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Caminho de Outono


Belfast (Irlanda do Norte, Reino Unido), Dezembro de 2005

The signs


Belfast (Irlanda do Norte, Reino Unido), Dezembro de 2005

Lembro-me que Belfast foi o primeiro sítio em que pensei fazer uma recolha sistemática de placas de sinalização pública. Creio que me ocorreu porque comecei a tropeçar em sinais estranhos, em grande quantidade. É verdade que já tinha visto, em Tóquio, sinais que proibiam fumar em certas ruas, o que me tinha parecido absurdo (estávamos em 2004), mas, na Irlanda do Norte, afigurava-se-me que, no afã de prevenirem qualquer desacato, as autoridades se excediam no zelo. E as multas eram bem altas: 50 libras por lixo no chão, de 100 a 500 por beber álcool.







Este veio juntar-se à minha extensa colecção de sinais de casa de banho, em particular, por ser bilingue:



Este, trouxe-o de Cushendall, do tal pub:


Cushendall (Condado de Antrim, Irlanda do Norte, Reino Unido), Dezembro de 2005

The pubs


Belfast (Irlanda do Norte, Reino Unido), Dezembro de 2005

São uma instituição, claro. O The Crown é o mais conhecido, e por isso o mais concorrido, pelo que só lá conseguimos ficar uma das duas vezes que tentámos entrar. A Ana já o tinha mostrado por fora, aqui:



A decoração é belíssima e o ambiente é acolhedor, pelo menos quando não está a abarrotar de gente, como no dia do funeral de George Best, em que toda a cidade lá caiu para dar de beber à dor, enquanto o cortejo desfilava na televisão.









Guinness, Harp & pie foram a nossa companhia no local, enquanto eu aproveitava para bater umas chapas.





A minha primeira e muito aguardada Guinness em terras da Irlanda pedi-a logo na primeira noite, no bar do hotel, onde nos sentámos a conversar com as nossas colegas de Belfast, que tinham vindo ver se estávamos bem instalados. Gostaram de me conhecer, que já tinham ouvido falar muito de mim, pelos alunos Erasmus. Foi então que uma delas disparou: "Lembras-te da Olive M.?".
Claro que me lembrava da Olive, uma ruiva baixinha, de olhos verdes muito vivos, muito simpática e educada, a melhor estudante de Português que me chegou da Irlanda: interessada, trabalhadora, com jeito para línguas estrangeiras. Ainda trocámos correspondência, depois de ela ter voltado para Belfast, até que fomos perdendo o contacto. E ali estava eu, a relembrar a Olive e a querer saber notícias dela, quando a minha colega, com o mesmo ar vivo e bonacheirão me respondeu: "Morreu na semana passada, num acidente de automóvel horrível, saiu em todos os jornais!". Fiquei a saber a história toda, enquanto tentava não me engasgar com a Guinness: a Olive acabara a sua formação como professora, em Belfast, fora trabalhar um ano, para Londres, mas as saudades da família trouxeram-na de novo a casa. Tinha chegado há uns dias, quando um condutor alcoolizado provocou o aparatoso e muito comentado acidente.
A minha colega, antiga professora dela, narrava o sucedido com imensa vivacidade, enquanto eu esperava aquele momento, tipicamente português, em que ela exprimiria a sua dor e poderíamos lamentar a crueldade da vida. Mas esse momento nunca chegou, daquela história partiu para outra, e mais outra, e a Olive ficou esquecida. Eu andei vários dias com um nó no estômago, senti que nunca iria compreender os irlandeses e nunca mais gostei de Guinness.

#TBT: Cushendall, 2005


Cushendall (Condado de Antrim, Irlanda do Norte, Reino Unido), Dezembro de 2005

Em qualquer conferência, congresso, encontro ou reunião de âmbito internacional, é hábito mostrar, aos participantes que vêm de fora, as belezas locais. É um dos privilégios da vida académica.





Em Belfast, não estivemos sequer três dias completos, e o trabalho era muito, mas, na véspera da partida, tirámos uma parte da tarde para passear pela costa. A ideia era chegarmos até à Calçada dos Gigantes, mas, como os dias, em Dezembro, são demasiado curtos, começou a escurecer na zona de Cushendall, e ficámos por ali. Perdi um cromo para a colecção, mas vivi a experiência de um verdadeiro pub de aldeia, com cozinha nos fundos, fogão a lenha e dona atarefada, com a festa que estavam a preparar para a noite. Passou o tempo a reclamar com o marido, que assoberbava com tarefas, às quais ele se esquivava como podia. Às tantas, virou-se ela para nós e refilou, com ar bonacheirão e uma pronúncia irlandesa muito marcada: "I married the wrong man!".



O pub era o Johnny Joes (McCollums), mais bem comentado aqui. Ainda me arrisquei a sair para o frio, para ver o que conseguia enxergar no escuro, mas não passei da igreja irlandesa (Cushendall Church of Ireland) que ficava mais abaixo.









Aqui, a tal vista para a Escócia:

The wall


Belfast (Irlanda do Norte, Reino Unido), Dezembro de 2005

As nossas colegas não nos levaram a ver os murais políticos, mas não puderam impedir-nos de ver o muro. O Muro de Belfast, eufemisticamente chamado Linhas de Paz, constituiu, em toda a sua extensa fealdade, um murro no estômago de quem acreditava que, após a queda do Muro de Berlim, estes vestígios bélicos não tinham lugar na Europa da prosperidade e da mobilidade. A minha colega psicóloga ainda tentou argumentar que as barreiras psicológicas são mais graves, mas as palavras dela pareceram-me muito insignificantes, face àquela extensão absurda de betão e lata, portões e arame farpado. Não há argumentos que resistam ao carácter físico de um muro que exibe a sua força.
As barreiras psicológicas também lá estavam, claro, encarnadas nas casas de costas voltadas: católicos e protestantes não se queriam nem ver, transitavam em ruas diferentes e preferiam a vista do muro, nas janelas das traseiras.
Disseram-nos que era melhor assim, para conter ânimos mais exaltados, sobretudo em dias de festa e de muita bebida, quando os portões tinham de ser fechados, antes que descambasse tudo num morticínio.
Eles lá saberão, quem sou eu para ajuizar, mas a verdade é que perdi, nesse dia, grande parte da ingenuidade que ainda tinha sobre o projecto europeu.















#TBT: Belfast, 2005


Belfast (Irlanda do Norte, Reino Unido), Dezembro de 2005

A primeira vez que Belfast passou por aqui, foi pela mão dos meus alunos Ana e Pedro, que ali viveram alguns meses, como estudantes Erasmus, no início de 2005. Poucos anos antes, uma grande amiga tinha-me relatado a sua experiência pessoal, de uma visita à cidade, na década de 1990, que lhe tinha deixado, sobretudo, um grande incómodo, pelas medidas de segurança, que, à época, nos pareciam tão estrangeiras à Europa da paz e da prosperidade: em particular, as forças de segurança que patrulhavam as ruas de metralhadoras em riste e um clima de sobressalto constante.


Albert Clock

Pelos meus alunos irlandeses, que iam chegando todos os anos, ao abrigo do protocolo com a Queen's University (Belfast), tentava saber notícias da cidade e obter a confirmação da má impressão que tinha dela. No entanto, aqueles jovens, tão cheios de vida, só lamentavam o clima chuvoso, porque, de resto, transmitiam-me a imagem de uma cidade animada, cheia de bares e festas. Sim, havia alguma insegurança, mas tinham aprendido a viver com ela e a tirar o melhor partido daquilo que a vida tinha para lhes oferecer. Eram católicos, todos os meus alunos irlandeses, tanto os que chegavam de Belfast como os que vinham de Limerick (República da Irlanda), davam-se todos bem e evitavam falar de antagonismos de base religiosa, como se nem sequer existissem.


Grand Opera House

Foi pela Ana e pelo Pedro que comecei a ver a cidade com outros olhos: os monumentos, os pubs, a Universidade, as tradições, a política, os murais políticos, e outros pólos de atracção turística, como Armagh e Dublin.




City Hall

Em Dezembro de 2005, no âmbito do tal projecto inter-institucional, fui com os meus colegas a Belfast, onde pude rever por mim mesma as imagens que me tinham sido enviadas. A chuva foi uma constante, assim como o frio e os tons cinzentos, que a cidade tentava contrariar com pinturas de cores garridas.




St Mary's University College

As nossas colegas locais, duas senhoras de meia-idade, levaram-nos, nos intervalos das sessões de trabalho, a passear por Belfast, enquanto nos narravam as suas próprias vivências da cidade: o porto e os estaleiros, onde foi construído e de onde zarpou o Titanic; as casas dos bairros operários, minúsculas, nas quais não cabiam mais de duas camas e onde chegavam a viver famílias de 12 pessoas (os que não cabiam nas camas, dormiam sentados em cadeiras); o sotaque tão típico e que tantos dissabores lhes tinha causado, quando foram estudar para Inglaterra.






O porto, como era antes da renovação, com as famosas gruas Sansão e Golias

Por alguma razão que não nos quiseram contar (e que não insistimos em querer saber), evitaram mostrar-nos os murais políticos. Levaram-nos, sim, a ver as ruas comerciais e algumas atracções turísticas: City Hall, Albert Clock, Belfast Castle.


Belfast Castle

No castelo, fizemos o nosso jantar do encontro, que foi simultaneamente um jantar de Natal, com coroa, cracker, e tudo aquilo a que tínhamos direito, como carne assada, gravy, cranberry sauce, pudding e o resto, regado com um tinto chileno. Acabou tudo em alegre animação, connosco a sermos chamados para o bailarico que saltou dos jantares das mesas e salas adjacentes, cheias de irlandesas super-produzidas, mas já muito bêbedas (elas e eles), a atirarem com as sandálias de saltos altíssimos para poderem dançar melhor.



Mae dau teithiau trwy Ganolbarth Cymru


Pontarfynach (Ceredigion, País de Gales, Reino Unido), Agosto de 2004

Gosto muito de línguas, fascinam-me as que não domino, e adoro brincar com o tradutor Google. Se desta vez não me enganou muito, o título acima quer dizer algo como "Dois passeios (ou viagens) pelo País de Gales Central". É só mais uma oportunidade para brincar e para recordar as duas excursões que fiz, a partir de Aberystwyth, integradas no programa social do congresso.
A primeira, mais curta, foi a Devil's Bridge (Pontarfynach), uma pequena localidade conhecida por uma ponte tripla, verdadeira obra do demo, e pelas belas quedas de água do rio Mynach. É há muito uma atracção turística, pelo que foi inaugurada, em 1902, uma linha de caminho-de-ferro a ligá-la a Aberystwyth (Vale of Rheidol Railway), que foi o meio de transporte que usámos.





Por alguma razão que já não recordo, não fiquei com nenhuma imagem decente da Ponte do Diabo, pelo que as imagens que aqui uso, para combater o esquecimento, foram retiradas daqui e daqui. São, na verdade, três pontes sobrepostas, construídas, respectivamente, em 1075-1200, em 1753 e em 1902.





A segunda excursão, mais longa, exigiu transporte de autocarro, até Elan Valley, para visitar as represas e, com sorte, avistar algum milhafre real (se bem me lembro, conseguimos ver um, a planar lá no alto). É uma zona muito bonita e, apesar do tempo cinzento, valeu a visita.








O Centro de Visitantes de Elan Valley, visto de Caban Coch (Powys, País de Gales,
Reino Unido), Agosto de 2004