Kafka
Praga, 1919.
Imagens de Steven Soderbergh, Kafka, 1991.
por aqui, por ali e mais além
Praga, 1919.
Imagens de Steven Soderbergh, Kafka, 1991.
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Teresa O
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sexta-feira, agosto 26, 2005
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Etiquetas: Comunicação e Artes, República Checa
Nove anos procurou Blimunda. Começou por contar as estações, depois perdeu-lhes o sentido. Nos primeiros tempos calculava as léguas que andava por dia, quatro, cinco, às vezes seis, mas depois confundiram-se-lhe os números, não tardou que o espaço e o tempo deixassem de ter significado, tudo se media em manhã, tarde, noite, chuva, soalheira, granizo, névoa e nevoeiro, caminho bom, caminho mau, encosta de subir, encosta de descer, planície, montanha, praia do mar, ribeira de rios, e rostos, milhares e milhares de rostos, rostos sem número que os dissesse, quantas vezes mais os que em Mafra se tinham juntado, e de entre os rostos, os das mulheres para as perguntas, os dos homens para ver se neles estava a resposta, e destes nem os muito novos nem os muito velhos, alguém de quarenta e cinco anos quando o deixámos além no Monte Junto, quando subiu aos ares, para sabermos a idade que vai tendo basta acrescentar-lhe um ano de cada vez, por cada mês tantas rugas, por cada dia tantos cabelos brancos. Quantas vezes imaginou Blimunda que estando sentada na praça duma vila, a pedir esmola, um homem se aproximaria e em lugar de dinheiro ou pão lhe estenderia um gancho de ferro, e ela meteria a mão ao alforge e de lá tiraria um espigão da mesma forja, sinal da sua constância e guarda, Assim te encontro, Blimunda, Assim te encontro, Baltasar, Por onde foi que andaste em todos estes anos, que casos e misérias te aconteceram, Diz-me primeiramente de ti, tu é que estiveste perdido, Vou-te contar, e ficariam falando até ao fim do tempo.
Milhares de léguas andou Blimunda, quase sempre descalça. A sola dos seus pés tornou-se espessa, fendida como uma cortiça. Portugal inteiro esteve debaixo destes passos, algumas vezes atravessou a raia de Espanha porque não via no chão qualquer risco a separar a terra de lá da terra de cá, só ouvia falar outra língua, e voltava para trás. Em dois anos, foi das praias e das arribas do oceano à fronteira, depois recomeçou a procurar por outros lugares, por outros caminhos, e andando e buscando veio a descobrir como é pequeno este país onde nasceu, Já aqui estive, já aqui passei, e dava com rostos que reconhecia, Não se lembra de mim, chamavam-me Voadora, Ah, bem me lembro, então achou o homem que procurava, O meu homem, Sim, esse, Não achei, Ai pobrezinha, Ele não terá aparecido por aqui depois de eu ter passado, Não, não apareceu, nem nunca ouvi falar dele por estes arredores, Então cá vou, até um dia, Boa viagem, Se o encontrar.
José Saramago
In: Memorial do Convento, Lisboa, Editorial Caminho, 1982 (8ª ed., 1984, pp. 355-356).
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Teresa O
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sexta-feira, agosto 19, 2005
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Etiquetas: Alentejo, Comunicação e Artes, Efeitos de luz
De há uns tempos para cá, andava quase a arrepender-me de ter ido à Noruega, ou pelo menos de já lá ter ido. Começou a fazer sentido para mim aquela máxima que diz «ver x e morrer». Há experiências que não devemos ter cedo de mais, sob pena de vivermos permanentemente insatisfeitos, a resmungar comparações com glórias passadas. A Noruega foi tudo aquilo que eu esperava que fosse: um bálsamo para a alma. Aquela conjugação de montanhas, florestas, glaciares e fiordes foi a paisagem mais bonita que eu alguma vez vi. Daí para a frente, tudo se tornou pequenino, insatisfatório, e eu passei a desconfiar de todas as ofertas, por mais apelativas que fossem.
Foi com um pé atrás que fui conhecer os lagos Plitvice. Tinham dois pontos a favor: a classificação como património da Humanidade e a localização numa das zonas mais perigosas da Croácia, bem no meio do território da Krajina, onde começou a guerra da independência, em 1991 (que, como todas as guerras dos tempos modernos, ninguém sabe quando acabará, se tivermos em conta a quantidade de minas que os sérvios por lá deixaram espalhadas).
Cerca de 30 mil hectares de montanhas e florestas, 16 lagos turquesa-irreal, dezenas de quedas de água, libelinhas azul-eléctrico, cardumes de peixes a nadarem numa água límpida, que oferece o espectáculo de fundos de vegetação petrificada, enfim, convenceram-me. Nem o calor nem os turistas me demoveram de lá passar uma tarde e um dia inteirinhos.
O parque nacional está muito bem organizado, com equipamentos novos e os percursos quase todos reconstruídos. Propõe várias caminhadas, de duração e dificuldade variáveis, com trechos opcionais de barco e comboio, incluídos no bilhete de entrada.
Os lagos Plitvice são bem servidos por autocarros, que operam as ligações de Zagreb com o sul do país. O parque gere os 4 hotéis e o parque de campismo, mas a toda a volta (vimos depois) há uma enorme oferta de sobe (zimmer-rooms-camere) particulares, como por toda a Croácia. Quando pretendemos fazer as reservas, poucos dias antes da partida, já só havia disponibilidade no parque de campismo. Ficámos num bungalow simpático, num parque também ele novinho e bem equipado, com ligação diária, de autocarro, ao parque nacional, a cerca de 7 km de distância. Bem medidos, que no primeiro dia, inconscientes, resolvemos fazer a pé, sob um sol tórrido, por curvas intermináveis de alcatrão escaldante. O parque de campismo tem outro aliciante: uma praia fluvial, que aproveitámos devidamente nos finais de tarde.
E pronto, o Sognefjord já não está sozinho no meu quadro de honra, e mantém-se viva a minha esperança de continuar a encontrar o espanto da Natureza, por essas curvas do mundo fora.
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Teresa O
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sexta-feira, agosto 12, 2005
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Etiquetas: Croácia, Papa-unescos, Viagens interiores
E foi assim, sem mais nem menos, um convite irrecusável e, em pouco mais de uma semana, desembarcava em Zagreb. Aparentemente, não foi uma escolha muito original: havia pessoas de todos os cantos do mundo a desaguarem em força no Adriático. O dia 31 de Julho foi um dia histórico - para os croatas, que anunciavam, em parangonas, o record absoluto de 1,000.000 de turistas no Adriático, e para mim, que consegui descodificar a minha primeira notícia em croata. No dia seguinte, a contabilidade do primeiro fim-de-semana de Agosto adicionava mais 300 mil turistas. Todos a banhos, claro, que em Zagreb nem se dava por eles.
A capital da Croácia é uma cidade interior, com todas as características das cidades da Europa central um dia dominadas pelos Habsburgos, mas sem o esplendor de Viena, Praga ou Budapeste. É muito diferente das cidades costeiras, onde abundam os vestígios romanos, onde se respira um ambiente mediterrânico e onde o calor, os turistas e a inflação são elevados a um expoente absurdo.
O mercado de Dolac
Não é uma cidade muito grande, tem cerca de 770 mil habitantes, um centro histórico pequeno, de características medievais, uma zona nova, de amplas avenidas de traçado quadricular, concebida entre o século XIX e o início do século XX, e uma periferia moderna, que só vislumbrei à distância, onde predomina a verticalidade residencial dos anos 60, em concepção comunista.
O Museu Mimara
Só lá ficámos um domingo, a passeios. Uma brochura gratuita, fornecida pelo turismo local, propõe dois percursos pedestres (de 60 e 90 minutos), comentados detalhadamente, para se ficar com uma panorâmica geral da cidade.
Dedicámos um momento cultural ao Museu Mimara, com cerca de 3750 obras de arte, de diferentes épocas, doadas pelo coleccionador Ante Topić Mimara, visitámos igrejas e miradouros e passeámos bastante pelas ruas, a aproveitar o tempo agradável.
Uma torre da fortificação medieval, em Kaptol
Em Zagreb, contactámos com a língua croata e com uma das suas peculiaridades: sendo uma língua de casos (como o alemão, por exemplo), tem diferentes terminações para os nomes, segundo a sua função na frase. O curioso é que isso acontece não só com os nomes comuns, mas também com os nomes próprios, o que resulta, por um lado, em alguns equívocos entre a leitura dos mapas e a das placas com os nomes das ruas e, por outro lado, em algumas situações caricatas. Um prémio a quem decifrar a personalidade homenageada pelas muitas praças (trg) e ruas (ulica) Ivana Pavla II, que hoje florescem pelo país...
Estátua equestre de ban Josip Jelačić, líder croata da revolta contra os húngaros (1848),
na praça central, com o mesmo nome (Trg bana Josipa Jelačića)
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Teresa O
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segunda-feira, agosto 08, 2005
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Etiquetas: Castelos, Croácia, Viagens interiores
Um passeio de mobylette pela periferia da cidade
Comércio na periferia
A entrada da Menara
Petit taxi
A feira de Jamaâ El Fna
Túmulos Saadianos
À saída da feira numa aldeia do Atlas
Uma vista do Atlas Superior
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Teresa O
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quinta-feira, agosto 04, 2005
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Etiquetas: Marrocos, Papa-unescos
Partindo-se dali e andando três dias para Levante o homem encontra-se em Diomira, cidade com sessenta cúpulas de prata, estátuas de bronze de todos os deuses, ruas pavimentadas a estanho, um teatro de cristal e um galo de ouro que canta no alto duma torre todas as manhãs. Todas estas belezas o viajante já as conhece por tê-las visto também noutras cidades. Mas a propriedade desta é que quem lá chegar numa noite de Setembro, quando os dias já diminuem e as lâmpadas multicolores se acendem todas ao mesmo tempo por cima das portas das lojas de peixe frito, e de um terraço uma voz de mulher grita: uh!, lhe apetece invejar os que agora pensam que já viveram uma noite igual a esta e que então foram felizes.
Italo Calvino
Texto de Italo Calvino, Le città invisibili, Torino, Einaudi, 1972
(tradução portuguesa de José Colaço Barreiros, As cidades invisíveis, Lisboa, Editorial Teorema, 2003, p. 11).
Pintura de Vieira da Silva, Luz, 1978
Óleo sobre tela, 97 x 130 cm, França, col. part.
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Teresa O
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quarta-feira, julho 20, 2005
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Etiquetas: Comunicação e Artes
23rd Century (2266-2269)
Space: the final frontier. These are the voyages of the Starship Enterprise. Its five-year mission: to explore strange new worlds, to seek out new life and new civilizations - to boldly go where no man has gone before.
Texto e imagens da série televisiva Star Trek, NBC, 1966-1969.
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Teresa O
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quinta-feira, julho 14, 2005
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Etiquetas: Comunicação e Artes, Outras paragens
A minha amiga Joëlle diz que aquilo que lhe parece que eu retive da minha passagem pela Normandia foi a ementa. Isto de tanto me ouvir falar em charlottes aux fraises, profiteroles au chocolat, flageolets, pommes duchesse... (cidre, bordeaux, calvados...). Não ouviu ela o que eu reclamei da carne pouco cozinhada, dos vegetaizinhos desenxabidos, das fatídicas beterrabas e do terrível aipo, dos pequenos-almoços frugalité campagnarde...
A ciência, às vezes, prega-nos destas. E esta foi, no caso, um colóquio num Centro Cultural sediado num castelo do século XVII.
O castelo
A perspectiva de uns diazinhos em reclusão científica, num local idílico, rodeada de campos verdes, vacas brancas e vestígios históricos, indissociáveis da quantidade de nomes grandes da cultura europeia que por lá passaram, parecia-me sublime. Ao fim de dois dias, andava já a perguntar pela agência Avis mais próxima.
Campos verdes e vacas brancas
Os donos do castelo são umas pessoas encantadoras. A senhora, em particular, é muito divertida, tendo ultrapassado aquela idade em que nos preocupamos demasiado com aquilo que os outros pensam de nós e nos damos ao luxo de fazer e dizer o que nos dá na real gana. A história mais engraçada que retive foi a de um senhor que, tendo ido deixar a esposa num colóquio, partiu para os Estados Unidos, de onde, assaltado pelas saudades (ou outra coisa qualquer...), resolveu telefonar à mulher, para lhe dizer que a amava. Acontece que o castelo só tem uma linha telefónica e foi a dona Catherine que, estremunhada, recebeu a dita declaração de amor, às 3 da manhã, hora local. Vai daí, não esteve com meias medidas e disse ao cavalheiro que não precisava de se preocupar, porque, a última vez que ela tinha visto a amada esposa, ia esta muito divertida e bem acompanhada a caminho do casino. Do casino, vejam só!
Uma esquina no centro de Cerisy
Cerisy é uma vila pequena, do departamento de Manche, no Bocage Normand. Tem uma igreja, uma farmácia, uma padaria, uma escola, um colégio, um café, um supermercado pequeno, dois médicos e três veterinários, muitas vacas e poucas pessoas. De facto, quando saíamos do castelo, raramente encontrávamos vivalma.
O marido de Catherine é um senhor muito simpático e acolhedor, mas mais discreto. Quando lhe perguntei pela dita agência Avis, sorriu e disse que a mais próxima ficava em St-Lô ou Coutances. À chegada, falou-nos da terra e desaconselhou-nos vivamente Cerisy by night: «C'est vraiment sinistre!». Toda a região foi duramente fustigada pelos bombardeamentos que se seguiram ao desembarque dos aliados (salvou-se o castelo, para o qual os alemães tinham outros planos). A reconstrução foi demasiado rápida e pouco cuidada, pelo que se perdeu muito do pitoresco local.
L'Orangerie
Nos poucos tempos livres que o colóquio nos permitia, tínhamos, como alternativa, o circuito pedestre de 7 Km em torno do castelo, ou um kir no Bar de l'Espérance. Transportes eram uma miragem: um autocarro interessante por dia, até à costa, e uma estação de caminhos-de-ferro, em Carantilly, desactivada há vários anos, onde os comboios só param para deixar e receber congressistas, a pedido do Centro.
Dois dias, teria sido a duração ideal. O castelo é muito bonito e a localização muito agradável. Fiquei alojada numa das dependências exteriores, a Orangerie, de onde se ouvia menos o fatídico sino que orientava as nossas actividades diárias: o despertar, o pequeno-almoço, o início das sessões, o almoço, e por aí fora... Verdadeira reclusão monástica.
Chez moi à l'Orangerie
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Teresa O
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domingo, julho 10, 2005
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Etiquetas: Castelos, França, Viagens interiores
Terça-feira, Julho 08, 2003 : 9:26 PM
No princípio, era assim.
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Teresa O
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sexta-feira, julho 08, 2005
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Etiquetas: Viagens interiores
Portalegre é uma cidade pequena em Portugal. Fica perto da fronteira com Espanha e é muito antiga. Tem um castelo medieval, mas a cidade data do século XVI. É muito montanhosa e tem ruas estreitas.
Há muitos estudantes, porque há três Escolas Superiores.
À noite há muito que fazer. Há muitos bares e restaurantes pequenos, mas só uma discoteca, o Álamo.
A comida típica de Portalegre é: boleima, pão e queijo, chouriço, doces conventuais e pastéis de carne. A bebida típica é o vinho Conventual.
As pessoas são simpáticas e calmas.
É agradável passear no parque natural da Serra de S. Mamede.
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Teresa O
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terça-feira, julho 05, 2005
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Etiquetas: Alentejo, Contribuições, Efeitos de luz, Palmeiras, Portalegre, Portugal
| La imagen es un lugar perverso. En ella se detiene todo aquello que ha de irse. La imagen suspende el curso, lo entorpece, nos entorpece. (Chantal Maillard) |