Memória futura (31)

Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025
Mais à frente, quase a chegar à Catedral, encontra-se o Monumento Zumbi dos Palmares, com escultura de bronze, da autoria da artista Márcia Magno, sobre o pedestal que antes sustentara a estátua de Tomé de Sousa, depois transladada para a Praça Municipal.

Zumbi foi um homem negro nascido livre no Quilombo dos Palmares, em 1655. Localizado na Serra da Barriga, na então capitania de Pernambuco (actual Estado de Alagoas), o Quilombo dos Palmares foi uma comunidade fundada por africanos e seus descendentes, fugidos da escravidão, que aí se refugiaram, a partir de 1580. Foi o maior quilombo da história do Brasil, tendo atingido o seu auge em 1690, quando a sua população contou com cerca de 30 mil habitantes, maioritariamente africanos fugitivos, mas também indígenas, caboclos e colonos portugueses marginalizados, como soldados que desertavam do serviço militar obrigatório.
A biografia de Zumbi é incerta e rodeada de mitos. Sabe-se muito pouco sobre ele, e mesmo o nome é controverso: existe a hipótese de que Zumbi não fosse o seu nome próprio, mas sim um título ou mesmo um epíteto (do quimbundo nzúmbi, «espectro; fantasma»). Uma versão, muito disputada, sustenta que, com cerca de 6 anos de idade, o menino teria sido capturado e confiado a um missionário, que o baptizou com o nome de Francisco, após o que recebeu os sacramentos, aprendeu português e latim e ajudava diariamente na celebração da missa, até fugir de volta para o quilombo, com 15 anos. Aos 20, tinha-se já notabilizado como um feroz e corajoso guerreiro, nas batalhas contra os portugueses, que tentavam destruir o quilombo. Por discordar de qualquer cedência aos colonizadores, antagonizou-se com o então rei do quilombo, Ganga Zumba, supostamente seu tio, o qual, por sua vez, reclamava uma suposta ascendência nobre no Reino do Congo. Zumbi afastou o líder, que veio a morrer em circunstâncias misteriosas, e assumiu o comando do quilombo e da resistência contra os portugueses. O ataque final contra Palmares ocorreu em Janeiro de 1694, quando foi tomada a Cerca Real (ou Mocambo) do Macaco, o principal núcleo de povoamento do quilombo. Ferido, Zumbi conseguiu fugir e viveu escondido no mato durante um ano e meio, atacando aldeias portuguesas, até que foi denunciado (supostamente, sob tortura) por um companheiro, emboscado, capturado e morto pelo capitão sertanista André Furtado de Mendonça e seus homens, a 20 de Novembro de 1695. A sua cabeça foi cortada, salgada e levada ao governador da Capitania de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro, que a mandou expor em praça pública, para servir de exemplo a outros escravos. E aí ficou, no Pátio do Carmo, em Recife, no alto de um mastro, até completa decomposição, como prova da mortalidade de Zumbi.


Na sequência de uma ideia surgida na década de 1970, no âmbito dos movimentos sociais contra o racismo, o dia 20 de Novembro, data da sua morte, foi adoptado como o Dia da Consciência Negra, em 1995; em 2003, foi incluído no calendário nacional escolar; em 2011, foi instituído oficialmente como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra; e em 2024 passou a ser feriado nacional.
As placas afixadas no pedestal do monumento exaltam a liderança de Zumbi contra a injustiça racial e em prol da liberdade para todos, naquela que é designada a "primeira experiência democrática" do Brasil. No entanto, discute-se hoje que essa é uma versão romantizada da história: no Quilombo de Palmares, eram mantidas, de forma conservadora, as práticas culturais e sociais africanas das regiões de origem dos seus habitantes; o sistema político vigente era a monarquia, assente na estratificação social, com elites políticas e militares, no topo da hierarquia, e escravos, no fundo; era prática comum a diferenciação entre os escravos fugitivos, que chegavam aos quilombos pelos seus próprios meios, e aqueles que eram trazidos por incursões de resgate dos quilombolas, que iam às fazendas e vilas para "libertar" escravos (frequentemente, os que se recusavam a ir eram capturados, levados à força e convertidos em cativos, para trabalharem nas plantações dos quilombos); quem tentasse sair do quilombo ou comunicasse com pessoas consideradas inimigas era perseguido e executado. Enfim, não seria o sistema ideal, mas era o melhor que muitos conseguiam e a que almejavam, o que tornou Zumbi dos Palmares um símbolo de resistência.
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