Mostrar mensagens com a etiqueta Marcos fronteiriços. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marcos fronteiriços. Mostrar todas as mensagens

Percurso do Contrabando do Café


(clicar na imagem para aumentar)

Sempre soube que, um dia, havia de fazer o Percurso do Contrabando do Café, organizado pela Câmara Municipal de Marvão. O passado sábado foi esse dia.
Concentração às 8h30, na antiga escola primária de Galegos, para um pequeno almoço de contrabandista: migas de pão com carne de porco frita e café de panela. Já depois das 9h00, iniciámos a caminhada, que nos levou, serra abaixo, serra acima, de Galegos a La Fontañera (o que eu gosto dessa aldeia!), uma volta pela Sierra de San Pedro, até à Sierra Fría, de onde descemos em direcção à Pitaranha e continuámos para Galegos (a ortografia revela o lado da fronteira).
Como eu esperava, é um percurso muito bonito, difícil nas subidas mais íngremes, mas com vistas fantásticas. A organização também era excelente e os desvios bem assinalados. Não nos faltou nada, nem animação. Pelo meio da conversa, fiquei ainda com mais vontade de tentar a Rota do Contrabando, entre Montalvão e Cedillo, que, apesar de maior e mais exigente, mete travessia de barco e tudo. Este ano, já não fui a tempo de me inscrever, mas, para o ano, não conto falhar.
E Galegos que espere por mim, que para a próxima lá estarei!


Galegos, Marvão ao fundo


Passada La Fontañera (Valencia de Alcántara)




Pela Sierra de San Pedro




Ao passar a fronteirinha


O marco 684A, que eu já tinha apanhado, num passeio da
Pitaranha até à fronteira, numa época em que o excesso de
marcos bloqueou a minha colecção. Pode ser que lhe 
vazão agora...








Galegos (Marvão), Maio de 2017

A linha que nos separa (XIX)


O Rio Guadiana, por terras de Olivença, Fevereiro de 2013

Neste troço, o Guadiana não é a linha que nos separa, mas a que nos vai separando. Passo a explicar: é que neste local não há, de facto nem de jure, fronteira.
A fronteira terrestre portuguesa ficou definida, em linhas gerais, em 1297, pela assinatura do Tratado de Alcanizes, entre os reis D. Dinis de Portugal e Fernando IV de Castela. Desde aí, sofreu muito poucas alterações, pelo que tem sido considerada uma das fronteiras mais antigas da Europa.
Foi em 1801 que, no decurso daquela a que se convencionou chamar Guerra das Laranjas, Espanha, apoiada pela França de Napoleão, entrou por Portugal adentro e tomou posse duma boa parte do Alto Alentejo. Portugal viu-se, assim, forçado a assinar o Tratado de Badajoz, pelo qual Espanha se comprometia a devolver todas as conquistas recentes, à excepção dos territórios de Olivença, exigindo que a delimitação da fronteira se fizesse, aí, pelo rio Guadiana.
Em 1815, o Congresso de Viena reconhece o direito de Portugal aos territórios de Olivença, que Espanha concorda em restituir, ao ratificar o tratado, em 1817. Mas nunca o fez.
Em 1864, Portugal e Espanha firmam novo tratado, com vista à delimitação definitiva da fronteira. É, então, por este Tratado de Lisboa, ou dos Limites, que fica decidida a colocação de marcos fronteiriços ao longo de toda a raia seca. Porém, em virtude da recusa portuguesa em reconhecer a ocupação de Olivença, a fronteira só fica definida desde a foz do rio Minho até à confluência do rio Caia com o rio Guadiana.
Em 1926, é assinado o Convénio de Limites, que define a fronteira e a colocação de marcos desde a confluência da ribeira de Cuncos com o rio Guadiana até à foz deste último. Por demarcar, fica a fronteira junto a Olivença, desde a confluência do rio Caia com o rio Guadiana até à confluência da ribeira de Cuncos com o rio Guadiana (não foram, até hoje, colocados os marcos 802 a 899, correspondentes ao território de Olivença). Por isso mesmo, a fronteira, aí, não existe.


A fronteira interrompida, conforme consta da cartografia
militar portuguesa (assinalados, os extremos da fronteira
oficial e Olivença - mapa retirado daqui)



A fronteira conforme seria com a integração dos territórios de Olivença
(mapa retirado daqui)


E foi assim que Olivença se tornou uma questão diplomática delicada entre os dois países, que nem a integração europeia, em 1986, veio resolver (basta comparar, na Wikipédia, as entradas relativas à questão, em português e em espanhol).
Esta indefinição tem tido, como seria de esperar, consequências práticas. Uma delas tem a ver com a Ponte da Ajuda.


Ponte da Ajuda, Fevereiro de 2013

Mandada construir por D. Manuel I, em 1510, a Ponte de Nossa Senhora da Ajuda tinha a função de assegurar a operação das forças militares portuguesas na margem esquerda do rio Guadiana, em apoio ao Castelo de Olivença. Teve uma história atribulada, que culminou com a sua destruição pelo exército castelhano, em 1709. Desde aí, manteve-se em ruínas, e Olivença isolada. Em 1967, foi classificada como Imóvel de Interesse Público.
Na Cimeira Luso-Espanhola de 1994, o Governo português entendeu não aceitar como empreendimento transfronteiriço a construção da nova ponte sobre o Rio Guadiana entre Elvas e Olivença, nas imediações da Ponte de Nossa Senhora da Ajuda, nem a reconstrução desta, antes assumindo integral e exclusivamente os encargos das obras, de forma a afastar a interpretação jurídica de que tacitamente se admitia o traçado da fronteira sobre a linha do Guadiana e se cedia na soberania sobre o território oliventino, respectivos monumentos e demais património.
A nova ponte foi inaugurada em 2000, a curta distância a jusante da antiga, construída e financiada pelo Governo português, que confiou a execução da obra à Câmara Municipal de Elvas, assim lhe retirando qualquer dimensão internacional e transfronteiriça.



Esta artimanha valeu a Portugal o reconhecimento tácito, por parte de Espanha, da soberania portuguesa sobre o rio. Quem atravessa a ponte encontra, na margem oliventina, uma placa informativa da entrada em Espanha:



Esta placa não tem, porém, equivalente portuguesa, visto que a única informação colocada pelas autoridades nacionais é a da identificação do rio:



A bela paisagem é palco de uma pequena guerra fria que passa despercebida aos mais desatentos, mas que se insinua nos conflitos sinaléticos e nos grafitos no chão, clamando que "Olivença é Portugal".
Enfim, Olivença recuperou a ligação a Elvas, mas a Ponte da Ajuda mantém-se em ruínas. Espanha concluiu a restauração na margem esquerda, mas as obras pararam, devido à indefinição portuguesa.









A linha que nos separa (XVIII)



Há dias, voltei à Rabaça e, depois de os ter andado a procurar de um lado da estrada, tentei do outro.



Depois do 696I, que se vê da estrada, cada vez mais envolvido pela vegetação, é andar mais um bocadinho, até encontrar, no meio dos cactos, o "grande", como lhe chamou um senhor que por ali encontrei: o 697. Fica empoleirado no cimo do declive que desce até ao rio Xévora. Os restantes, ao que me contou, alinham-se na outra margem, pelo monte acima. Um dia, quem sabe.


O rio Xévora, entre a Rabaça (São Julião, Portalegre) e La Rabaza (La
Codosera, Badajoz, Espanha), onde se chama Gévora, Fevereiro de 2013



(mapa retirado daqui)

A linha que nos separa (XVI)





Desta vez, a ida a Badajoz fez-se com tempo para explorar a fronteira na ponte velha. E lá estão o 801C e o 801C-bis, um de cada lado da ponte sobre o rio Caia. O 801C-bis perdeu, entretanto, a decoração que ainda ostentava aqui:



Do 801C, vislumbra-se, na ponte José Saramago, o 801-B1 e o seu par (801-B2? 801B1-bis? Ainda não foi desta que parei para confirmar):



(E reparo agora que a ponte, que era verde, está azul.)


Rio Caia, Elvas/Badajoz, Novembro de 2012

NOTA: Acabo de encontrar, aqui, um fantástico blogue sobre fronteiras pelo mundo fora, a explorar (o blogue, para já; o mundo fica para depois).

A linha que nos separa (XV)


Herrera de Alcántara, Outubro de 2012

Uma das linhas mais bonitas a separar-nos é, sem dúvida, o Tejo, aqui visto do Miradouro de Negrales, em Herrera (Ferreira) de Alcántara:



(A vista panorâmica é mais ou menos assim:)



E aqui, visto do Miradouro do Tejo, junto ao embarcadouro:



Não tem marcos, porque é raia húmida, mas vale bem a visita.
Seguindo para Oeste, ao longo do Tejo internacional, chegamos à ponta do corno que Espanha enterra no flanco português (junto ao L de Portugal, no mapa):



Aqui, na confluência do Sever com o Tejo, não há fronteira (nem marcos), mas, sim, a barragem da Iberdrola, que, aos Sábados e Domingos, permite a passagem entre os dois países, sobre o rio Sever (mais uma história curiosa da raia, pois claro).



Foi este o percurso que fizemos, vindos de Cedillo:









Depois, foi seguir até Montalvão e continuar: Póvoa e Meadas - Castelo de Vide - Portalegre. Não há que enganar.

A linha que nos separa (XIV)


La Fontañera, Agosto de 2012

Cada vez gosto mais de La Fontañera. É que sempre que lá vou encontro, pelo menos, um marco novo. Desta vez, ainda não foi o 682B, que o calor e a vegetação alta, apesar de seca, dificultam o acesso.
Além da questão do marco deslocado, dá-se o facto de ser naquele local que a fronteira faz a curva, o que justifica a grande quantidade de marcos. Só ainda não me tinha apercebido de que é a casa que justifica a curva, e é por isso que está rodeada deles. O 683A1 lá está, junto à parede da casa, antecedendo o muro que, a partir dali, delimita a fronteira. Segundo a proprietária da casa, que continua admirada com o meu interesse por aquelas coisas, o muro está cheio deles.
Hei-de lá voltar pela fresca, com equipamento para caminhada e escalada.








(mapas do Instituto Geográfico do Exército e do Google Maps,
respectivamente)

A linha que nos separa (XIII)


Galegos (Marvão), Julho de 2012

"Ai a Teresa colecciona marcos fronteiriços? Então hão-de passar lá por casa, que conhecemos um lá perto que ela há-de gostar de ver". Foi este o incentivo para voltarmos a Galegos, no fim-de-semana. E não vim de lá nada desiludida, antes com pena que o tempo (cronológica e meteorologicamente falando) não tivesse deixado espaço para mais. Por que raio há-de a raia ser tão bonita?
Tive, como bónus, o prazer de explorar um pouco dos trilhos do contrabando, que há já tempos me andam tentando. O que seguimos é muito bonito, um caminho meio empedrado, meio pedregoso, entre muros de pedra e vistas lindíssimas para a Serra de São Mamede, com Marvão ao fundo, como não podia deixar de ser.







Até que, sobre um muro, apareceu o primeiro, o 680 B. Aquele muro era, de facto, a fronteira. Do lado de lá, um montado de sobro.





Seguimos um pouco para norte até darmos com ele, o 680, empoleirado em cima de uma rocha. Fiquei entusiasmadíssima! Nunca tinha visto nenhum que me intrigasse tanto. Por um lado, a decoração: quem a fez, porquê? Por outro lado, a localização: o marco foi fixado a um rochedo que se situa a uns 10 ou 15 metros do muro. Até poderia conceder que a fronteira se desvia do muro, naquele ponto, mas, então, como explicar que o muro continue, e com ele mais marcos? E, por outro lado ainda, onde está o 680 A, que não o vimos?





Decididamente, os caminhos do contrabando encerram muitos mistérios. Hei-de lá voltar, com tempo melhor (dos dois tipos) e calçado mais adequado.



Diga-se de passagem, já este ano quase me deixei tentar pela caminhada organizada pela Câmara Municipal de Marvão, a IV Rota (ou Percurso) Internacional do Contrabando do Café. Estas caminhadas são organizadas com alguma regularidade. Aqui há uma boa reportagem fotográfica sobre um percurso realizado em 2010 (com destaque para os marcos fronteiriços, aqui). Aqui, um interessante testemunho de quem viveu o (e do) contrabando.