Cidade Baixa

Salvador (Bahia, Brasil), Agosto de 2025
Como já aqui expliquei, a cidade do Salvador foi, desde a sua fundação, estruturada em dois níveis: a Cidade Alta, institucional e política, e a Cidade Baixa, portuária e comercial.
Após a sua fundação, em 1549, no cimo da escarpa, a cidade começou a expandir-se em direcção ao mar, ocupando uma estreita faixa costeira, o chamado Bairro da Praia, com uma rua comprida que dividia o porto e as casas comerciais. Nascia, assim, a divisão de Salvador em cidades Alta e Baixa. Porém, a ligação entre essas duas partes da cidade sempre foi complicada. Com o tempo, foram abertas ladeiras e caminhos, construídos guindastes e, em 1873, foi inaugurado um dos principais ícones da cidade, o Elevador Lacerda, hoje totalmente integrado na paisagem e no quotidiano do povo soteropolitano.


O centro nevrálgico da Cidade Baixa é a Praça Visconde de Cayru (mais conhecida como Praça Cairu, apesar da actual designação de Praça Maria Felipa), onde se situa a estação inferior do Elevador Lacerda e o antigo prédio da Alfândega, no qual seria reinstalado o Mercado Modelo, depois do incêndio de 1969.


Cidade da Música da Bahia, o museu da música baiana, ao lado do Mercado Modelo
Após vários aterros sobre a Baía de Todos os Santos, foi construído, em 1920, o bairro do Comércio, para concentrar as actividades financeiras da cidade, com sedes de agências de exportação e de câmbio e instituições bancárias e financeiras.

Como principal acesso ao bairro do Comércio, foi projectada, pelo arquitecto Diógenes Rebouças, uma extensa estrada marginal, ao longo da orla costeira, desde o Campo Grande até à Praça Cairu, comummente conhecida como Avenida Contorno. Inaugurada em 1958, foi baptizada como Avenida Lafaiete Coutinho (ou suas variantes Lafayete e Lafayette), em homenagem a Lafayette Coutinho de Albuquerque (1906-1959), médico e Professor Catedrático de Urologia da Faculdade de Medicina da Universidade da Bahia, empresário e deputado estadual e federal, entre outros cargos públicos. A avenida proporciona uma agradável caminhada, ao longo das praias da Baía de Todos-os-Santos, de um lado, e dos muros de contenção da encosta, do outro.

Praia da Preguiça

Comando do 2.º Distrito Naval da Marinha do Brasil

Do outro lado da estrada
Em frente ao Comando Naval, já ao chegar à Praça Cairu, a jóia barroca da Cidade Baixa, a Igreja Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia. A igreja original foi mandada construir por Tomé de Sousa, na altura da fundação da cidade, em 1549. Era uma capela de taipa de pilão, erigida na base da falésia, junto à linha de água. Porém, ao longo dos séculos, os sucessivos aterros para ampliação da zona portuária foram afastando o mar. A primitiva capela foi também substituída por soluções mais robustas. A igreja actual, o terceiro templo construído no local, foi erigida entre 1739 e 1849, mas consagrada em 1767. A edificação, engastada na rocha viva, foi projectada por Manuel Cardoso de Saldanha, arquitecto e engenheiro militar português. A construção foi, essencialmente, pré-fabricada em Portugal, pelo mestre pedreiro Manuel Vicente, em pedra lioz, e chegou ao Brasil, no lastro dos navios, em pedaços separados e numerados. O mestre pedreiro arquitecto Eugénio da Mota preparou as pedras e acompanhou o seu transporte para Salvador, ficando responsável pela edificação do monumento.
O interior da igreja, que não visitei, consta que possui a primeira demonstração mais completa do barroco de D. João V no Brasil. Segundo alguns historiadores, a fachada sofreu influência do Palácio de Mafra, com traços neo‐clássicos. Sobressai a implantação das duas torres na diagonal, a 45º em relação ao plano principal.

Ao que percebi (e é bem difícil perceber as designações e classificações soteropolitanas), a Cidade Baixa não está incluída no Centro Histórico de Salvador, conforme foi delimitado pela UNESCO. No entanto, faz parte do Centro Antigo de Salvador, que corresponde à área do Centro Histórico e seu entorno, num conjunto de dez bairros de valor histórico e cultural: Centro Histórico, Centro, Barris, Tororó, Nazaré, Saúde, Barbalho, Macaúbas, Liberdade (parte do espigão), Comércio e Santo António Além do Carmo (e, lá está, eu conto aqui 11, vale o que vale).
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