Lucky Luke



Desenho de Morris, texto de Goscinny, Lucky Luke: Calamity Jane, Dargaud, 1967
(edição portuguesa: Lisboa: Meribérica/Liber, 1990, p. 46).

Sobre As Cidades Invisíveis

Italo Calvino nasceu em Santiago de Las Vegas (Cuba), a 15 de Outubro de 1923, filho de pais italianos, que regressaram à Itália após o seu nascimento.
Durante a juventude foi forçado a integrar uma organização fascista chamada "Avanguardisti", participando na ocupação da Riviera Francesa.
Mudou-se para Turim, em 1941, e formou-se em Letras pela Universidade dessa cidade. Em 1943, participou no movimento anti-fascismo, alistando-se na Resistência Italiana, na Brigada Garibaldi. Foi um dos criadores do MUL (Movimento Universitário Liberal). Mais tarde, tornou-se membro do Partido Comunista Italiano, o qual abandonou em 1957, aquando da insurreição húngara. A sua carta de renúncia ficou famosa, bem como os relatos que escreveu aquando da sua visita à União Soviética.
Escreveu para diversos jornais e revistas entre os quais L'Unità, Il Politecnico, Rinascita (revista comunista), Il Contemporaneo (um jornal semanal marxista) e Italia Domani. Trabalhou na editora Einaudi como responsável por volumes literários.
Teve um contacto frequente com o mundo académico, nomeadamente na Universidade de Sorbonne (na qual conheceu Roland Barthes) e na Universidade de Urbino. Deslocou-se a várias cidades do mundo para dar palestras e recebeu inúmeros prémios, como a "Légion d'Honneur", em França, e o "Austrian State Prize for European Literature". Foi ainda feito membro honorário da Academia Americana.
Em 1985, Calvino faleceu em Sienna, no hospital de Santa Maria della Scala, vítima de acidente vascular cerebral.


Italo Calvino (foto de Denis Gibier)

Italo Calvino é considerado um dos escritores mais notáveis do século XX, contando-se entre as suas obras O Atalho dos Ninhos de Aranha (1947), Fábulas Italianas (1956), uma trilogia denominada Os Nossos Antepassados, constituída por O Visconde Cortado ao Meio (1952), O Barão Trepador (1957) e O Cavaleiro Inexistente (1959). É ainda de ressalvar as obras Amores Difíceis (1970) e As Cidades Invisíveis (1972). Este livro explora os limites da imaginação, através da descrição de cidades que é feita pelo narrador, o viajante italiano Marco Polo, nas suas conversas com Kublai Khan, Imperador da Mongólia. Discutem-se nesta obra uma grande variedade de tópicos, como a linguística e a condição humana.


Marco Polo

Marco Polo nasceu em Veneza, em 1254.
Em 1259, o pai de Marco Polo, que era comerciante, organizou uma expedição para buscar seda, pérolas, pedras preciosas e especiarias. Foi então que Marco Polo começou a sonhar com viagens pelo mundo.
Tinha apenas cinco anos quando o pai partiu nessa expedição, que durou cerca de 12 anos. Todos pensavam que o pai de Marco Polo tinha morrido e a mãe dele morreu de tristeza, achando que o marido estava morto. Mas, quando Marco Polo tinha quinze anos, o pai voltou com a promessa que o levaria na próxima viagem, que veio a concretizar-se em 1271.
Juntamente com o seu pai, Nicolau Polo, e o seu tio, Maffeo, Marco Polo foi um dos primeiros ocidentais a percorrer a rota da Seda. Dirigiram-se à corte do rei mongol Kublai Khan e, a seu serviço, percorreram a Tartária, a China e a Indochina.
Depois de regressarem a Veneza, por volta de 1295, Marco comandou um grupo na guerra contra Génova, acabando por ficar prisioneiro, em 1298. Durante o cativeiro, ditou as suas aventuras de viagem a outro prisioneiro, chamado Rusticiano de Pisa, acabando estas por serem traduzidas para latim, em 1315, pelo frei Francisco Pipino.
O relato detalhado das suas viagens pelo Oriente, incluindo a China, foi durante muito tempo uma das poucas informações sobre a Ásia no Ocidente. A primeira tradução em português só foi impressa em 1502.
Em 1300, quando completou 46 anos, Marco Polo voltou para Veneza. Um anos depois casou-se com Donata com quem teve três filhas.
Marco Polo morreu em sua casa, em Janeiro de 1324, com quase 70 anos, sendo enterrado na Igreja de San Lorenzo.


Kublai Khan

Kublai Khan (23 de Setembro de 1215 - 18 de Fevereiro de 1294) foi o conquistador mongol responsável pela dominação total e reunificação da China, fundando a Dinastia Yuan. Kublai mostrou-se um administrador capaz para os padrões mongóis, mas insuficiente para os padrões chineses. Desde a juventude fora treinado nas artes da guerra, cresceu adquirindo modos e gostos chineses. Ao contrário dos tradicionais líderes tribais mongóis, Kublai era culto, alfabetizado, e moldava-se com facilidade aos métodos estrangeiros, o que o tornou um político tão hábil como guerreiro.
Com o passar do tempo, Kublai procurou estimular políticas que esbarraram na total inexperiência dos mongóis e a sua ineficiência era vista com maus olhos pelos chineses. Apesar da rejeição popular, Kublai via-se um legítimo chinês e considerava-se como "um filho do céu".
A opulência de Kublai e da sua corte impressionou o jovem italiano Marco Polo, que foi contratado por Kublai, por 17 anos, como embaixador do império e que lhe relatou tudo o que vira. As histórias de Marco Polo trouxeram à Europa os relatos mais ricos da nação mais avançada do mundo na época.
A pressão interna na China aumentava, provocada pelo descontentamento dos chineses conquistados, que exigiam a eleição de um novo Cã. Kublai foi assim forçado a desviar a atenção dos problemas económicos e procurou expandir a sua esfera de influência. Sempre olhara para o Japão como uma possível fonte de riqueza e para os japoneses como um povo atrasado, fácil de ser conquistado. Em 1274, lançou ao mar numerosos navios chineses e arqueiros mongóis, mas a missão foi um fracasso, devido ao tufão que se abateu sobre o mar do Japão, a que os japoneses chamaram Kamikase, "vento divino", pois livrara-os de uma invasão.
Kublai morreu em 1294, aos 79 anos, e apesar das desventuras ficou conhecido por feitos notáveis, como a reabertura e a reforma das rotas comerciais em direcção à China e das vias de comunicação interna, além da própria reunificação do Império.


Marco Polo na corte de Kublai Khan

Trabalhos de pesquisa e síntese de, respectivamente, Paula Gouveia, Magali Sophie Pinto e Andreia Ascenção.

Fontes:
"Invisible Cities". Wikipedia (en).
"Italo Calvino". Wikipedia (en).
"Kublai Khan". Wikipedia (en).
"Kublai Khan". Wikipédia (pt).
"Marco Polo". Diciopédia, CD-ROM, Porto: Porto Editora [s.d.].
"Marco Polo". Wikipedia (en).
"Marco Polo". Wikipédia (pt).

Alguns textos de As Cidades Invisíveis:
[ As cidades e a memória. 1. | As cidades e o nome. 4. | As cidades e os sinais. 1. ]

Amadeo na Gulbenkian

"Diálogo de Vanguardas" (ou "Diálogos de Vanguarda", como, curiosamente, surge em alguma documentação alusiva ao evento) é uma grande exposição da obra de Amadeo de Souza-Cardoso, cruzada com a de 36 artistas internacionais seus contemporâneos, num total de cerca de 260 obras.
Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918) viveu em Paris, entre 1906 e 1914, período durante o qual produziu uma parte significativa da sua obra, a que se referia nos seguintes termos:

«Eu não sigo escola alguma. As escolas morreram. Nós, os novos, só procuramos agora a originalidade. Sou impressionista, cubista, futurista, abstraccionista? De tudo um pouco» (entrevista ao jornal O Dia, 04/12/1916).
Variou freneticamente entre escolas e técnicas diferentes e deixou obra considerável, apesar da sua morte prematura.
Visitei a exposição no sábado passado, de manhã, felizmente, porque à tarde mal se podia entrar. Está patente no edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, até 14 de Janeiro de 2007 (15, segundo alguma documentação). Quem a visitar a partir deste fim-de-semana pode sempre aproveitar e dar uma volta pela Festa dos Livros, que o Natal está mesmo aí.


Desenho (Três Nus Femininos), 1910
Grafite sobre papel, 33,5 x 26,5 cm
Lisboa, Colecção CAMJAP/FCG



Os Galgos, c. 1911
Óleo sobre tela, 100 x 73 cm
Lisboa, Colecção CAMJAP/FCG



Le Bain des Sorcières, c. 1911-1912
(Desenho original para o álbum XX Dessins, 1912)
Tinta-da-china sobre papel, 32 x 25 cm
Lisboa, Colecção CAMJAP/FCG



Avant la Corrida, c. 1912
Óleo sobre tela
Lisboa, Colecção CAMJAP/FCG



Arvoredo, c. 1912
Óleo sobre cartão, 34 x 27,5 cm
Lisboa, Colecção CAMJAP/FCG



Procissão Corpus Christi, 1913
Óleo sobre madeira, 29 x 50,8 cm
Lisboa, Colecção CAMJAP/FCG



Oceano Vermelhão Azul (Continuidades Simbólicas)
Rouge Bleu Vert
, c. 1915
Aguarela sobre papel, 25,2 x 19 cm
Lisboa, Colecção CAMJAP/FCG



Pintura (Brut 300 TSF), c. 1917
Óleo sobre tela, 86 x 66 cm
Lisboa, Colecção CAMJAP/FCG

Balão sobe

 
 
 
 
 
 

10º Festival Internacional de Balões de Ar Quente do Norte Alentejano
5-12 Novembro 2006
Organização Publibalão


Dia 8, de manhã cedo, em Fronteira. Montar o equipamento, encher os balões, embarcar e levantar voo.
Acompanhámos uma equipa belga, a participar neste festival pela décima vez. Havia cerca de 30 balões no evento: algumas equipas portuguesas, em maior número espanholas, francesas, belgas, holandesas, britânicas e uma australiana.
As equipas desdobram-se em duas frentes: a do ar e a do suporte terrestre. No nosso balão, que tinha um cesto razoavelmente grande, éramos cinco a bordo, mais três botijas de propano. A equipa 5, com um cesto mais pequeno, levava três pessoas; o balão vermelho e branco não tinha cesto: tinha um único tripulante, sentado numa cadeira, sobre duas botijas.
O piloto controla tudo: as descargas de gás, que regulam o aquecimento do ar e, consequentemente, a altitude; as cordas do leme, o GPS e o contacto de voz com o solo.
No primeiro impulso, subimos até uma altitude de cerca de 1000 metros, atravessando as nuvens. Ao contrário do que sucede dentro de um avião, num balão estamos directamente expostos às condições climatéricas: sentimos nitidamente a humidade fria das nuvens, a pressão nos ouvidos, a deslocação do ar, o silêncio, o cheiro do propano queimado, o calor directo do sol e o da chama sobre a cabeça.
Depois descemos até uma altitude mais aceitável, que variava entre os 400 e os 250 metros, a uma velocidade de cruzeiro de 9 nós, aproximadamente 18 km/h. O nosso piloto disse-nos que já chegou a atingir os 60 km/h, tudo depende do vento (um balão pode até ser muito mais veloz).
A manhã estava bonita, quente, com pouco vento, mas, pelo menos, tinha parado de chover. Tínhamos as melhores condições desde o início do festival: apesar de não se poderem atingir grandes velocidades, não havia turbulência e a viagem foi muito agradável.
Estivemos cerca de uma hora e meia no ar, a observar, em baixo, os campos molhados, as ribeiras que corriam furiosas e os outros balões, que coloriam os ares. A cada descida, eram os cães que ladravam à nossa proximidade, as ovelhas que se agrupavam em rebanho e fugiam, as galinhas das quintas que esvoaçavam espavoridas.
Andámos ainda algum tempo a rasar oliveiras, carregadinhas de azeitona preta, e azinheiras, à procura de um bom local para aterrar (e, consequentemente, a aterrorizar a fauna local). Os campos estavam demasiado enlameados e não nos queríamos atascar. Por outro lado, um bom local de aterragem tem de ser plano, limpo de árvores e próximo de uma estrada, de modo a que a equipa terrestre nos possa alcançar facilmente, minimizando assim o esforço no transporte do equipamento para o carro. O melhor que encontrámos ainda ficou a uns 20 metros da estrada, perto de Ervedal.
A aterragem é mais violenta que a de um avião: agarramo-nos às cordas internas do cesto, flectimos os joelhos e preparamo-nos para o impacto e para tombar para o lado, porque o equipamento termina exactamente na mesma posição do início.
Depois é sair e começar a desmontar o material. O balão tem de ser esvaziado, enrolado e enfiado dentro de um saco enorme. De vez em quando, sentamo-nos todos em cima dele, como num pufe, para expulsar os restos de ar. É um trabalho de equipa muito divertido. O saco fica muito pesado, com aquelas dezenas de metros quadrados de tecido, e são precisas seis pessoas para o conseguirem transportar, uma a pegar em cada alça. O cesto, de madeira e vime, também é muito pesado. Pelo menos as botijas chegam vazias.
Depois de tudo carregado no atrelado, uma pausa para descansar e contar histórias, ao som de sandes mistas e cervejas, que os belgas não fazem a coisa por menos. E depois voltar, por estrada, ao local de onde partimos.
Foi uma experiência fantástica, e o condimento imprescindível para sobreviver a uma semana de trabalho alucinante. Agora já sei: para o ano há mais, em Novembro, entre Cabeço de Vide, Fronteira, Sousel, Crato e Alter do Chão. É só olhar para cima. Ou melhor, novamente para baixo.

Bus stop



'What's that line for?'
'That line? You might say that this line here is a history of my life up till now.'



'Anyway, that's how I got my direction and all.'
'Direction?'
'Oh sure! If you don't have a direction you just keep going round in circles.'

Marilyn Monroe e Eileen Heckart, no filme de Joshua Logan, Bus Stop,
Twentieth Century Fox Film Corporation, 1956.

Hora de Inverno

 

Ontem, por esta hora, estava em Lisboa, naquele bar simpático, na Bica, que se estende por dois andares de esplanadas, com uma vista sublime sobre o Tejo, a Ponte 25 de Abril, o percurso incansável dos cacilheiros, a Lisnave, Cacilhas, Almada e uma cascata de telhados e antenas de televisão, prédios devolutos e casas recuperadas, ruas estreitas e muito horizonte.
Ontem, por esta hora, estava em Lisboa, naquele bar simpático, cheio de pessoas simpáticas, que fazem fila à espera de lugar, na plateia ou no 1º balcão, confiantes de que a grade providencial as isola da multidão de alcoólicos, toxicodependentes, sem-abrigo, cães, excrementos, polícias decorativos e turistas que povoa o miradouro do Adamastor, e lhes permite continuarem a sentir-se simpáticas.
Ontem, por esta hora, como todas as pessoas simpáticas que lá estavam, admirava o pôr-do-sol, as tonalidades avermelhadas do céu e as luzinhas que, gradualmente, se iam acendendo pela cidade. Pensei na sorte que tínhamos em poder usufruir de um fim de tarde tão bonito, depois de uma semana de temporais, e lembrei-me de que, com sol ou sem ele, hoje ia anoitecer uma hora mais cedo.

Gaivota



Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.



Letra de Alexandre O'Neill, música de Alain Oulman, interpretação de
Amália Rodrigues, Fado Corrido, EP 45 RPM, Columbia, 18-10-1964
(também em Fado Português, LP 33 RPM, Columbia, 1965).

Sete naves



Vejo um rio
Vejo destroços de metal a flutuar
Vejo um rio, provavelmente o Tejo
Desejo de me afundar
O Sado a sede sinos sinetas, ao acordar
Vejo um istmo, isco com ritmo
Páro de martelar

Vejo os meus dedos metálicos frios
Vontade de enferrujar
Vejo limalhas de ferro macio
Volumes por carregar
Vejo estas veias estalando, artérias por soldar
Vejo nuvens ricas de carbono - diáfanas
D'envenenar

As naves que eu construo
Não são feitas para navegar
Aguentam a violência de um beijo
Mas nunca a do mar

As vagas onde elas vogam
Fundem-se com o ar
Vão e vêm voltam-se devagar

As naves que eu construo
Não são feitas para navegar
Aguentam a violência de um beijo
Mas nunca a do mar

As vagas onde elas vogam
Fundem-se com o ar
Vão e vêm se se voltam devagar
Letra e música de Rui Reininho, Alexandre Soares, Jorge Romão e Toli, interpretação de
GNR, Os Homens Não Se Querem Bonitos, EMI - Valentim de Carvalho, 1985.

As cidades e os sinais. 1.


Ginza, Tóquio

O homem caminha durante dias pelo meio de árvores e pedras. Raramente o olho se detém sobre alguma coisa, e só quando a reconhece pelo sinal de outra coisa: uma pegada na areia indica a passagem do tigre, um pântano anuncia um veio de água, a flor do hibisco o fim do Inverno. Tudo o resto é mudo e intercambiável; árvores e pedras são só o que são.
Finalmente a viagem conduz à cidade de Tamara. Entra-se nela por ruas pejadas de letreiros que sobressaem das paredes. Os olhos não vêem coisas mas sim figuras de coisas que significam outras coisas: a tenaz indica a casa do arranca-dentes, a garrafa a taverna, a alabarda o corpo da guarda, a balança romana a ervanária. Estátuas e escudos representam leões golfinhos torres estrelas: sinal de que qualquer coisa - sabe-se lá o quê - tem por símbolo um leão ou golfinho ou torre ou estrela. Outros sinais avisam do que num local é proibido - entrar no beco com as carroças, urinar atrás do quiosque, pescar com cana do alto da ponte - e do que é lícito - dar de beber às zebras, jogar à bola, queimar os cadáveres dos parentes. Da porta dos templos vêem-se as estátuas dos deuses, representados cada um com os seus atributos: a cornucópia, a clepsidra, a medusa, pelo que o fiel pode reconhecê-los e dirigir-lhes as orações certas. Se um edifício não tiver nenhum letreiro ou figura, a sua própria forma e o lugar que ocupa na ordem da cidade bastam para indicar a sua função: o palácio real, a prisão, a fundição da moeda, a escola de aritmética, o bordel. Até as mercadorias que os vendedores põem em exposição nas bancas valem não por si próprias mas como sinais de outras coisas: a fita bordada para a fronte quer dizer elegância, a liteira dourada poder, os volumes de Averróis sapiência, a pulseira para o tornozelo volúpia. O olhar percorre as ruas como páginas escritas: a cidade diz tudo o que devemos pensar, faz-nos repetir o seu discurso, e enquanto julgamos visitar Tamara limitamo-nos a registar os nomes com que ela se define a si mesma e todas as suas partes.
Como realmente é a cidade sob este denso invólucro de sinais, o que ela contém ou oculta, o homem sai de Tamara sem tê-lo sabido. Fora dela espraia-se a terra vazia até ao horizonte, abre-se o céu por onde correm as nuvens. Na forma que o acaso e o vento dão às nuvens o homem fica logo absorvido a reconhecer figuras: um veleiro, uma mão, um elefante...

Texto de Italo Calvino, Le città invisibili, Torino: Einaudi, 1972
(tradução portuguesa de José Colaço Barreiros, As cidades invisíveis, Lisboa: Editorial Teorema, 2003, pp. 17-18).

La vuelta al día en ochenta mundos


Bogdan Konopka, Pekin / Beijing, China, 2004, p. 25.

Para empezar habría que decir que viajar no es sinónimo de ir de vacaciones, sino que viajar es la acción de trasladarse de un punto a otro, lo suficientemente lejanos entre sí. Es decir, que esa idea contemporánea de unir términos como viajar y placer es algo propio de una burguesía cada vez más alta. De hecho, casi podríamos decir que considerar un placer el hecho de viajar es cada vez más difícil. Otra asociación equivocada es la de viajar y la aventura, aunque tendríamos que admitir también que aventura y diversión, placer o logro, no son necesariamente lo mismo. Una aventura puede ser una serie de desgraciadas peripecias nada venturosas. Y en este sentido sí que podemos admitir que viajar es casi siempre una aventura, porque los problemas, inconvenientes y desatinos que se producen en cualquier viaje son directamente proporcionales al tiempo que se dedica al viaje, a la distancia que se recorre y a los medios económicos que se invierten. Y, por supuesto, a los motivos que nos muevan u obliguen a viajar.


Peter Fischli / David Weiss, Airport Rio, Air France, Jumbo, 1989/2000, p. 42.

Esto es como decir que viajar por mar no es necesariamente hacerlo en un crucero de lujo o en un yate propio, sino que suele ser más frecuente hoy en día hacerlo en patera o en un neumático a medio hinchar. Viajar por carretera es diferente con un coche con aire acondicionado y buen motor que hacerlo de polizón en los bajos de un camión. En fin, que hay tantas formas de viajar como causas para hacerlo pero, curiosamente, en las sociedades civilizadas el viajar se ha convertido en un signo de bienestar económico, de agilidad cultural y de forma de vida correcta. Si después de unas vacaciones no se tiene un viaje que contar estaremos fuera de todas las charlas en la oficina o entre los amigos y familiares. Y ojo, como el viaje sea en tu propio país, como no hayas visitado lugares de nombres imposibles y difíciles de encontrar en el mapamundi, ya puedes aducir algún eximente tal como curiosidad cultural, exceso de trabajo, los niños estaban enfermos, algún tipo de promesa, un virus contagioso… o admitir directamente que con este calor ir al Caribe para, después de los tifones, encontrarte con el vecino de abajo, o el camarero del bar donde desayunas, o tu propio jefe, tonteando en la misma playa que tú, no te parecía un buen plan. Que, tal vez, no te interesa hacer alpinismo, trekking, dormir en el suelo, no lavarte en semanas, comer cosas innombrables, acabar con las fuerzas que te quedaban antes de las vacaciones y endeudarte para todo el año visitando las montañas del Nepal durante diez días. Es una cuestión de opiniones, pero ahora viajar es prácticamente sinónimo de vacaciones y, ¡Dios mío¡ de turismo.


Jacques Fournel, Internacional Airport, Bangkok, Thaïland, 1983, p. 29.

En la antigüedad el viaje significaba un cambio permanente de lugar. No se recorrían miles de kilómetros para estar solamente unos días y volver a casa a contarlo con fotos digitales y vídeo de acompañamiento. Naturalmente la evolución de los medios de transporte tiene mucho que ver con esta facilidad, pero sobre todo ese cambio conceptual de considerar que realmente podemos ir a cualquier sitio, generalmente sin alterar nuestra forma de vivir, de relacionarnos con la gente ni con los lugares. Una frivolización de la diferencia que se integra en la idea de globalización y que gira sobre sí misma: si queremos vivir igual, hablar el mismo idioma y comer lo mismo en cualquier parte del mundo, cada vez tiene menos sentido moverse.
La idea de viaje estaba ligada a la de invasión, emigración y exilio, dependiendo de las culturas y los momentos históricos. Y las condiciones y consecuencias de esos grandes viajes, de los cuales se hacía uno en la vida y su huella duraba ya para siempre, eran muy diferentes de los viajes de tour operador que se hacen en la actualidad. Sin embargo, hoy en día, en tiempos de mixtificación, en la misma playa en la que toman el sol y descansan gentes venidas de lejanos países del Norte, después de largos viajes preparados cuidadosamente, encontramos los restos de las pateras que han traído desde el Sur gentes que buscan cambiar sus vidas, al menos sobrevivir de un viaje inevitable pero temido. Sin duda, el viaje de su vida.


Rivka Rinn, Echo, 2001, p. 95.

Desde Phileas Fogg o el Capitan Cook, entre los grandes viajeros, aventureros que descubrían islas y continentes sin despeinarse, rodeados de criados y baúles con sus equipajes, que podían encontrarse casualmente en el África negra y saludarse cortésmente, hasta los actuales mochileros, turistas y domingueros del "todo incluido", no sólo hay años de diferencia sino siglos de evolución cultural. En otros tiempos un viaje transoceánico era algo que muy pocos - excepto en caso de guerra - se planteaban hacer y ahora mandamos a nuestros hijos adolescentes, solos, hasta el otro extremo del mundo a que perfeccionen el idioma en las vacaciones de verano.
Viajar se ha convertido en algo cotidiano. Y sin duda en esta democratización del viaje todos hemos ganado en posibilidades de mejora de vida, excepto los que sólo reciben viajeros, los habitantes de paraísos culturales que viajeros en masa destrozan y humillan no sólo con su presencia, sino con una ignorancia que no ha desaparecido con todos los avances de unas sociedades que todo lo pueden, sino que se incrementa al mismo ritmo del desprecio con que tratan a los habitantes de otras culturas y otros mundos. Igualmente, para destacar en esa "democratización viajera" y como si fuera un juego olímpico, cada vez debemos ir más lejos, más rápidos, ser más originales. El placer silencioso y lento del viaje se va perdiendo tan rápidamente como el concepto de calidad de vida.


José Manuel Navia, Hotel Penn, Nueva York, 1995, p.50.

Pero tal vez deberíamos volver a empezar y afirmar que el viaje es un estado interior, que más allá de ir a otro lugar, el viaje significa una transición, un aprendizaje. Hubo un tiempo en el que los viajeros buscaban aprender algo, sobre ellos mismos casi siempre, y en los que el viajar era una etapa de madurez, de conocimiento, de independencia, una prueba de vida. Viajar es algo que podemos hacer en nuestra casa, con los ojos cerrados, podemos desplazarnos a mundos ignotos, a tiempos lejanos. Viajar en el tiempo y el espacio, saber que el paraíso puede estar en nuestra terraza y que tal vez lo que encontremos en el fin del mundo sea solamente a nosotros mismos.
Viajar como escapada, como huida, "la escapada del verano", "la huida de la ciudad, de lo cotidiano", pero sobre todo huida de nosotros mismos, de nuestros problemas. Es también una forma de inmersión en lo desconocido deseando que un entorno nuevo y distinto sea suficiente para olvidarnos de nosotros mismos y nuestros problemas. Sin darnos cuenta de que el auténtico viaje es la vida y que cada día es una etapa, una pequeña excursión. Y este viaje cada uno elige cómo hacerlo; alguno elige una agencia de viajes para organizarlo, otros van por su cuenta, unos a pie, otros en avión. Cada salida, cada llegada, los recuerdos, la experiencia que almacenamos es el único equipaje, la única historia.
Séneca le escribía a su discípulo más querido, Lucilio, una epístola en contra del viaje: Para qué quieres viajar, irte tan lejos, si adonde quiera que vayas siempre irás contigo mismo.


Jeff Wall, Overpass (pormenor), 2001.

Editorial de Rosa Olivares, Exit #19 - Viajes, Madrid: Olivares y Asociados, Agosto 2005 / Octubre 2005, pp. 16-17.