Memória futura (30)


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

Saímos da Praça Municipal, em direcção ao Terreiro de Jesus, atravessando a Praça da Sé. Depois da Igreja da Misericórdia, um miradouro e um monumento moderno (que não fotografei), a Cruz Caída (1999), que assinala a demolição da antiga catedral. É da autoria de Mário Cravo, artista que, como o mundo é pequeno, foi aluno, em Nova Iorque, do mestre croata Ivan Meštrović, de quem já aqui falei.
Mais adiante, em frente ao Palácio Arquiepiscopal, o Monumento ao Bispo Sardinha (1944), com busto em bronze de Pasquale de Chirico e, no pedestal, uma placa com a reprodução em relevo de uma fotografia da antiga Sé.





D. Pedro (ou Pero) Fernandes Sardinha foi uma figura histórica bastante controversa. Nascido em Setúbal ou Évora, em 1496 ou 1497, fez os seus estudos na Universidade de Paris, onde teria sido colega de Inácio de Loiola. Diplomou-se em Teologia (ca. 1528) e terá ensinado nas Universidades de Coimbra e de Salamanca. Em 1529, foi nomeado capelão da Igreja de São Sebastião, na Ilha da Madeira; mais tarde, capelão em Lisboa e, finalmente, pregador real no Porto. Em 1545, foi enviado a Goa como deão da catedral, na época de D. João de Castro, Governador e Vice-Rei da Índia. Em pouco tempo, tornou-se vigário-geral da diocese, notabilizando-se pelo seu interesse pela colónia, mas especialmente pelo seu rigoroso controle sobre o clero e pela sua boa relação com os jesuítas. Com a morte do Governador, em 1548, voltou a Portugal, onde retomou os seus estudos de Direito Canónico na Universidade de Coimbra.
Entretanto, o Brasil esteve sob a jurisdição religiosa da Ordem de Cristo, até 1514, e sob a alçada do Bispo do Funchal, até 1551, após o que se tornou sufragâneo da Arquidiocese de Lisboa. No dia 25 de Fevereiro de 1551, foi criada a Diocese de São Salvador da Bahia, pela bula Super specula militantis Ecclesiae, do Papa Júlio III, que designava como primeiro bispo Pedro Fernandes Sardinha, com jurisdição efectiva sobre toda a colónia. Ordenado pelo Arcebispo de Lisboa, D. Fernando de Menezes Coutinho e Vasconcelos, em 7 de Fevereiro de 1552, partiu em Março para o Brasil, tomando posse, na cidade do Salvador, no dia 22 de Junho de 1552, com 55 anos.
A sua impressão sobre a colónia foi péssima: sentiu-se decepcionado e repugnado pela conduta imoral dos cerca de mil habitantes, pelas precárias condições de vida e pelo tamanho diminuto da sua diocese. Rapidamente, entrou em conflito com o Governador-geral, D. Duarte da Costa, e com os jesuítas. Nomeadamente, o bispo acusava o governador de abuso de poder e de tolerar "violências, homicídios, escândalos e desabono dos lares" atribuídos ao seu filho, Álvaro da Costa, e seus companheiros, além do seu apoio à intenção do filho de escravizar os indígenas, incluindo os catequizados. Enfurecido, o bispo informou, por carta, o rei D. João III de que, a seu ver, Duarte da Costa não reunia as condições necessárias para o cargo, uma vez que seria o filho quem, efectivamente, dava as ordens na colónia.
Aos jesuítas, criticava, por um lado, a tolerância em relação aos costumes indígenas e a forma adaptada como catequizavam os índios, e pôs como condição que estes falassem português e tivessem, pelo menos, uma aparência europeia antes de serem baptizados. Por outro lado, indignava-o que o clero fizesse vista grossa ao adultério e à promiscuidade que grassava entre portugueses e índias. Foi assim que, apesar de ser um excelente pregador e um bispo zeloso que fundou o primeiro seminário no Brasil, escreveu o regimento para o clero da sua diocese, erigiu uma residência episcopal e iniciou a construção de uma catedral, depressa teve problemas com o cabido. O conflito atingiu o auge quando agrediu dois clérigos que lhe desobedeceram e quando excomungou as autoridades civis que se aliaram ao seu cabido contra ele. A situação chegou a um ponto que foi obrigado a zarpar para Lisboa, em 2 de Junho de 1556, na nau Nossa Senhora da Ajuda, não se sabe ao certo se para apresentar mais queixas ao rei, ou se foi este que o mandou chamar, para acalmar os ânimos. O que se sabe é que não passou da costa brasileira: no dia 16 de Junho, o navio naufragou, junto à foz do rio Coruripe, na então Capitania de Pernambuco, actual estado de Alagoas.
O que depois aconteceu, não se sabe com certeza, e é da ordem do mito. A versão oficial, relatada por Frei Vicente do Salvador, na sua História do Brasil (1627), com base no testemunho de três sobreviventes do naufrágio, é a de que cerca de uma centena de passageiros conseguiu salvar-se e nadar para terra, onde foram capturados pelos índios caetés, antropófagos, que, no arroio de S. Miguel das Almas, os mataram e comeram, deixando o bispo para o fim, que assim pôde, heroicamente, encorajar e confortar os seus companheiros de infortúnio. Se não é verdadeira, é uma boa história, e conveniente, já que os caetés eram aliados dos comerciantes franceses e inimigos dos portugueses. Na época, o incidente provocou a ira da Igreja Católica e da Inquisição. Em 1562, depois de serem acusados de devorar o bispo, os caetés foram considerados "inimigos da civilização" e tornaram-se alvos de implacável perseguição pelo Governador Mem de Sá, que determinou que fossem "escravizados todos, sem excepção".
Actualmente, esta narrativa é posta em causa. Alguns historiadores sustentam que as ditas testemunhas podem ter acusado falsamente os caetés, para provocar a sua perseguição e a consequente expropriação das suas terras, considerando mais provável que os canibais do bispo tivessem sido os tupinambás, que, naquela época, habitavam a foz do rio São Francisco, próximo do local do naufrágio. Outros historiadores, contudo, consideram plausível a responsabilidade dos caetés, dado o seu estado extremamente beligerante após a sua expulsão de Olinda pelos portugueses. Porém, mesmo aceitando que os caetés tenham matado o bispo à marretada, parece-lhes fantasioso ou exagerado que o tenham comido. Outros, ainda, acreditam que o bispo tenha sido vítima de um plano de vingança de Duarte e Álvaro da Costa, que poderiam ter tramado o homicídio, aproveitando para incriminar os caetés. O que se sabe é que a morte do bispo Sardinha serviu de pretexto aos portugueses para iniciarem uma guerra contra os indígenas. Em cinco anos de conflito, exterminaram os cerca de 80 mil caetés e colonizaram a região que eles tinham habitado.

Heavens above (92)




Vilnius (Lituânia), Março de 2026


Frankfurt am Main (Alemanha), Março de 2026










Portalegre, Março de 2026

Ideogramas mágico-religiosos


Juromenha (Alandroal), Janeiro de 2026

A religiosidade alentejana, em sentido lato, está muito patente nos elementos decorativos usados para protecção das casas, que vão desde os painéis hagiográficos até uma grande variedade de símbolos com função apotropaica, ou seja, que visam afastar o mal. Geralmente, encontramo-los junto às aberturas para o exterior, como portas, janelas e chaminés. Não lhes tenho prestado grande atenção (salvo esta magnífica decoração, em Vaiamonte), mas, já há tempos, deixei-me fascinar pela investigação de Luís Lobato de Faria. Em Juromenha, tive a sorte (sim, porque não levava o passeio planeado e não sabia que, todos os domingos de manhã, há visitas guiadas gratuitas à fortaleza) de encontrar o Luís e de poder usufruir do seu vasto conhecimento. Foi com ele que explorei os ideogramas mágico-religiosos da Igreja de Nossa Senhora do Loreto (aqui, na Figura 25) que agora mostro.
O nicho (antiga janela?) acima está protegido por duas rosetas hexapétalas. Abaixo, sobre uma porta, a cruz da Ordem de Avis (um tipo de cruz florenciada, com quatro flores-de-lis nas extremidades dos braços), acompanhada por dois lauburus (conhecidos como cruz basca ou tetrasquel, um tipo de suástica), quatro dos quais protegem os quatro cantos de uma janela.







Já na ombreira de outra porta se encontra o que parece ser uma cruz pátea (também cruz patada, um tipo de cruz templária ou cruz de Malta), dentro de um círculo, e um pentáculo (pentagrama, ou estrela de cinco pontas, dentro de um círculo).





Os símbolos representados são muito antigos (alguns deles remontam à Idade do Bronze) e a todos se atribuem propriedades mágicas de protecção contra o mal. Mas disto percebe mais o Luís Lobato de Faria, a quem muito agradeço a visita fora do horário e as valiosas explicações.

Memória futura (29)
















Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

Todas da Praça do Município, maioritariamente, nas paredes do Palácio Rio Branco.

Uma coleccionista à solta em Juromenha
























Juromenha (Alandroal), Janeiro de 2026

Como eu dizia, é uma pequena vila que tem tudo o que devia ter, sobretudo, para me fazer feliz.

Cidade alta


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

A cidade do Salvador foi construída como uma das primeiras cidades planeadas no mundo, seguindo o modelo de urbanização adoptado por várias cidades costeiras portuguesas, a saber: escolha de sítios elevados para a implantação dos núcleos defensivos; estruturação da cidade em dois níveis (a cidade alta, institucional e política, e a cidade baixa, portuária e comercial); cuidadosa adaptação do traçado das ruas às características topográficas locais; um perímetro de muralhas que não acompanhava o tecido construído, mas que se adaptava às características do terreno; e uma concepção de espaço urbano em que os edifícios públicos, civis ou religiosos, localizados em pontos proeminentes e com uma arquitectura mais cuidada que os destacava na malha urbana, tinham um papel estruturante fundamental na organização da cidade. A cidade alta de Salvador, construída num sítio elevado sobranceiro à Baía de Todos os Santos, foi uma cidade planeada segundo um traçado que, se por um lado, se adaptava às características topográficas do terreno e a um perímetro de fortificações de forma trapezoidal, por outro lado, era constituída no seu interior por quarteirões sensivelmente rectangulares. Daqui resultava uma malha regular, mas não perfeitamente ortogonal (adaptado de "As Formas Urbanas das Cidades de Origem Portuguesa", citado aqui).



Quando, em 1549, Tomé de Sousa, primeiro Governador-geral do Brasil (1549-1553), fundou a cidade de São Salvador da Baía de Todos os Santos, escolheu o sítio pela sua localização estratégica: elevada, próxima do porto e com uma barreira natural, constituída por um acidente geológico que funcionava como uma verdadeira muralha defensiva de 90 metros de altura por 15 quilómetros de extensão. O núcleo de onde irradiou a cidade situava-se no cume da elevação, onde foram construídos os edifícios administrativos. Corresponde hoje, grosso modo, à Praça Municipal (oficialmente, Praça Thomé de Souza).







Monumento de homenagem a Tomé de Sousa, encimado por uma réplica em bronze da estátua da autoria do escultor italiano Pasquale de Chirico. Na base, várias placas que evocam as figuras principais da fundação de Salvador.
Esse primitivo núcleo da cidade foi executado pelo arquitecto militar Luís Dias, nomeado, em 1549, "Mestre da Fortaleza e Obras de Salvador". Era rodeado por uma cintura de muralhas, em taipa, que possuía duas portas: a de Santa Catarina, ao Norte, e a de Santa Luzia, ao Sul, flanqueadas por baluartes com pontes levadiças sobre os fossos circundantes, ao estilo medieval.

Excerto do mapa de Salvador em 1551, elaborado por Theodoro Sampaio (reproduzido aqui). Pode ver-se, na extrema esquerda, fora de portas, a área doada por Tomé de Sousa aos jesuítas, liderados pelo padre Manuel da Nóbrega, que aí fez construir uma primeira capelinha de taipa e o primeiro edifício do Colégio dos Jesuítas da cidade. No mapa, a área é referida como "Conjunto dos Jesuítas".
Porém, em 1587, os muros de taipa estavam em ruínas, por falta de manutenção, pelo que, em 1605, foi desenhada uma nova muralha, em alvenaria, que envolvia uma área três ou quatro vezes maior que a original. No centro da nova expansão urbana, desenvolvida ao longo da segunda metade do século XVII, situavam-se o Colégio dos Jesuítas e o Terreiro de Jesus. Na secção Norte da muralha, abria-se a Porta do Carmo, assim chamada por dar acesso ao caminho conducente ao Convento do Carmo. A partir de 1613, foi aí construída uma bateria, conhecida como Castelo das Portas do Carmo, que ficava no que é hoje o Largo do Pelourinho. João de Lencastre, Governador-geral do Brasil (1694-1702), ordenou a construção do hornaveque e do reduto a cavaleiro, que defendia a porta exterior, brasonada ao alto com as armas da cidade. Apresentava-se como uma "soberba plataforma com dois baluartes", onde diariamente permanecia de guarda uma companhia. A estrutura terá sido demolida no tempo de Rodrigo José de Meneses e Castro, Governador da Capitania da Bahia entre 1784 e 1788 (uma descrição detalhada da fortificação de Salvador pode ser encontrada no dossier elaborado como suporte à proposta de inscrição do Centro Histórico da Cidade de Salvador na Lista do Património Mundial da UNESCO, disponível aqui).



A Casa da Câmara foi inaugurada em 13 de Junho de 1549, numa construção de taipa e palha que reunia os poderes executivo, judiciário e legislativo. Em 1551, foi construída, pelo mestre Luís Dias, nova Casa de Câmara e Cadeia, feita com pedra, cal, barro e coberta com telhas. Nos pisos térreo e subterrâneo, funcionavam a cadeia, com celas e enxovias, açougues e mercado. Em 1660, o governador Francisco Barreto de Menezes deu início a uma reforma que concedeu à Câmara a imponência que deveria ter um edifício público da sua importância. Alguns anos depois, em 1696, foi construída uma torre, onde foi instalado um sino, resultando na actual estrutura arquitectónica do edifício, derivada do maneirismo português do século XVII, ou estilo-chão. Em 1885, a fachada original foi profundamente alterada, para se adequar ao estilo artístico vigente, ganhando um aspecto neo-renascentista, e o velho sino deu lugar a um relógio eléctrico. Porém, em 1970, foi restituída a antiga fachada, convertendo o Paço da Câmara Municipal num dos mais importantes exemplares da arquitectura civil colonial brasileira. Lamentavelmente, no início da tarde do dia 24 de Fevereiro de 2025, um incêndio, que começou no ar condicionado do Salão Nobre, atingiu parte do edificado.



Também no tempo de Tomé de Sousa, em meados do século XVI, começou a ser construído, igualmente em taipa, o Paço do Governador, para ser o centro da administração portuguesa. Posteriormente, sofreu alterações e ampliações, e teve várias funções, como quartel e prisão. No fim do século XIX, foi submetido a uma profunda reforma, concluída em 1900, que lhe conferiu um nobre e imponente estilo neo-clássico, ao gosto francês. Porém, em 10 de Janeiro de 1912, o palácio foi atingido pelo bombardeio da cidade e ficou praticamente em ruínas. Foi reconstruído e reinaugurado em 1919, com o nome de Palácio Rio Branco, em homenagem a um dos maiores estadistas brasileiros, o Barão do Rio Branco. Em 1984, foi feita uma restauração completa do edifício, devido ao péssimo estado de conservação em que se encontrava. Actualmente, encontra-se fechado para nova reforma.
Na foto, à esquerda do Palácio Rio Branco, pode ver-se parte da fachada do Palacete Tira-Chapéu, um dos poucos remanescentes e um dos mais importantes exemplares do estilo eclético em Salvador.
Ainda na Praça Municipal, encontra-se o chamado Palácio Tomé de Sousa, sede da Prefeitura Municipal de Salvador, projectado pelo arquitecto João Filgueiras Lima e construído e inaugurado durante o mês de Maio de 1986. Consiste numa estrutura de aço e vidro, com uma área de 2 mil metros quadrados, que não fotografei, porque não lhe achei graça nenhuma. Agora, conhecendo a sua história, lamento não o ter feito.
A Prefeitura Municipal de Salvador funcionava no Palácio Rio Branco que, na década de 1980, fechou para obras. Então, foi solicitado o projecto de um edifício desmontável que abrigaria, provisoriamente, a Prefeitura, cujo destino final seria um dos casarões abandonados da zona. No entanto, quatro décadas depois, a construção provisória tornou-se a sede duradoura do órgão máximo do Poder Executivo da primeira capital do Brasil. Porém, devido à sua incompatibilidade arquitectónica com o entorno histórico-colonial declarado património, a construção foi alvo de uma acção judicial com vista à sua remoção. Por decisão da Justiça, o prazo para a desmontagem já terminou, pelo que o edifício deverá sair do local a breve trecho.



A Praça Municipal constitui a principal entrada turística no Centro Histórico, pois é aí que vai dar a subida do Elevador Lacerda, o primeiro elevador urbano do mundo, inaugurado em 8 de Dezembro de 1873, ligando a Cidade Baixa e a Cidade Alta. Chegados ao topo, come-se um gelado da Cubana, enquanto se usufrui da belíssima vista sobre a baía e a Cidade Baixa, com o Mercado Modelo aos nossos pés.