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Papa-unescos (XXVIII)


Barcelona (Catalunha, Espanha), Junho de 2026

(56) Obras de Antoni Gaudí (Espanha)

Foi um saltinho a Barcelona, para mais trabalho do que passeio. A Sagrada Família, só a vi ao longe, e o mais que consegui foi um cheirinho da Casa Milà e da Casa Batlló. Terei de voltar, lá terá de ser.



Memória futura (32)


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

A Cidade Baixa tem também grande quantidade de monumentos, que homenageiam tanto figuras histórico-políticas como a cultura popular.
Em frente ao Mercado Modelo, aos pés do Elevador Lacerda, fica o imponente conjunto monumental em homenagem ao Visconde de Cairu. José da Silva Lisboa (1756-1835), primeiro Barão e Visconde de Cairu, foi um importante economista, parlamentar, orador e político brasileiro, nascido em Salvador. A escultura, inaugurada em 2 de Julho de 1923, é da autoria de Pasquale de Chirico, que realizou diversos monumentos públicos na cidade.





Próximo deste, encontra-se o Monumento à Cidade do Salvador, também conhecido como Fonte da Rampa do Mercado. Informação no local esclarece: "Fonte da Rampa do Mercado. Obra de autoria do escultor Mário Cravo Jr., a fonte luminosa é composta de escultura em fibra de vidro com estrutura metálica interna. É também chamada de Monumento ao Povo da Bahia. Desde que começou a ser montada, no local onde ficava o primitivo Mercado Modelo, destruído por um incêndio, causou curiosidade devido às suas formas arredondadas. Foi inaugurada em [13 de Janeiro de] 1970". Em 21 de Dezembro de 2019, o monumento foi consumido por um incêndio, restando apenas a estrutura de metal que o sustentava. A obra foi, posteriormente, recuperada, devolvida à sua forma original e reinaugurada em 11 de Janeiro de 2023. Placa no local refere que a forma da escultura remete para as velas dos barcos saveiros que atracavam na rampa do mercado. Pessoalmente, à primeira vista, vi nela um biquíni.





Atrás do Mercado Modelo, encontra-se o busto em bronze de Arnaldo Pimenta da Cunha (1881-1956), engenheiro, político e professor universitário, primeiro prefeito de Salvador nomeado em carácter efectivo no primeiro Governo Vargas, entre 1931 e 1932. A obra é da autoria de Ismael de Barros, discípulo de Chirico, e foi inaugurada em 1957. O pedestal foi, entretanto, substituído.





De onde se encontra, o busto parece observar atentamente o imponente conjunto escultórico designado Arena da Capoeira. Projectada pelo arquitecto e urbanista André Moreno, "a estrutura é composta por quatro arcos de 12 metros de altura, que simbolizam os berimbaus, o instrumento musical fundamental da capoeira, unindo-se no topo para formar a cabaça. Entre esses arcos, dez esculturas em bronze, sobre pedestais de concreto, retratam mestres capoeiristas tocando seus instrumentos, em uma homenagem viva aos grandes nomes que moldaram essa arte". No centro, dois mestre jogam capoeira, rodeados por outros oito, sobre pedestais onde se conta as suas histórias. Os homenageados (os mestres capoeiristas Pastinha, Bimba, Besouro, Noronha, Waldemar, Canjiquinha, Gato Preto, Caiçara, Aberrê e Totonho) foram escolhidos por votação online. A obra foi inaugurada em 4 de Julho de 2024.











Mais à frente, na Avenida Contorno, a Estátua dos Irmãos Pereira, também da autoria de Pasquale de Chirico, datada de 1954. O monumento é composto por três estátuas em bronze sobre pedestal tríplice em betão revestido com placas de granito rosado. No pedestal, encontram-se inscrições alusivas aos homenageados e o símbolo da República, também em bronze. Os três irmãos soteropolitanos, Manuel Vitorino Pereira (1853-1902, médico, professor catedrático e político, foi presidente do estado da Bahia, senador federal, vice-presidente e presidente interino do Brasil), José Basílio Pereira (1850-1930, padre católico, escritor, tradutor e teólogo) e António Pacífico Pereira (1846-1922, médico, professor catedrático e escritor, foi director da Faculdade de Medicina da Bahia e um dos fundadores da Academia de Letras da Bahia), foram figuras de relevo na história baiana.

Memória futura (31)


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

Mais à frente, quase a chegar à Catedral, encontra-se o Monumento Zumbi dos Palmares, com escultura de bronze, da autoria da artista Márcia Magno, sobre o pedestal que antes sustentara a estátua de Tomé de Sousa, depois transladada para a Praça Municipal.



Zumbi foi um homem negro nascido livre no Quilombo dos Palmares, em 1655. Localizado na Serra da Barriga, na então capitania de Pernambuco (actual Estado de Alagoas), o Quilombo dos Palmares foi uma comunidade fundada por africanos e seus descendentes, fugidos da escravidão, que aí se refugiaram, a partir de 1580. Foi o maior quilombo da história do Brasil, tendo atingido o seu auge em 1690, quando a sua população contou com cerca de 30 mil habitantes, maioritariamente africanos fugitivos, mas também indígenas, caboclos e colonos portugueses marginalizados, como soldados que desertavam do serviço militar obrigatório.
A biografia de Zumbi é incerta e rodeada de mitos. Sabe-se muito pouco sobre ele, e mesmo o nome é controverso: existe a hipótese de que Zumbi não fosse o seu nome próprio, mas sim um título ou mesmo um epíteto (do quimbundo nzúmbi, «espectro; fantasma»). Uma versão, muito disputada, sustenta que, com cerca de 6 anos de idade, o menino teria sido capturado e confiado a um missionário, que o baptizou com o nome de Francisco, após o que recebeu os sacramentos, aprendeu português e latim e ajudava diariamente na celebração da missa, até fugir de volta para o quilombo, com 15 anos. Aos 20, tinha-se já notabilizado como um feroz e corajoso guerreiro, nas batalhas contra os portugueses, que tentavam destruir o quilombo. Por discordar de qualquer cedência aos colonizadores, antagonizou-se com o então rei do quilombo, Ganga Zumba, supostamente seu tio, o qual, por sua vez, reclamava uma suposta ascendência nobre no Reino do Congo. Zumbi afastou o líder, que veio a morrer em circunstâncias misteriosas, e assumiu o comando do quilombo e da resistência contra os portugueses. O ataque final contra Palmares ocorreu em Janeiro de 1694, quando foi tomada a Cerca Real (ou Mocambo) do Macaco, o principal núcleo de povoamento do quilombo. Ferido, Zumbi conseguiu fugir e viveu escondido no mato durante um ano e meio, atacando aldeias portuguesas, até que foi denunciado (supostamente, sob tortura) por um companheiro, emboscado, capturado e morto pelo capitão sertanista André Furtado de Mendonça e seus homens, a 20 de Novembro de 1695. A sua cabeça foi cortada, salgada e levada ao governador da Capitania de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro, que a mandou expor em praça pública, para servir de exemplo a outros escravos. E aí ficou, no Pátio do Carmo, em Recife, no alto de um mastro, até completa decomposição, como prova da mortalidade de Zumbi.





Na sequência de uma ideia surgida na década de 1970, no âmbito dos movimentos sociais contra o racismo, o dia 20 de Novembro, data da sua morte, foi adoptado como o Dia da Consciência Negra, em 1995; em 2003, foi incluído no calendário nacional escolar; em 2011, foi instituído oficialmente como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra; e em 2024 passou a ser feriado nacional.
As placas afixadas no pedestal do monumento exaltam a liderança de Zumbi contra a injustiça racial e em prol da liberdade para todos, naquela que é designada a "primeira experiência democrática" do Brasil. No entanto, discute-se hoje que essa é uma versão romantizada da história: no Quilombo de Palmares, eram mantidas, de forma conservadora, as práticas culturais e sociais africanas das regiões de origem dos seus habitantes; o sistema político vigente era a monarquia, assente na estratificação social, com elites políticas e militares, no topo da hierarquia, e escravos, no fundo; era prática comum a diferenciação entre os escravos fugitivos, que chegavam aos quilombos pelos seus próprios meios, e aqueles que eram trazidos por incursões de resgate dos quilombolas, que iam às fazendas e vilas para "libertar" escravos (frequentemente, os que se recusavam a ir eram capturados, levados à força e convertidos em cativos, para trabalharem nas plantações dos quilombos); quem tentasse sair do quilombo ou comunicasse com pessoas consideradas inimigas era perseguido e executado. Enfim, não seria o sistema ideal, mas era o melhor que muitos conseguiam e a que almejavam, o que tornou Zumbi dos Palmares um símbolo de resistência.

Memória futura (30)


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

Saímos da Praça Municipal, em direcção ao Terreiro de Jesus, atravessando a Praça da Sé. Depois da Igreja da Misericórdia, um miradouro e um monumento moderno (que não fotografei), a Cruz Caída (1999), que assinala a demolição da antiga catedral. É da autoria de Mário Cravo, artista que, como o mundo é pequeno, foi aluno, em Nova Iorque, do mestre croata Ivan Meštrović, de quem já aqui falei.
Mais adiante, em frente ao Palácio Arquiepiscopal, o Monumento ao Bispo Sardinha (1944), com busto em bronze de Pasquale de Chirico e, no pedestal, uma placa com a reprodução em relevo de uma fotografia da antiga Sé.





D. Pedro (ou Pero) Fernandes Sardinha foi uma figura histórica bastante controversa. Nascido em Setúbal ou Évora, em 1496 ou 1497, fez os seus estudos na Universidade de Paris, onde teria sido colega de Inácio de Loiola. Diplomou-se em Teologia (ca. 1528) e terá ensinado nas Universidades de Coimbra e de Salamanca. Em 1529, foi nomeado capelão da Igreja de São Sebastião, na Ilha da Madeira; mais tarde, capelão em Lisboa e, finalmente, pregador real no Porto. Em 1545, foi enviado a Goa como deão da catedral, na época de D. João de Castro, Governador e Vice-Rei da Índia. Em pouco tempo, tornou-se vigário-geral da diocese, notabilizando-se pelo seu interesse pela colónia, mas especialmente pelo seu rigoroso controle sobre o clero e pela sua boa relação com os jesuítas. Com a morte do Governador, em 1548, voltou a Portugal, onde retomou os seus estudos de Direito Canónico na Universidade de Coimbra.
Entretanto, o Brasil esteve sob a jurisdição religiosa da Ordem de Cristo, até 1514, e sob a alçada do Bispo do Funchal, até 1551, após o que se tornou sufragâneo da Arquidiocese de Lisboa. No dia 25 de Fevereiro de 1551, foi criada a Diocese de São Salvador da Bahia, pela bula Super specula militantis Ecclesiae, do Papa Júlio III, que designava como primeiro bispo Pedro Fernandes Sardinha, com jurisdição efectiva sobre toda a colónia. Ordenado pelo Arcebispo de Lisboa, D. Fernando de Menezes Coutinho e Vasconcelos, em 7 de Fevereiro de 1552, partiu em Março para o Brasil, tomando posse, na cidade do Salvador, no dia 22 de Junho de 1552, com 55 anos.
A sua impressão sobre a colónia foi péssima: sentiu-se decepcionado e repugnado pela conduta imoral dos cerca de mil habitantes, pelas precárias condições de vida e pelo tamanho diminuto da sua diocese. Rapidamente, entrou em conflito com o Governador-geral, D. Duarte da Costa, e com os jesuítas. Nomeadamente, o bispo acusava o governador de abuso de poder e de tolerar "violências, homicídios, escândalos e desabono dos lares" atribuídos ao seu filho, Álvaro da Costa, e seus companheiros, além do seu apoio à intenção do filho de escravizar os indígenas, incluindo os catequizados. Enfurecido, o bispo informou, por carta, o rei D. João III de que, a seu ver, Duarte da Costa não reunia as condições necessárias para o cargo, uma vez que seria o filho quem, efectivamente, dava as ordens na colónia.
Aos jesuítas, criticava, por um lado, a tolerância em relação aos costumes indígenas e a forma adaptada como catequizavam os índios, e pôs como condição que estes falassem português e tivessem, pelo menos, uma aparência europeia antes de serem baptizados. Por outro lado, indignava-o que o clero fizesse vista grossa ao adultério e à promiscuidade que grassava entre portugueses e índias. Foi assim que, apesar de ser um excelente pregador e um bispo zeloso que fundou o primeiro seminário no Brasil, escreveu o regimento para o clero da sua diocese, erigiu uma residência episcopal e iniciou a construção de uma catedral, depressa teve problemas com o cabido. O conflito atingiu o auge quando agrediu dois clérigos que lhe desobedeceram e quando excomungou as autoridades civis que se aliaram ao seu cabido contra ele. A situação chegou a um ponto que foi obrigado a zarpar para Lisboa, em 2 de Junho de 1556, na nau Nossa Senhora da Ajuda, não se sabe ao certo se para apresentar mais queixas ao rei, ou se foi este que o mandou chamar, para acalmar os ânimos. O que se sabe é que não passou da costa brasileira: no dia 16 de Junho, o navio naufragou, junto à foz do rio Coruripe, na então Capitania de Pernambuco, actual estado de Alagoas.
O que depois aconteceu, não se sabe com certeza, e é da ordem do mito. A versão oficial, relatada por Frei Vicente do Salvador, na sua História do Brasil (1627), com base no testemunho de três sobreviventes do naufrágio, é a de que cerca de uma centena de passageiros conseguiu salvar-se e nadar para terra, onde foram capturados pelos índios caetés, antropófagos, que, no arroio de S. Miguel das Almas, os mataram e comeram, deixando o bispo para o fim, que assim pôde, heroicamente, encorajar e confortar os seus companheiros de infortúnio. Se não é verdadeira, é uma boa história, e conveniente, já que os caetés eram aliados dos comerciantes franceses e inimigos dos portugueses. Na época, o incidente provocou a ira da Igreja Católica e da Inquisição. Em 1562, depois de serem acusados de devorar o bispo, os caetés foram considerados "inimigos da civilização" e tornaram-se alvos de implacável perseguição pelo Governador Mem de Sá, que determinou que fossem "escravizados todos, sem excepção".
Actualmente, esta narrativa é posta em causa. Alguns historiadores sustentam que as ditas testemunhas podem ter acusado falsamente os caetés, para provocar a sua perseguição e a consequente expropriação das suas terras, considerando mais provável que os canibais do bispo tivessem sido os tupinambás, que, naquela época, habitavam a foz do rio São Francisco, próximo do local do naufrágio. Outros historiadores, contudo, consideram plausível a responsabilidade dos caetés, dado o seu estado extremamente beligerante após a sua expulsão de Olinda pelos portugueses. Porém, mesmo aceitando que os caetés tenham matado o bispo à marretada, parece-lhes fantasioso ou exagerado que o tenham comido. Outros, ainda, acreditam que o bispo tenha sido vítima de um plano de vingança de Duarte e Álvaro da Costa, que poderiam ter tramado o homicídio, aproveitando para incriminar os caetés. O que se sabe é que a morte do bispo Sardinha serviu de pretexto aos portugueses para iniciarem uma guerra contra os indígenas. Em cinco anos de conflito, exterminaram os cerca de 80 mil caetés e colonizaram a região que eles tinham habitado.

Cidade alta


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

A cidade do Salvador foi construída como uma das primeiras cidades planeadas no mundo, seguindo o modelo de urbanização adoptado por várias cidades costeiras portuguesas, a saber: escolha de sítios elevados para a implantação dos núcleos defensivos; estruturação da cidade em dois níveis (a cidade alta, institucional e política, e a cidade baixa, portuária e comercial); cuidadosa adaptação do traçado das ruas às características topográficas locais; um perímetro de muralhas que não acompanhava o tecido construído, mas que se adaptava às características do terreno; e uma concepção de espaço urbano em que os edifícios públicos, civis ou religiosos, localizados em pontos proeminentes e com uma arquitectura mais cuidada que os destacava na malha urbana, tinham um papel estruturante fundamental na organização da cidade. A cidade alta de Salvador, construída num sítio elevado sobranceiro à Baía de Todos os Santos, foi uma cidade planeada segundo um traçado que, se por um lado, se adaptava às características topográficas do terreno e a um perímetro de fortificações de forma trapezoidal, por outro lado, era constituída no seu interior por quarteirões sensivelmente rectangulares. Daqui resultava uma malha regular, mas não perfeitamente ortogonal (adaptado de "As Formas Urbanas das Cidades de Origem Portuguesa", citado aqui).



Quando, em 1549, Tomé de Sousa, primeiro Governador-geral do Brasil (1549-1553), fundou a cidade de São Salvador da Baía de Todos os Santos, escolheu o sítio pela sua localização estratégica: elevada, próxima do porto e com uma barreira natural, constituída por um acidente geológico que funcionava como uma verdadeira muralha defensiva de 90 metros de altura por 15 quilómetros de extensão. O núcleo de onde irradiou a cidade situava-se no cume da elevação, onde foram construídos os edifícios administrativos. Corresponde hoje, grosso modo, à Praça Municipal (oficialmente, Praça Thomé de Souza).







Monumento de homenagem a Tomé de Sousa, encimado por uma réplica em bronze da estátua da autoria do escultor italiano Pasquale de Chirico. Na base, várias placas que evocam as figuras principais da fundação de Salvador.
Esse primitivo núcleo da cidade foi executado pelo arquitecto militar Luís Dias, nomeado, em 1549, "Mestre da Fortaleza e Obras de Salvador". Era rodeado por uma cintura de muralhas, em taipa, que possuía duas portas: a de Santa Catarina, ao Norte, e a de Santa Luzia, ao Sul, flanqueadas por baluartes com pontes levadiças sobre os fossos circundantes, ao estilo medieval.

Excerto do mapa de Salvador em 1551, elaborado por Theodoro Sampaio (reproduzido aqui). Pode ver-se, na extrema esquerda, fora de portas, a área doada por Tomé de Sousa aos jesuítas, liderados pelo padre Manuel da Nóbrega, que aí fez construir uma primeira capelinha de taipa e o primeiro edifício do Colégio dos Jesuítas da cidade. No mapa, a área é referida como "Conjunto dos Jesuítas".
Porém, em 1587, os muros de taipa estavam em ruínas, por falta de manutenção, pelo que, em 1605, foi desenhada uma nova muralha, em alvenaria, que envolvia uma área três ou quatro vezes maior que a original. No centro da nova expansão urbana, desenvolvida ao longo da segunda metade do século XVII, situavam-se o Colégio dos Jesuítas e o Terreiro de Jesus. Na secção Norte da muralha, abria-se a Porta do Carmo, assim chamada por dar acesso ao caminho conducente ao Convento do Carmo. A partir de 1613, foi aí construída uma bateria, conhecida como Castelo das Portas do Carmo, que ficava no que é hoje o Largo do Pelourinho. João de Lencastre, Governador-geral do Brasil (1694-1702), ordenou a construção do hornaveque e do reduto a cavaleiro, que defendia a porta exterior, brasonada ao alto com as armas da cidade. Apresentava-se como uma "soberba plataforma com dois baluartes", onde diariamente permanecia de guarda uma companhia. A estrutura terá sido demolida no tempo de Rodrigo José de Meneses e Castro, Governador da Capitania da Bahia entre 1784 e 1788 (uma descrição detalhada da fortificação de Salvador pode ser encontrada no dossier elaborado como suporte à proposta de inscrição do Centro Histórico da Cidade de Salvador na Lista do Património Mundial da UNESCO, disponível aqui).



A Casa da Câmara foi inaugurada em 13 de Junho de 1549, numa construção de taipa e palha que reunia os poderes executivo, judiciário e legislativo. Em 1551, foi construída, pelo mestre Luís Dias, nova Casa de Câmara e Cadeia, feita com pedra, cal, barro e coberta com telhas. Nos pisos térreo e subterrâneo, funcionavam a cadeia, com celas e enxovias, açougues e mercado. Em 1660, o governador Francisco Barreto de Menezes deu início a uma reforma que concedeu à Câmara a imponência que deveria ter um edifício público da sua importância. Alguns anos depois, em 1696, foi construída uma torre, onde foi instalado um sino, resultando na actual estrutura arquitectónica do edifício, derivada do maneirismo português do século XVII, ou estilo-chão. Em 1885, a fachada original foi profundamente alterada, para se adequar ao estilo artístico vigente, ganhando um aspecto neo-renascentista, e o velho sino deu lugar a um relógio eléctrico. Porém, em 1970, foi restituída a antiga fachada, convertendo o Paço da Câmara Municipal num dos mais importantes exemplares da arquitectura civil colonial brasileira. Lamentavelmente, no início da tarde do dia 24 de Fevereiro de 2025, um incêndio, que começou no ar condicionado do Salão Nobre, atingiu parte do edificado.



Também no tempo de Tomé de Sousa, em meados do século XVI, começou a ser construído, igualmente em taipa, o Paço do Governador, para ser o centro da administração portuguesa. Posteriormente, sofreu alterações e ampliações, e teve várias funções, como quartel e prisão. No fim do século XIX, foi submetido a uma profunda reforma, concluída em 1900, que lhe conferiu um nobre e imponente estilo neo-clássico, ao gosto francês. Porém, em 10 de Janeiro de 1912, o palácio foi atingido pelo bombardeio da cidade e ficou praticamente em ruínas. Foi reconstruído e reinaugurado em 1919, com o nome de Palácio Rio Branco, em homenagem a um dos maiores estadistas brasileiros, o Barão do Rio Branco. Em 1984, foi feita uma restauração completa do edifício, devido ao péssimo estado de conservação em que se encontrava. Actualmente, encontra-se fechado para nova reforma.
Na foto, à esquerda do Palácio Rio Branco, pode ver-se parte da fachada do Palacete Tira-Chapéu, um dos poucos remanescentes e um dos mais importantes exemplares do estilo eclético em Salvador.
Ainda na Praça Municipal, encontra-se o chamado Palácio Tomé de Sousa, sede da Prefeitura Municipal de Salvador, projectado pelo arquitecto João Filgueiras Lima e construído e inaugurado durante o mês de Maio de 1986. Consiste numa estrutura de aço e vidro, com uma área de 2 mil metros quadrados, que não fotografei, porque não lhe achei graça nenhuma. Agora, conhecendo a sua história, lamento não o ter feito.
A Prefeitura Municipal de Salvador funcionava no Palácio Rio Branco que, na década de 1980, fechou para obras. Então, foi solicitado o projecto de um edifício desmontável que abrigaria, provisoriamente, a Prefeitura, cujo destino final seria um dos casarões abandonados da zona. No entanto, quatro décadas depois, a construção provisória tornou-se a sede duradoura do órgão máximo do Poder Executivo da primeira capital do Brasil. Porém, devido à sua incompatibilidade arquitectónica com o entorno histórico-colonial declarado património, a construção foi alvo de uma acção judicial com vista à sua remoção. Por decisão da Justiça, o prazo para a desmontagem já terminou, pelo que o edifício deverá sair do local a breve trecho.



A Praça Municipal constitui a principal entrada turística no Centro Histórico, pois é aí que vai dar a subida do Elevador Lacerda, o primeiro elevador urbano do mundo, inaugurado em 8 de Dezembro de 1873, ligando a Cidade Baixa e a Cidade Alta. Chegados ao topo, come-se um gelado da Cubana, enquanto se usufrui da belíssima vista sobre a baía e a Cidade Baixa, com o Mercado Modelo aos nossos pés.

Memória futura (28)


Ponte de Sor, Dezembro de 2025

José Nogueira Vaz Monteiro, a quem Ponte de Sor deve, entre muitos outros benefícios, o coreto, foi homenageado com um busto e o nome numa rua da cidade.









Sobre ele, encontrei a seguinte informação, também em contradição com a data de nascimento inscrita no pedestal:

"José Nogueira VAZ MONTEIRO, Benemérito, natural de Ponte do Sôr, nasceu a 10-08-1873 e faleceu em 1939. Era filho do Sr. Francisco Vaz Monteiro e de D. Margarida Rufina Nogueira Vaz Monteiro, já falecidos, e irmão de Margarida Vaz Monteiro de Matos e Silva e D. Ana Nogueira Vaz Monteiro, e tio de António Rodrigues Vaz Monteiro e Damião Soto Maior du Bocage. Foi Provedor da Santa Casa da Misericórdia, cargo que exerceu com desvelado carinho e dedicação. Presidente por várias vezes e durante muitos anos da Câmara Municipal, deixou a sua passagem vincada por uma notável administração, que se traduziu em muitos e importantes melhoramentos para todo o Concelho e especialmente para a terra que o viu nascer.
Foi grande a obra que edificou como Presidente da Câmara Municipal: a ele se deve a construção de vários Edifícios Escolares no Concelho, um Mercado coberto na sua terra natal, o Jardim Público e as Avenidas e ultimamente o abastecimento de águas a Montargil e Ponte do Sôr, este último a inaugurar em breve.
A sua acção como Benemérito foi grande. Seguindo a tradição de sua família, mantinha uma cozinha, onde era fornecida comida aos necessitados, que ali iam mitigar a fome. Pobre que precisasse construir a sua casita, era certo pedir ao Sr. Vaz Monteiro os materiais necessários, que prontamente lhos dava.
Mais de 40 hectares de bons terrenos, nas margens do Rio Sôr, são hoje cultivados por gente pobre, a quem, gratuitamente, o mesmo Benemérito cidadão os cedeu. Provedor da Santa Casa, condoeu-se o seu coração generoso das acanhadas e deficientes instalações do seu Hospital. Mandou, por isso, com o apoio e a ajuda de sua irmã, D. Ana Nogueira Vaz Monteiro, construir um moderno Hospital, com todos os requisitos, e que é, indubitavelmente, um dos melhores da Província.
A Santa Casa era pobre, lutava com dificuldades tremendas, que a todo o momento podiam levar a sua direcção a encerrar as portas aos necessitados. O grande Benemérito ordenou a construção de um esplêndido e moderno Teatro-Cinema, e um bairro para funcionários públicos, alegre, higiénico, e o seu rendimento destinou-o à Santa Casa.
Carecia a sua terra de um Hotel condigno, que não a envergonhasse. Pois também o Sr. Vaz Monteiro meteu ombros a tal empresa; o Hotel fez-se, e constitui, sem dúvida, um dos maiores melhoramentos que legou a Ponte do Sôr. E não fica por aqui, ainda, a enorme lista dos benefícios que o ínclito cidadão prestou à terra que o viu nascer. A ele se deve, na maior parte, a restauração da "Filarmónica Pontessorense", a quem forneceu quase todo o instrumental e o fardamento. Como Presidente da Câmara, concedeu-lhe, também, o subsídio de 150$00 mensais. O "Rancho do Sôr", o glorioso agrupamento folclórico regional, deve, também, a sua existência a Vaz Monteiro.
Reconhecida, prestou-lhe Ponte do Sôr uma grande homenagem, traduzida numa quente manifestação popular e numa eloquente sessão solene de enaltecimento das suas grandes qualidades, a quando da inauguração do Teatro-Cinema e do Hospital "Vaz Monteiro". O Governo quis manifestar também a sua admiração ao ilustre Benemérito, concedendo-lhe a Comenda da Ordem de Benemerência. Ainda aqui Vaz Monteiro mostrou quão grande era a sua alma, pois recusou. A virtude não precisa de galardão." (Jornal A Mocidade, IV Ano, nº 294, Ponte de Sôr, 26 de Fevereiro de 1939; Director, Editor e Proprietário: Garibaldino de Oliveira da Conceição Andrade)



O busto, em bronze, foi realizado, em 1957, pelo escultor Pedro Anjos Teixeira (1908-1997), cuja assinatura figura ao lado do carimbo da fundição (Abreu & Filho, Lisboa), com menção ao método de produção (cera perdida).
Pedro Anjos Teixeira era filho do também escultor Artur Anjos Teixeira (1880-1935), imortalizado pela Estátua da República (1916) que domina a Sala das Sessões (Parlamento), no Palácio de São Bento, em Lisboa. Pai e filho distinguiram-se na criação de arte pública e deixaram extenso espólio, em exibição no Museu Anjos Teixeira, em Sintra.
Vaz Monteiro foi também homenageado numa placa no foyer do Teatro-Cinema que mandou construir.





Temesvar, a primeira


Praça da União (Piața Unirii), Timișoara (Roménia), Maio de 2025

Timișoara é a maior cidade da região histórica do Banato, na Transilvânia, por onde passaram agatirsos, getas, celtas, dácios, romanos, carpos, sármatas, ostrogodos, hunos, gépidas, ávaros, pechenegues, eslavos, búlgaros, húngaros, tártaros, otomanos e muitos outros. A região pertenceu, sucessivamente, ao Reino Dácio (82 a.C-106 d.C.), ao Império Romano (106-ca. 350), ao Império Ávaro (553-790), ao Primeiro Império Búlgaro (até ca. 1000), ao Reino da Hungria (ca. 1000–1526, 1551–1552, 1779–1849), ao Reino da Hungria Oriental (1526–1551), ao Império Otomano (1552–1716), à Monarquia de Habsburgo (1718–1779), ao Império Austríaco (1849–1867), ao Império Austro-Húngaro (1867–1918), à República do Banato (1918), ao Reino da Sérvia (1918), ao Reino da Jugoslávia (1918–1919), ao Reino da Roménia (1919–1947), à República Popular da Roménia (1947–1965), à República Socialista da Roménia (1965–1989) e, desde 1989, à Roménia.


Praça da Liberdade (Piața Libertății), antiga Praça da Parada

A primeira referência que se conhece a um povoamento nesse lugar data de 1212 (como castrum regium Themes), embora o estatuto de cidade só lhe tenha sido reconhecido em 1342, sob o nome húngaro de Temesvár, que significa, literalmente, "castelo no rio Temes" (referência a uma fortaleza atestada desde 1175).


Palácio da sucursal regional de Timiş do Banco Nacional da Roménia
(const. 1903-1904, arq. Josef Hubert)


Durante o século XIV, a cidade ganha importância, depois de, entre 1315 e 1323, o rei Carlos I da Hungria aí ter fixado a sua corte e feito construir um palácio real. O desenvolvimento da urbe atrai artesãos e comerciantes italianos e mais húngaros. Chegam, depois, croatas, búlgaros, romenos, sérvios e, com a anexação ao Império Otomano, muitos muçulmanos e judeus sefarditas. No século XVIII, durante o domínio de Habsburgo, foram expulsos os turcos e teve início um processo de colonização em larga escala, com a deslocação para a região de católicos, provenientes, sobretudo, da Alemanha (Vurtemberga, Suábia, Palatinado, Luxemburgo, Hesse, Alsácia, Lorena, Suíça, Áustria, etc.), os quais ficaram conhecidos, globalmente, como Suábios do Banato. Vieram também espanhóis e italianos (comunidade reforçada, nos primeiros anos do século XXI, em virtude do investimento local por parte de empresas italianas).


Palácio Széchenyi, const. 1900-1914, arq. László Székely

Serve esta introdução para explicar o carácter cosmopolita e multicultural da cidade, visível na arquitectura, na religião, nas artes e na gastronomia. As estatísticas demográficas mostram que, em 1880, a população local era constituída por 53,02% de alemães, 19,45% de húngaros, 13,02% de romenos e 6,24% de sérvios. Em 1930, havia 32,39% de alemães, 31,03% de húngaros, 24,62% de romenos e 7,09% de judeus. A partir da II Guerra Mundial, aumenta a percentagem de romenos, em detrimento dos restantes grupos étnicos. Finalmente, em 2021, foram contabilizados 70,41% de romenos, 3,31% de húngaros, 1,11% de sérvios, 0,87% de alemães, 0,3% de ciganos e diversas outras minorias, com menos de 0,3%, como búlgaros, ucranianos, eslovacos, checos, judeus e croatas. Além disso, em 2017, o então Presidente da Câmara estimava em cerca de 100 mil a população flutuante, não contabilizada nas estatísticas, constituída por estudantes e trabalhadores.


Praça da Victória (Piața Victoriei)

Timișoara é hoje o principal centro económico e cultural da Roménia Ocidental, perto das fronteiras com a Hungria e a Sérvia. É a quinta cidade mais populosa do país (cerca de 250 mil habitantes, mais de 400 mil na sua área metropolitana, segundo o censo de 2021) e a capital do distrito de Timiș.


Strada Alba Iulia

Segundo dados oficiais do Banco Mundial, em 2018, Timișoara foi a cidade com maior crescimento económico da União Europeia, sendo um importante centro industrial, comercial, médico, cultural e universitário no país. Em 2023, um ranking mundial de qualidade de vida colocou-a em primeiro lugar na Roménia, 84.º lugar no mundo e 53.º lugar na Europa, acima de capitais como Lisboa e Bruxelas.


Palácio Lloyd (const. 1910-1912, arq. Lipót Baumhorn),
reitoria da Universidade Politécnica, fundada em 1920


A importância histórica de Timișoara revela-se em efemérides que ainda hoje orgulham os seus habitantes: foi a primeira cidade de Habsburgo com iluminação pública (com recurso a velas de sebo e candeeiros alimentados a óleo e gordura), em 1760, e a primeira da Europa Continental iluminada com luz eléctrica, em 1884; teve a primeira biblioteca pública de empréstimo numa cidade húngara, em 1815; o primeiro jornal em língua alemã no Sudeste Europeu (o Temeswarer Nachrichten), em 1771; a primeira linha telegráfica no território da atual Roménia, ligando Temeswar a Viena, em 1852; foi paragem do Expresso do Oriente, desde o seu lançamento, em 1883; teve o primeiro serviço de ambulâncias da Hungria, em 1886; e um hospital municipal, 24 anos antes de Viena. Já na Roménia, foi aí fundado o primeiro clube de futebol profissional do país (o Ripensia), em 1928; o primeiro grupo de teatro profissional da Roménia, em 1945; o primeiro computador alfanumérico romeno (o MECIPT 1), em 1961; e foi a primeira Cidade Livre do Comunismo, em 1989.


Alameda das Personalidades (Aleea Personalităților), no Parque Central da cidade
(Parcul Central „Anton Scudier”)


Timișoara é um dos principais destinos turísticos da Roménia. A cidade possui o maior conjunto arquitectónico de edifícios históricos do país (aproximadamente 14.500), resultado de uma longa tradição de planeamento urbano moderno, que começou no século XVIII, com a chegada dos austríacos (e em consequência da destruição provocada pelas guerras austro-turcas). O centro histórico da cidade está estruturado em torno de três praças urbanas (ilustradas acima), únicas no país, apresentando cada uma dimensões, soluções plásticas e estilos de inestimável valor arquitectónico. A diversidade arquitectónica, representada pelo Barroco, Historicismo, Neoclassicismo, Art Nouveau e Secessão Vienense, rendeu a Timișoara a reputação de "Pequena Viena". Mas os epítetos não se ficam por aqui: Timișoara é também conhecida como a "cidade das flores", em virtude dos seus inúmeros parques e espaços verdes. Entre os mais famosos, destaca-se o Parque Central (retratado acima) e o Parque das Rosas, com mais de 1.200 variedades de rosas, que, no início do século XX, deu a Timișoara a reputação de "cidade das rosas".
É, sem dúvida, uma cidade que merece ser visitada.