Igreja da Ordem Terceira de São Francisco


Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025

Do lado esquerdo do complexo constituído pela Igreja e Convento da Ordem Primeira de São Francisco, encontra-se a Igreja da Venerável Ordem Terceira da Penitência do Seráfico Padre São Francisco da Congregação da Bahia, cuja construção teve início em Janeiro de 1702, sob projecto atribuído ao mestre Gabriel Ribeiro. Destaca-se, no conjunto, pela opulência da sua fachada em estilo barroco de inspiração espanhola (com características de churrigueresco, ou barroco mexicano), única no Brasil.



A igreja é um templo de nave única, com planta inspirada em modelo jesuítico amplamente difundido em toda a arquitectura religiosa brasileira. A decoração interna primitiva, em estilo barroco, foi substituída na sua maior parte, entre 1827 e 1828, por seis altares laterais e uma capela-mor em estilo neoclássico com talha dourada, que constituem o principal trabalho do mestre entalhador José de Cerqueira Torres, ainda em excelente estado de conservação. De sua autoria são também a talha das tribunas, do arco do cruzeiro, da caixa do órgão, dos púlpitos, da grade do coro e os caixotões do tecto da nave. A douração foi contratada, em 1830, com Franco Velasco, a quem são também atribuídas as pinturas do tecto da nave, inseridas nos caixotões. A igreja foi reconsagrada e reaberta em 4 de Julho de 1835. Uma belíssima colecção de fotografias dos detalhes do interior da igreja, de Rogério P. D. Luz, pode ser vista aqui e aqui.





Entre as várias dependências da igreja dignas de visita, contam-se a sacristia, o museu e a Sala da Mesa (imagem acima), onde se reuniam os membros da confraria da Ordem Terceira, ao redor de uma enorme mesa e cadeiras em madeira de jacarandá. Evidencia-se também o trono usado pelo rei D. João VI e pelos imperadores D. Pedro I e D. Pedro II. Porém, o principal destaque vai para o grande acervo de azulejos portugueses, distribuídos por vários espaços do complexo, como as galerias, corredores e claustro, vindos de Portugal, e que retratam Lisboa antes do terramoto de 1755 e cenas do cortejo do casamento do infante Dom José e Dona Mariana Victoria de Bourbon, em 1729.

Os painéis mostram-nos o dia-a-dia no rio Tejo – os barinéis, os batéis, embarcações a remos e à vela e naus de três mastros, com pavilhões portugueses e holandeses – e na zona ribeirinha, enquadrada pelas colinas da cidade, edifícios com tectos cónicos, coches, grupos de nobres, membros do clero, a tropa com os chuços e as lanças em riste, o Arco dos Ingleses e o Arco dos Medeiros, o Palácio do Conde de Eiras e, em primeiro plano, as escadinhas de acesso ao Castelo de São Jorge. Vê-se também a Torre de Belém e, ao seu lado direito, um edifício quadrangular com quatro torres cónicas e uma escadaria frontal. No terreiro adjacente está em parada um batalhão do exército tendo como pano de fundo uma igreja e um mosteiro que só pode ser o Mosteiro dos Jerónimos.






No claustro, além de um relógio solar de 1736, encontramos uma capela dedicada a São Roque e uma impressionante colecção de lápides funerárias, sobre as sepulturas de fiéis endinheirados e dos irmãos da Ordem. Em meados do século XX, a municipalidade interditou essa prática, pelo que foi criado um ossário, numa cripta branca e luminosa.