro. Traduzido significa o Museu do Portão da Prisão. Localiza-se no edifício que foi, em tempos, um dos portões de entrada do complexo Binnenhof. Foi, durante 400 anos, uma prisão, sendo hoje em dia um museu que possui uma colecção de instrumentos utilizados para tortura.
O Hofvijver. O nome é complicado de pronunciar, mas com esforço consegue-se!! Trata-se de um prazenteiro lago fronteiro aos edifícios parlamentares (que fazem parte do complexo Binnenhof).
Estes mosqueteiros fazem parte de um conjunto de esculturas recentemente colocadas na via pública, em Den Haag, e achei-os particularmente interessantes. Obviamente que eu não sou um dos ditos mosqueteiros, apesar de aparecer entre eles!! Sou apenas um turista acidental numa foto intencional. As esculturas retratam a companhia do Capitão Frans Banning (também conhecido como o vigia nocturno), que é uma das mais célebres pinturas de Rembrandt e que eu teria oportunidade de apreciar no dia seguinte no Rijksmuseum, em Amesterdão. Este conjunto de esculturas ilustra (a três dimensões) Rembrandt (que estava defronte de mim e portanto, não aparece na foto), munido da sua tela e pincel, na altura em que este "fotopintou" a companhia de Banning. À sua esquerda (e, portanto, à minha direita) encontra-se a escultura da rainha, que também não aparece na foto e se encontraria a observar Rembrandt a fazer a pintura que esta lhe encomendara.
Os estábulos reais da monarquia holandesa, em Den Haag. Mesmo nos dias que correm, os coches continuam a ser utilizados em cerimónias protocolares. Não fui autorizado pelos guardas (mas lá que tentei, tentei!) a tirar fotos no seu interior, mas deu para ver que o edifício se encontra adaptado às necessidades actuais da realeza, tanto em termos de conforto como de inovações tecnológicas.
Eu, mais o meu inseparável saco da Quebra-Mar, a alimentar patos num dos canais secundários de Amesterdão. Eram mais de cem à minha volta!! Existiam várias outras espécies, mas os patos depressa as afugentaram. Conforme se pode ver pela foto, este jardim foi o local escolhido para mais uma das minhas lautas (eu diria mesmo, suculentas!) refeições. Ter encontrado o Lidl (passo a publicidade) durante as minhas perambulações nos subúrbios de Amesterdão foi, de facto, um dos momentos altos do dia. Aproveitei para encher o saco, principalmente com produtos alimentares, que no centro da cidade me teriam custado, no mínimo, o dobro do preço.
Aspecto de como Amesterdão terá sido (a fotografia foi tirada no Amsterdams Historisch Museum) na sua época colonial. A parte retratada mostra os estaleiros onde as naus eram produzidas, o arsenal e uma zona comercial junto ao porto. As naus de maior calado não se podiam aproximar demasiado de terra, pelo que permaneciam mais ao largo e somente as embarcações menores podiam circular, quer nos canais, quer junto à costa.
[ I: de viagem para Paris | II: Paris | III: Amesterdão | IV: Haia | V: através da Escandinávia ]

Texto e fotos de Pedro Bicho

InterRail 2005 (III)

Devo dizer que os funcionários franceses não são dos mais simpáticos e esclarecedores. Parecem fazer um frete sempre que utilizam a língua de Shakespeare e nem sempre dão as informações mais correctas. Há que ter igualmente atenção às reservas e suplementos, pois nem sempre são necessários, mesmo que o funcionário afirme o contrário.
Apesar de a distância entre Paris e Amesterdão ser relativamente pequena, a verdade é que demorei imenso tempo a transitar entre os dois países. Passei inclusive algum tempo na gare de Bruxelas (Bélgica), mas, como acabei por nunca sair do seu interior, não há muito que contar.
Quando finalmente cheguei a Amesterdão, era noite escura. Já trazia a vantagem de conhecer a cidade (uma das que visitara no anterior InterRail), mas quando se chega cansado, com a mochila às costas e chove em catadupa, a verdade é que só se traz uma coisa no pensamento: encontrar uma cama no mais curto espaço de tempo possível! Assim voaram 30€ da minha carteira para pernoitar num quarto particular de aspecto duvidoso e não muito bem cuidado. No entanto, o tardio da hora e a época do ano (Agosto) leva a que a maioria dos hostéis esteja normalmente esgotada por esta altura, pelo que as alternativas não são muitas quando não se reserva antecipadamente, como era o caso. No dia seguinte, já com as baterias recarregadas, tratei de procurar novo alojamento, que acabou por ser um hotel à beira de um dos muitos canais. Os 20€ por noite e as melhores condições do dormitório animaram-me um pouco. E assim parti finalmente à (re)descoberta de Amesterdão.
A oferta é muita e variada. Amesterdão é muito conhecida pelas suas visões liberais: pelo seu Red Light District, que atravessei uma e outra vez num misto de curiosidade e estupefacção. Desde as mulheres nas vitrinas a tentar angariar clientes, aos "dealers" que perguntavam uma e outra vez: «You want cocain?», sex-shops porta sim, porta não, em alternância com coffee-shops, até às famílias que tranquilamente faziam o seu passeio nocturno, a cada passo mergulhava num mundo muito igual ao nosso, mas onde as coisas são feitas mais às claras. Não tenho uma posição bem definida sobre este assunto, mas muitas das razões que levaram os holandeses a optarem por este modelo assentam em premissas, a meu ver, correctas. Por ser uma excepção à escala europeia, tornou-se uma atracção turística, que traz o inconveniente de atrair algumas pessoas menos recomendáveis ao país, mas enfim... «if it's good for business, then it's a good business...»
Após passagem pelo posto de turismo, escolhi dois museus para visitar: o Museu de Van Gogh e o Amsterdams Historisch Museum. Gostaria de visitar outros, tais como a casa de Anne Frank, por exemplo, mas os preços praticados na Holanda têm muito pouco a ver com a nossa realidade social. Os mais baratos nunca custam menos de 10€ cada um. O primeiro que mencionei alberga a maior concentração de trabalhos do celebérrimo pintor Van Gogh, se bem que algumas das suas obras mais conceituadas se encontrem nas mãos de coleccionadores particulares. Inclui telas de dimensões variadas (algumas de alguns pintores contemporâneos seus amigos), uma explicação detalhada do que foi a sua vida, modelos que utilizou nas suas pinturas, etc. De qualquer das formas, creio que merece uma visita, em especial para os apreciadores de arte.
Existe também o Museu de Rembrandt, mas quem não dispõe de muito tempo terá de optar por um dos dois.
O outro museu que visitei foi o Museu de História de Amesterdão, pois a História sempre foi uma das minhas paixões. É um museu interessante, descreve a evolução da cidade ao longo dos tempos. Fiquei a saber, por exemplo, que Amstel, para além de ser uma conhecida marca de cerveja, é também o nome do rio que banha Amesterdão e é daí que vem a origem do nome da cidade, é o rio Amstel represado. Contém uma colecção de artefactos de cada uma dessas épocas. A que me chamou mais a atenção foi a da época mercantil da marinha holandesa, que na época rivalizava com a nossa (e suplantava-a). Ainda hoje em dia, continua a ser feita história nas ruas de Amesterdão. Existem canais a serem drenados para serem transformados em ruas e vice-versa, num processo de metamorfose contínuo que tornou Amesterdão numa das cidades do mundo mais interessantes de visitar.


O Red Light District. Constitui um dos principais pólos de atracção de turistas, não necessariamente pelos melhores motivos, mas enfim... Possui inúmeras vitrinas onde as mulheres se colocam a partir do fim da tarde, tentando aliciar clientes, e também sex-shops e coffee-shops em profusão ao longo do canal da foto e dos canais adjacentes. É um local com uma mística própria, especialmente à noite. No entanto, devo referir que não me pareceu ser muito seguro.

Entrada do Museu Van Gogh, um dos principais museus da cidade e que alberga a maior concentração de obras de Van Gogh em todo o mundo. Tem mensagens de boas-vindas em quase todas as línguas à entrada, português incluído... mas, se bem me recordo, a nossa continha um erro grosseiro... Palavra que eu às vezes penso existir mesmo um complot contra a nossa mui nobre, mas tão maltratada língua camoniana. Não é preciso procurar muito para encontrar exemplos palpáveis daquilo que digo.

As bicicletas são uma paixão nacional na Holanda. Este parqueamento para bicicletas à beira de um dos principais canais da cidade atesta bem as minhas palavras. Constituem óptimos meios de transporte, não provocam poluição, aproveitando da melhor forma a planura das terras holandesas, se bem que deva realçar que por lá os direitos dos ciclistas suplantam os dos pedestres por larga margem. Tive mais receio de ser atropelado por bicicletas na Holanda do que por carros... e aquele constante zumbido das campainhas nas minhas costas enervava-me sobremaneira!

Gosto muito desta foto. É a prova em como é o toque do artista e não a qualidade da tela que cria a obra de arte. A partir de uma carcaça automóvel onde foi colocada terra, criou-se um original vaso onde crescem flores e inclusive uma árvore de pequeno porte. Todos sabemos a quantidade de carros abandonados que proliferam nas nossas cidades. Muitos não são recolhidos pelas autoridades competentes, servindo de abrigo a toxicodependentes e tornando as cidades mais feias. Por que não seguir este exemplo vindo da Holanda?

Um dos maiores ex-líbris da Holanda, os famosos moinhos holandeses. Não parece, mas a foto é tirada de um comboio a alta velocidade (durante a viagem para Den Haag). O céu azul é enganador. Foi um dos dias em que apanhei uma das maiores molhas, lá mais para o fim do dia!!!
[ I: de viagem para Paris | II: Paris | III: Amesterdão | IV: Haia | V: através da Escandinávia ]

Texto e fotos de Pedro Bicho

InterRail 2005 (II)

Na segunda noite, lembro-me de ter dormido melhor. Não havia tanta gente na cabine onde estava e isso e o cansaço acumulado cedo me fizeram embarcar no reino dos sonhos, embalado pelo constante trepidar das carruagens.
À chegada a Paris, novamente me apercebi das medidas de segurança reforçadas. Devo dizer que, dos países que percorri, a França foi aquele onde estas se fizeram sentir de forma mais nítida. Para onde quer que olhasse, lá estavam sempre um ou dois polícias com as semi-automáticas a tiracolo... apesar de olharem mais para as pernas das raparigas que passavam, em vez de procurarem possíveis ameaças à segurança, mas isso é um pormenor...
Apesar de esta passagem por Paris ser meramente para mudança de comboio, pois aquele que tencionava apanhar para Amesterdão partia de uma outra gare (Gare du Nord), e só à noite, meti-me no metro e, depois de guardar as mochilas num cacifo (caríssimos, em França!) dessa gare, aproveitei as breves horas de que dispunha percorrendo as margens do Sena. O tempo estava uma lástima, diga-se de passagem. Caía uma chuva miudinha muito incomodativa e o céu encontrava-se encoberto. Acompanhando os bateaux-mouches com o olhar, admirei Notre-Dame à distância, o Musée d'Orsay, o Louvre, a Torre Eiffel... Regressei pela outra margem e fui-me assim aproximando progressivamente da Gare du Nord, abrigando-me aqui e ali da chuva... procurando as imagens que nos ficam na retina para mais tarde recordar. Tanto pode ser um monumento, como uma velha sentada num banco de jardim, um mercado de rua, saltimbancos, aves... parte do encanto de viajar reside nessas imagens sempre diferentes, que nos atraem o olhar e chamam a atenção.


Visão global do percurso que fiz ao longo das margens do Sena

Por esta altura eu ainda desconhecia, mas, salvo raras excepções, acabei por encontrar sempre chuva na maioria das cidades visitadas, mesmo tratando-se de Agosto... ao mesmo tempo, em Portugal, a seca prolongada fazia das suas, enquanto o país, indiferente, como sempre, se apinhava em busca de sol nas praias. Veio-me muitas vezes esta imagem ao pensamento, especialmente depois de levar uma valente molha...
Depois de se fazer de noite, e dispondo ainda de algumas horas, a melhor opção é procurar sempre um centro comercial ou um bar e passar aí o tempo restante até regressar à estação e embarcar para novo destino. Optei pelo segundo e lá tive de abrir os cordões à bolsa, pois o custo de vida em França é muito alto, quando comparado com a nossa realidade.
Não sei por que chamam la ville lumière a Paris. Claro que possui um imenso colorido nocturno, mas, se a comparar com outras cidades à noite, não me parece que exista uma tão grande diferença, até porque a quantidade de luzes se esbate no horizonte e os efeitos são similares a cidades menores. Mas não sei, talvez vendo a aproximação à cidade por avião, durante a noite, ela realmente mereça esse epíteto. Já de volta à gare, descalcei-me, regressei às minhas leituras e aproveitei para descansar um pouco, preparando-me já para a etapa seguinte: Amesterdão.


No interior da Gare du Nord. Destemido, como sempre.
Lá fora, chovia... e eu de t-shirt e calções!


[I: de viagem para Paris | II: Paris | III: Amesterdão | IV: Haia | V: através da Escandinávia ]

Texto e imagens de Pedro Bicho

InterRail 2005 (I)

O Pedro ainda não tomou posse do espaço cibernético que lhe é devido, mas continua a viajar e a ter muito que contar. Nas suas próprias palavras: «Acho que se tenho calhado de nascer na época dos Descobrimentos, eu devia ser daqueles que iam à procura do fim do mundo... e continuavam ao descobrirem que ele não terminava ali».
Acalenta vários projectos para quando concluir o curso: uma viagem coast-to-coast, de carro pelos EUA, com incursões pelo México e pelo Canadá, e ainda umas primeiras experiências profissionais que o levem a países europeus distantes do nosso (por exemplo, Lituânia, Estónia, Letónia, Suécia, Islândia ou Chipre).
De momento, prontificou-se a partilhar as suas memórias do último InterRail que realizou. Segue, então, o primeiro episódio, com os meus agradecimentos ao Pedro.
Parti dia 30 de Julho. Tal como no ano anterior, foi na companhia de um amigo que fui novamente passar o mês de Agosto a desbravar o continente europeu e, tal como nos anos anteriores, o problema foi mesmo sair de Portugal... a linha estava novamente (!) cortada devido a um incêndio e foi com algum alívio que deixei terras lusas... terras de Portugal.
À passagem por Vilar Formoso, já o relógio assinalava as horas bem para lá da meia-noite. A sempre necessária versatilidade de quem se mete nestas andanças cedo teve asas para voar. O comboio estava quase lotado e, se bem recordo, éramos seis na cabine... não dava para dormir deitado. Tirei o meu saco-cama e tomei posse do meio metro quadrado de espaço a que tinha direito. Após meia hora, com o desconforto a aumentar, lá foram as minhas pernas aterrar na cadeira da frente, onde uma rapariga sonolenta descaía intermitentemente, ora para a esquerda, ora para a direita. A noite decorreu assim, neste esticar, encolher de pernas, meio a dormir, meio acordado.
Apesar de ainda se tratar do primeiro dia, foi já com algum cansaço que cheguei a Hendaye. Lembrando-me do ano anterior, recordei que só ao fim de alguns dias o corpo estaria habituado às agruras de chamar casa a um comboio... e de tantas em tantas horas ter de mudar de casa, qual maltrapilho errante... Nem todos aguentam, mas é muito, muito interessante...
Recordo-me perfeitamente de que chovia imenso em Hendaye. Ainda ensaiei uns passos junto à praia mais próxima, mas quando a chuva apertou regressei num ápice, já um pouco encharcado, à estação e foi na companhia do meu fiel amigo de viagem (um livrinho de Edgar Allan Poe, em inglês) que passei, tranquilamente, as horas seguintes. De vez em quando, olhava para a minha máquina digital e para o telemóvel que deixara a carregar numa tomada num canto mais resguardado da estação.
Foi já em França que constatei o medo crescente dos atentados terroristas. Pela primeira vez, encontrei a estação de Hendaye policiada (e logo por polícias com metralhadoras a tiracolo) e assisti à interpelação de várias pessoas de tez mais escura. Um cidadão asiático creio ter sido mesmo detido nessa altura, pois foi com os polícias para uma sala e não mais o tornei a ver, enquanto ainda permaneci na estação.
À tardinha, finalmente, embarquei, rumo a Paris.


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Texto de Pedro Bicho
Horário e mapa do Sud-Expresso de CP

InterRail 2003 / Mediterrâneo (II)

Corfu
Passei quatro dias fantásticos nesta pequena ilha grega. É um local paradisíaco de águas cristalinas e sol radioso, o local ideal para descansar uns dias, que foi o que aconteceu, tendo aproveitado para conhecê-lo melhor. Aluguei um carro (na Grécia nota-se logo que se praticam preços bastante inferiores, na sua maioria, aos praticados em Itália), e sem dúvida que este constitui o melhor meio para visitar a ilha, apesar de as estradas serem estreitas, sinuosas e de fraca qualidade. Esta não possui monumentos dignos de relevo, mas tem muitas praias fantásticas com paisagens de cortar a respiração, desde que se saiba encontrá-las. Gostei muito do artesanato e da gastronomia, sendo que nas localidades do interior, mais afastadas da costa, os preços praticados são bastante inferiores, pelo que devem ser a melhor opção. Nesta ilha voei num barco (depois de pagar 30€, claro!). Era um barco de borracha com uma asa delta acoplada e um motor para impulsão. Foram apenas quinze minutos, mas a paisagem que se tem das alturas (o piloto disse que estivemos a 600 metros de altura, mas ainda hoje eu acho isso muito improvável, apostaria mais nos 300 metros) recompensa largamente o investimento inicial. Não se vê a ilha toda, mas dá para ver o outro extremo da costa, a uns dez quilómetros de distância. Vi também umas danças tradicionais chamadas Sirtaki que me agradaram muito. Adorei a coreografia... feita a um ritmo alucinante!

Palaiostratiska, em Corfu, onde o azul da água se confunde com o azul do céu

Patras
É uma das principais portas de entrada marítimas do continente grego. A arquitectura não é nada de especial, mas enquanto espera pelas ligações por comboio e se se sentir com forças para subir as incontáveis escadarias até ao Castelo (de origem medieval), a visão de lá é deslumbrante. Vê-se o porto, os barcos e uma linha de montanhas ao longe excelente para tirar fotografias. Decidi entrar nalgumas igrejas locais, de estilo Bizantino. Comi um pouco de pão oferecido à entrada e observei como são as suas missas e sermões religiosos. São completamente diferentes dos da Europa Ocidental, mais vivos, têm mais cor e notei também um maior fervor religioso. Aliás, a própria aparência exterior em abóbada e a ornamentação dos templos é muito rica e distingue-se perfeitamente dos nossos templos religiosos.

Atenas
Foi o ponto mais afastado de Portugal em que me encontrei. Eu por mim continuava até à Turquia, que creio ser um local fabuloso com uma cultura completamente distinta da nossa (apesar das notícias nos meios de comunicação, não creio que haja grande perigo em viajar para esta região, desde que se vá acompanhado), mas como os meus companheiros de viagem não tinham mais dias livres, tive de fazer marcha-atrás, para grande pena minha. Atenas tem quatro milhões de habitantes, como se pode constatar através da vista da Acrópole: um imenso manto branco de construções em todas as direcções, vendo-se o mar a este (a uns vinte quilómetros de distância) e o Monte Lycabetus a Oeste. É imprescindível uma visita a este monumento de importância mundial, símbolo da cultura helénica, da qual somos herdeiros. É uma pena esta ter sido bombardeada e quase completamente destruída por uma esquadra turca há cerca de trezentos anos, mas o que restou permite-nos ainda sonhar com esse dias que já fazem parte do passado. A entrada é 12€, mas eu não paguei e inclusive fiz duas visitas, pois na primeira não consegui ver tudo. A estratégia utilizada foi entrar pela saída. Envolve alguns riscos, mas quando um InterRailer vê o dinheiro a voar a cada instante, tem-se outra perspectiva das coisas. Só em água gastei à vontade mais de 50€!! A área envolvente é imensa e possui centenas de pontos de interesse a visitar, apesar de em muitos casos se notar não haver conservação das ruínas que subsistiram até aos dias de hoje. No entanto, devo fazer uma ressalva. Por causa de os Jogos Olímpicos de 2004 serem realizados em Atenas, a cidade é um imenso estaleiro. Inúmeros monumentos e fachadas de edifícios encontram-se cobertos por andaimes e a serem restaurados, estando nalguns casos encerrados e inacessíveis, como foi o caso do Museu Nacional. O melhor meio de transporte é o metro, e, novamente, o meu conselho é o mesmo: se for adepto de correr riscos, poupe nos bilhetes de metro, pois a fiscalização é ainda mais reduzida que em Roma.

No topo da Acrópole, em Atenas. Uma pena existirem andaimes por toda a parte

Impressões da viagem
O balanço global foi muito positivo. Regressei cansadíssimo, mas cheio de boas recordações. Mesmo os momentos menos agradáveis, quando são recordados, são-no sempre com um misto de nostalgia e deslumbramento pela forma como se resolveram (ou não!). E é engraçado que quanto mais afastado de casa estava, mais longe queria ir... e ao mesmo tempo, crescia dentro de mim um sentimento muito português chamado saudade por tudo o que tinha deixado para trás. Talvez por isso, as notícias chegadas de Portugal eram sempre recebidas com alguma emoção e os frequentes encontros com compatriotas nossos em cada cantinho por que passei eram sempre momentos especiais. Não sei se o Portugal de tanga de que alguns falam tanto existe mesmo, ou se não fará parte de um equívoco intencional para ocultar outras coisas, essas bem reais. Mas que havia imensos portugueses a passear pela Europa, isso posso confirmar que havia. Eu gastei, no total, perto de 1200€, mas reconheço que poderia ter poupado bastante dinheiro. O problema é que, infelizmente o "savoir-faire" vem depois e não antes dos acontecimentos. Por esse motivo, é fundamental esboçar um plano de viagem, ver muito bem o que se quer fazer e até onde se pretende ir, levar bebida e alguma comida perecível para os primeiros dias e fazer um orçamento do que se pretende gastar. Deve-se levar roupa leve e prática (mas não muita), umas sandálias de qualidade (para evitar as bolhas que vêm com as constantes deambulações pelas cidades) e deve-se ter sempre um sorriso nos lábios, mesmo ao perdemos uma ligação por comboio... afinal, férias são férias!
A provar que de facto é uma boa alternativa às tradicionais férias algarvias em que uma pessoa passa uma substancial parte do dia estendido ao sol como os lagartos, está a minha pretensão de fazer nova viagem este Verão. Desta feita, pelo norte da Europa. A nível histórico, as cidades do norte têm legados culturais diferentes, talvez menos ricos que as suas congéneres do sul e a cultura europeia no seu conjunto apresenta muitas similitudes, mas se de facto acabar por ir, sei que vão ser de novo momentos inesquecíveis. Lá bem no fundo, viajar de InterRail é uma pequena aventura, feita à escala das nossas modernas sociedades. A diferença é que depois de todas as grandes explorações estarem feitas, a única que resta por fazer é ao interior de nós mesmos. Esse é o melhor "souvenir" que podemos trazer destas viagens pelo estrangeiro...

(1ª parte)

Texto e fotos de Pedro Luís Laima Bicho

InterRail 2003 / Mediterrâneo (I)

Em Agosto de 2003 realizei, juntamente com alguns amigos, uma pequena incursão de 23 dias a alguns países da bacia mediterrânica. As cidades que menciono abaixo foram aquelas que procurei conhecer melhor, umas por serem representativas dos seus países e culturas, e outras por serem locais onde tive de aguardar muito pelas ligações. As cidades que mais me impressionaram mereceram dias adicionais de visita, sendo que as outras foram visitadas somente durante o dia, tendo à noite aproveitado para fazer quilómetros e deslocar-me para nova cidade, dormindo nos comboios. A viagem foi feita essencialmente por comboio, exceptuando as ilhas gregas, onde os navios desempenham um papel fulcral. Aconselho vivamente uma gestão do tempo disponível. O ideal é viajar à noite e visitar as cidades durante o dia. A Espanha e a França, pelas paisagens que oferecem, sem dúvida que merecem um olhar para fora da janela de vez em quando. Espero que gostem das minhas impressões sobre os locais onde estive e que estas vos possam ser úteis, de algum modo.

A praia de Hendaye. Ao fundo, a zona reservada ao naturismo

Irun
Pequena cidade basca oposta a Hendaye, menos interessante que esta, mas possui pequenas tascas onde se podem comer saborosas iguarias regionais.

Hendaye
Porta de entrada em França. Sem monumentos dignos de nota, possui uma praia muito agradável com um extenso areal, virada para o Atlântico. Na parte mais afastada há uma zona reservada ao Naturismo. Quer seja adepto ou simplesmente voyeur, os melhores dias para visita são sem dúvida os do fim-de-semana, como pude constatar na viagem de volta, quando lá regressei.

Nice
Cidade agradável da Côte d’Azur, com amplas zonas verdes para restaurar energias. Não é uma cidade muito afamada pelos seus monumentos. Fiquei bastante desiludido com as praias, repletas de gente... e de pedras! A evitar, para quem tenha problemas de costas. Tem algumas pequenas igrejas junto à praia, as quais aconselho visitar. Pode aí encontrar algo inesperado (pelo menos, no meu caso, foi assim).

Génova
A zona junto ao porto é um local a visitar. Visitei um galeão turco, em exposição (entrada 5€) no porto, que se destacava das demais embarcações em redor. Possui também interessantes fachadas de edifícios e uma zona histórica digna de visita. Recordo-me em particular de uma pintura de S. Jorge a matar um dragão à entrada de uma casa senhorial.

Eu a segurar a Torre de Pisa

Veneza
Cidade não muito grande, mas que merece uma atenção especial pelas suas características únicas. Por 22€ tem-se acesso aos barcos que são o principal modo de deslocação... o outro é andar, pelo que é altamente recomendável memorizar a localização das muitas fontes espalhadas pela cidade. Os preços são exorbitantes (cuidado com os couverts e o serviço de mesa dos restaurantes) e as filas de turistas nos principais monumentos são um local a evitar para quem tem pouco tempo disponível.
Possui inúmeros monumentos e canais, que devem ser visitados sem seguir uma ordem pré-estabelecida. De visita obrigatória são: a Praça de S. Marcos (à noite), a Basílica de S. Marcos, a Torre de S. Marcos (6€, mas a vista panorâmica da cidade compensa o investimento), a ilha de Murano, onde é possível ver o processo de criação dos cristais pelos quais é famosa e que se encontram à venda por toda a parte... Eu gostei particularmente das muitas estátuas de leões e manticoras (o símbolo da cidade). Fez-me particular impressão o facto de na sua maioria os pombos estarem aleijados (por causa dos pregos de protecção existentes na maioria dos monumentos).

Florença
A cidade é constituída por um conjunto de monumentos, formando uma zona histórica muito interessante e repleta de História a cada canto. Deve ser incluída no roteiro da visita uma ida à Ponte Vecchia e às suas ruelas de comércio, ao Palácio Strozzo e à Galleria dell’Academia, onde se encontra a estátua de David... com excepção da Ponte, tudo pago a peso de ouro, claro... Foi das poucas cidades onde encontrei um mapa da cidade em português.

Pisa
O ex-libris de Pisa é a famosa Torre de Pisa, conhecida mundialmente pela sua curvatura inclinada. A subida foi 15€ e a paisagem do topo é fantástica. No entanto, se o dinheiro escassear, creio que a vista exterior é suficiente e proporciona excelentes fotos (uma a empurrar a Torre de Pisa é muito popular). A área envolvente contém igualmente outros monumentos muito interessantes... novamente entradas pagas, pelo que convém seleccionar os preferidos. A melhor área para fotografar é, sem dúvida, o relvado. Quem optar por esta via, fica desde já avisado... deve ser célere a tirar as fotos, pois os guardas da zona histórica não apreciam muito o constante pisar da relva...

Em Roma, junto ao Fórum. No total, regressei com umas 20 fotos em cima de leões, todas diferentes

Roma
Esta cidade merece alguns dias de visita. Apesar de a entrada dos principais monumentos ser paga (uma constante, em Itália), recomendo, ainda assim, uma visita ao Fórum Palatino (ou ao Fórum Romano, vá aos dois só se tiver muito tempo livre) e ao Coliseu. A Praça Vítor Emanuel é imponente e digna de ser apreciada, sendo igualmente obrigatória uma ida até à Fonte de Trevi deitar a tradicional moedinha e formular um desejo... eu desejei ficar com as moedas todas que estavam lá dentro da Fonte... eram milhares delas! Uma ida ao Vaticano também é aconselhável pelo carácter histórico da Praça de S. Pedro, de onde o Papa João Paulo II faz os seus discursos e prédicas. Recomendo igualmente a Capela Sistina (10€ de entrada no Museu do Vaticano) e a Basílica de S. Pedro. Um aviso, no entanto... aqui, a entrada em calções não é permitida. Quanto às deslocações pela cidade, o metro é a melhor opção. Se for do género aventureiro, experimente não pagar bilhete... a fiscalização é muito reduzida.

Milão
Cidade industrial do norte, é a capital económica da Itália. Tem, por isso, outros motivos de interesse sem ser a visita da sua zona histórica, que apresenta igualmente alguns monumentos interessantes de visitar. Não visitei grande coisa da cidade, mas como dormi no chão da estação dos comboios de Milão (num saco-cama), posso tecer um breve comentário sobre essa experiência fascinante! Há uma esquadra no interior da estação, havendo permanentemente polícias de plantão. As pessoas dormem pouco afastadas umas das outras, por motivos de segurança. Reparei que a delinquência e os assaltos são um problema. A minha primeira visão ao acordar foram uns polícias e cinco indivíduos algemados a passarem-me ao lado... quanto ao chão da estação é de boa qualidade, quando se está cansado, dorme-se nos lugares mais improváveis!

Brindisi
Nesta pequena cidade portuária fiz a ligação com Corfu, através de barco. Os barcos são muito bons e rápidos, mas quem possui bilhete InterRail deve estar especialmente alerta. À saída da estação pode-se comprar, a 100 metros, os bilhetes de embarque, mas estes são um embuste. Custam 57€ e apenas 500 metros à frente, numa companhia que se chama Blue Star Ferries (e que tem contrato com o InterRail), estes custam somente 5€!!! Devo dizer que eu apercebi-me logo do logro pelo discurso deles, mas como me tinha desencontrado de alguns dos meus companheiros de viagem em Roma e tinha acabado de os reencontrar, acabei por decidir comprar o bilhete mais caro (mas muito me custou... e não foi só na carteira!), pois eles tinham-se deixado levar pela conversa do vendedor, tal como a maioria dos InterRailers, segundo me pude aperceber.

Praça de S. Pedro, no Vaticano

(Continuação)

Texto e fotos de Pedro Luís Laima Bicho