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Przez pola Polski


















Polónia, Setembro de 2006

Chegámos a Łódź de comboio, creio que no intercidades que saiu de Varsóvia a meio da tarde. Pelo caminho, atravessámos parte das províncias ou voivodias da Mazóvia (województwo mazowieckie) e de Łódź (województwo łódzkie), passando pelo Parque Paisagístico de Bolimów (Bolimowski Park Krajobrazowy) -- uma área protegida, estabelecida em 1986, que ocupa 231,3 km2 e contém cinco reservas naturais -- e por muitas propriedades agrícolas.

Getto (2)






Łódź (Polónia), Setembro de 2006

Em 1939, os habitantes judeus em Łódź ultrapassavam 231.000. No início da Segunda Guerra Mundial, vários milhares fugiram para o Leste, muitos deles para a União Soviética; foram poucos os que conseguiram escapar para a Europa Ocidental e, daí, para fora do continente.
A ocupação da cidade pelas forças alemãs teve início no dia 9 de Setembro de 1939, após a capitulação da resistência local. A 9 de Novembro, Łódź foi incorporada numa nova subdivisão administrativa da Alemanha nazi, a Reichsgau Wartheland, e, a 11 de Abril de 1940, a cidade foi renomeada Litzmannstadt, em homenagem a Karl Litzmann, general alemão e membro do partido nazi, notabilizado pela vitória na Batalha de Łódź de 1914 e falecido em 1936.
Imediatamente após a ocupação, começaram a ser implementadas medidas repressivas contra a população: a afixação de editais com proibições e imposições sucedia-se a ritmo diário, os ocupantes prenderam representantes da intelectualidade e do clero, proibiram a imprensa de língua polaca, encerraram igrejas e escolas católicas, destruíram o monumento de homenagem a Tadeusz Kościuszko, incendiaram as sinagogas e atacaram duramente a comunidade judaica. Os judeus viram-se, sucessivamente, proibidos de exercer actividade comercial, de passear na Rua Piotrkowska (renomeada como Adolf-Hitler-Strasse) e nos parques municipais e de utilizar transportes públicos, assim como foram obrigados a andar na estrada, para cederem o passeio aos alemães, a usar braçadeiras identificativas e, mais tarde, a Estrela de David. Além disso, foram sujeitos a trabalhos forçados, espancamentos e humilhações várias.


Imagem daqui


Imagem daqui


Mapa daqui

As medidas de segregação culminaram com a separação física da população: em Fevereiro de 1940, foi decidido reservar a zona mais pobre da cidade para alojar toda a comunidade judaica, que foi forçada a mudar-se para aí, após a expulsão dos moradores polacos e alemães. Essa zona, que compreendia a jurisdição de Bałuty e a Cidade Velha, assim como o Cemitério Judaico, foi vedada e isolada do resto da cidade. Quando os portões foram fechados, a 30 de Abril de 1940, viviam, no Ghetto Litzmannstadt, 163.777 pessoas, numa área de 4,13 km2.
Inicialmente, os judeus sentiram-se aliviados, com esperança de que o confinamento lhes proporcionasse protecção contra os frequentes roubos e ataques de que eram vítimas. Além do mais, a liderança de Chaim Mordechaj Rumkowski, chefe do Conselho de Anciãos, o corpo de polícia judaico e até a circulação de moeda própria transmitiam uma sensação de normalidade, apesar das condições de vida que depressa começaram a degradar-se, atingindo níveis desumanos.







O gueto de Łódź tornou-se um enorme campo de trabalho, com cerca de 95% da população adulta (e até crianças pequenas) empregada em 117 oficinas, produzindo fardas, vestuário, estruturas de madeira e metal e equipamentos eléctricos para o exército alemão. A elevada produtividade, que enchia os bolsos da administração alemã, foi a causa da longevidade do gueto, que se manteve em funcionamento até ao Verão de 1944.
Pelo segundo maior gueto nazi, passaram mais de 200.000 pessoas, contingente que incorporou os habitantes judeus das cidades e aldeias vizinhas, assim como cerca de 20.000 judeus da Áustria, Checoslováquia, Luxemburgo e Alemanha, trazidos no final de 1941, juntamente com mais de 5.000 ciganos da região de fronteira austro-húngara. Aproximadamente, 45.000 habitantes do gueto de Łódź morreram de fome, frio e emaciação e cerca de 145.000 foram assassinados nos campos de extermínio. Estima-se que apenas 5.000 a 12.000 judeus de Łódź tenham sobrevivido à guerra, mas os números exactos são desconhecidos.




Actualmente, estes edifícios estão assim

Após o final da guerra, Łódź desempenhou as funções de cidade capital, enquanto Varsóvia era reconstruída. Quando chegou a sua vez de receber cuidados, os projectos de planeamento urbano privilegiaram a construção de zonas residenciais periféricas, de inspiração soviética, para onde foi realojada a população da Cidade Velha, que ficou abandonada e parada no tempo. Consequentemente, o centro da cidade e as áreas históricas perderam importância e degradaram-se.
Em 2006, quando lá estive, era ainda visível o mau estado dos prédios de habitação mais antigos, alguns dos quais tinham pertencido ao gueto. Nos últimos anos, as autoridades locais desenvolveram um projecto de reabilitação do centro da cidade, no âmbito do qual muitos edifícios antigos foram renovados. O melhor exemplo de reabilitação urbana em Łódź é o complexo da Manufaktura.



Nowy cmentarz żydowski w Łodzi


Łódź (Polónia), Setembro de 2006

O Novo Cemitério Judaico de Łódź foi inaugurado em 1892 e chegou a ser o maior cemitério judaico da Polónia e um dos maiores do mundo. Ocupa 44 hectares, nos quais se encontram entre 180.000 e 230.000 sepulturas identificadas, assim como valas comuns com inúmeras vítimas do gueto e do Holocausto.
Foi a nossa segunda paragem, no percurso de Turismo Tétrico, logo a seguir à Estação de Radegast.





Acima, imagens do portão do cemitério e da entrada da casa mortuária (Beit Tahara). Abaixo, mosaico no tecto abobadado do Mausoléu de Izrael Poznański, o magnata e grande industrial têxtil que, após desenvolver a indústria e a cidade, se dedicou, no final da vida, à filantropia e ao projecto daquele que é considerado o maior túmulo judaico do mundo, onde está sepultado, ao lado da esposa.



Abaixo, sepulturas modernas, com as tradicionais pedras, ali deixadas em sinal de homenagem ou recordação.





Para trás, ruas e alamedas onde se alinham milhares de sepulturas, mais ou menos conservadas, com lápides (matzeva ou matsevá) mais ou menos decoradas.























Manufaktura


Łódź (Polónia), Setembro de 2006

O complexo fabril de Izrael Poznański foi construído entre 1872 e 1892, segundo projecto do arquitecto Hilary Majewski. Era um gigante da indústria têxtil que prestava serviço completo de processamento de algodão; ocupava quase 30 hectares e incluía: uma tecelagem, uma fiação, uma fábrica de branqueamento e acabamento, uma tinturaria, uma fábrica de impressão de tecidos e acabamento, um departamento de reparação e construção de máquinas, uma serralharia, uma fundição e um centro de operação de locomotivas a vapor, uma fábrica de gás, um quartel de bombeiros, armazéns, um desvio ferroviário e uma casa de câmbio, além do palácio do proprietário e habitações para trabalhadores.


Fotografia de Bronisław Wilkoszewski, cerca de 1895 (daqui)

O edifício principal do complexo era uma fiação de algodão de cinco andares feita de tijolos vermelhos sem reboco, ao longo da Rua Ogrodowa, construído em 1877-1878 e transformado em hotel em 2009.









A Sociedade Anónima de Produtos de Algodão Poznański em Łódź (Towarzystwo Akcyjne Wyrobów Bawełnianych I. K. Poznańskiego w Łodzi) começou por ser uma pequena empresa familiar que Izrael Poznański foi ampliando até se tornar um dos motores da cidade: em 1865, empregava 70 operários; em 1879, 426; em 1906, dava trabalho a cerca de 6.800 pessoas.
Originário de uma família desafogada de comerciantes judeus, o magnata (conhecido na cidade como um dos Reis do Algodão) gabava-se de ter começado do zero: em adolescente, recolhia sucata numa carroça miserável puxada por um cavalo velho (mais tarde, para exagerar a amplitude do seu currículo, alegava que nem cavalo tinha, que eram cães que atrelava ao carrinho). No auge da carreira, mandou construir, para si e para a sua família, um palácio e, mais tarde, o maior mausoléu judaico do mundo, onde está sepultado, ao lado da esposa.





O Palácio de Izrael Poznański, construído em 1877, também segundo projecto de Hilary Majewski, em estilo neo-renascentista francês, é conhecido como o "Louvre de Łódź". Desde 1975, alberga o Museu da Cidade; em 2015, foi incluído na Lista de Monumentos Históricos da Polónia.
Após o fim da era industrial, o complexo fabril foi adquirido por empresas estrangeiras e transformado num grande centro de comércio, artes e lazer, com 300 lojas, restaurantes, museus, discotecas, equipamentos desportivos e lúdicos (bowling, paintball, escalada, bilhar), escola de dança, cinema e um hotel. A Manufaktura foi inaugurada a 17 de Maio de 2006, pelo que, em Setembro, era ainda uma grande novidade.