Grandes passeios de domingo (I)


Ermida de São Mamede


Ermida de São Mamede, outro pormenor


Vista do Pico de São Mamede (1025 m)


Outra vista, com a barragem da Apartadura, ao centro, e Marvão, no cume à direita


Ainda a barragem da Apartadura


Do lado de lá: La Codosera


Pinturas rupestres da Lapa dos Gaivões, Hortas de Baixo - Esperança - Arronches


Perto de Arronches, de regresso a Portalegre: típica paisagem de Verão

Foi no domingo passado.

Junho


7 de Junho de 2007, perto de Alter do Chão


11 de Junho de 2007, de manhã muito cedo, perto de Montemor-o-Novo

Palácio Achaioli



O palácio Achaioli (ou Achioli, ou mesmo Acchioli) situa-se na Praça do Corro, hoje Praça da República, em Portalegre, no mesmo local onde, segundo a tradição, ficava o edifício em que viveu D. Iria Gonçalves Pereira, mãe de D. Nuno Álvares Pereira.
O palácio foi construído no século XVIII, por uma importante família de origem italiana, a família Acciaioli.
A família Achaioli chegou a Portalegre em meados do século XVIII, tendo João da Fonseca Achaioli Coutinho mandado construir o palácio e nele colocar o brasão da família, pois aqui viria a fixar a sua residência.



O projecto é da autoria de José Carlos Fonseca Achaioli Coutinho, irmão do proprietário. Em estilo barroco, de linhas geométricas, mantém as características da época. Possui dois andares, com uma fachada sóbria. O rés-do-chão abre para o exterior por janelas guarnecidas de cantaria. O primeiro andar ostenta sacadas embelezadas com gradeamento de ferro. Dois portões estabelecem a comunicação com o exterior.
É, porém, no interior que o edifício ostenta maior aparato. À entrada há dois corredores que dão acesso a um espaço aberto e que ladeiam uma ampla escadaria de granito trabalhado, decorada por painéis de azulejos. A iluminação da escadaria é feita por uma grande janela colocada ao cimo da mesma. A cúpula ao cimo das escadas está decorada com motivos naturalistas, florões e concheados, num trabalho de gesso pintado. No original predominava um azul forte como pano de fundo. Os restantes motivos ostentavam cores suaves de que sobressaíam os rosas, amarelos e verdes, que pretendiam simular a continuação, até ao infinito, da arquitectura real. Como fecho de todo o conjunto foi colocado um brasão de família, emoldurado num desenho de curvas e contracurvas, que, sobressaindo do conjunto, o fechavam e projectavam sobre a escadaria. Actualmente, esta pedra de armas encontra-se no Museu Municipal de Portalegre. Aos cantos foram desenhados e pintados quatro guerreiros, numa atitude de guardiães. A escadaria termina numa galeria que dá acesso ao Salão Nobre do edifício.


Foto de Eunice Leitão e Daniel Mestre

O interior do salão está decorado por painéis de azulejos azul cobalto com cenas campestres e paisagens, enquanto na escadaria a decoração é baseada em silhares de azulejos, cuja moldura policroma, formada de concheados ao gosto barroco, contorna os centros azuis figurados.
Quanto ao brasão que ainda hoje é visível na fachada, por cima da porta de entrada, entre duas janelas principais, foi colocado no palácio no mesmo ano dos azulejos, em 1780, por Santos Simão. É um escudo esquartelado dos Fonseca, Sousa de Arrouches, Achaioli e Zuzartes.
Diogo da Fonseca Achaioli foi o último proprietário do palácio, que foi entregue ao Governo em 31 de Dezembro de 1892.
Em 1887, foi instalado no palácio o Liceu Nacional de Portalegre. As salas do edifício foram adaptadas para salas de aula. Em 1895, os edifícios em redor do liceu foram arrendados e este passou a partilhar o seu espaço com a Sociedade Operária Portalegrense e a Repartição dos Correios e Telégrafos. Apesar das óptimas condições iniciais, em 1917, o edifício começou a entrar em estado de degradação, havendo necessidade de obras de reparação.



No início da década de 1920, começaram a escassear os espaços, havendo necessidade de ampliar as instalações. Começou, então, a ser considerado um liceu de prestígio. Foram feitas obras de conservação e ampliação das instalações, no decurso das quais foram feitos um ginásio e uma sala de Canto Coral.
Mesmo com as várias obras de ampliação e de construção, o liceu foi-se degradando constantemente, o que levou à necessidade de um novo liceu. A decisão de construir um novo edifício foi tomada em 1967 e as obras foram concluídas em 1975.
O palácio Achaioli albergou, desde 1976, diversas instituições e, posteriormente, a partir de 1986, a Escola Superior de Educação de Portalegre. No final dos anos 1980, o edifício sofreu importantes remodelações e tem sido, periodicamente, sujeito a obras de conservação e adaptação a novas necessidades.



Baseado num trabalho realizado por Eunice Leitão e Daniel Mestre

FONTES
> "Conhecer: O Palácio Achaioli". Portal - Boletim Mensal do Instituto Politécnico de Portalegre. Ano 4, nº 37, 05/2003, p. 6.
> "ESE Portalegre". In Escolas Rurais do Nordeste Alentejano.
> MARTINS, Amélia Filipa Antunes; SILVA, Ana Patricia Marcelino. "Os mais conhecidos liceus - Portalegre - Liceu Mouzinho da Silveira". In Os lugares da escola - A evolução dos liceus em Portugal.
> "Roteiro das Casas Brasonadas". In Município de Portalegre.


O Palácio Achaioli e, à direita, o Palácio Avillez, em 1928

Toada de Portalegre



Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Morei numa casa velha,
Velha, grande, tosca e bela,
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...

Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- Quis-lhe bem, como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como ao do meu aconchego.

Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras,
Do vento soão queimada,
(Lá vem o vento soão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão...)
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Na tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela,
Tinha, então,
Por única diversão,
Uma pequena varanda
Diante duma janela.

Toda aberta ao sol que abrasa,
Ao frio que tolhe, gela,
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
De redor da minha casa,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Era uma bela varanda,
Naquela bela janela!

Serras deitadas nas nuvens,
Vagas e azuis da distância,
Azuis, cinzentas, lilases,
Já roxas quando mais perto,
Campos verdes e amarelos,
Salpicados de oliveiras,
E que o frio, ao vir, despia,
Rasava, unia
Num mesmo ar de deserto
Ou de longínquas geleiras,
Céus que lá em cima, estrelados,
Boiando em lua, ou fechados
Nos seus turbilhões de trevas,
Pareciam engolir-me
Quando, fitando-os suspenso
De aquele silêncio imenso,
Eu sentia o chão a fugir-me,
- Se abriam diante dela,
Daquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Na casa em que morei, velha,
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
À qual quis como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como ao do meu aconchego...

Ora agora,
Que havia o vento soão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Que havia o vento soão
De se lembrar de fazer?
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Que havia o vento soão
De fazer,
Senão trazer
Àquela
Minha
Varanda
Daquela
Minha
Janela
O testemunho maior
De que Deus
É protector
Dos seus
Que mais faz sofrer?

Lá num craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus...,
E, louvado seja Deus!,
Eis que uma folha miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a cepa cansada
Que dava cravos sem vida
Naquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...

Como é que o vento soão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Me trouxe a mim que, dizia,
Em Portalegre sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Me trouxe a mim essa esmola,
Esse pedido de paz
Dum Deus que fere... e consola
Com o próprio mal que faz?

Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for
Me davam então tal vida
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Me davam então tal vida
- Não vivida!, mas morrida
No tédio e no desespero,
No espanto e na solidão -
Que a corda dos derradeiros
Desejos dos desgraçados
Por noites do vento soão
Já várias vezes tentara
Meus dedos verdes suados...

Senão quando o amor de Deus
Ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Confia uma sementinha
Perdida entre terra e céus,
E o vento a traz à varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela!

Lá no craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Nasceu essa acaciazinha
Que depois foi transplantada
E cresceu, dom do meu Deus!,
Aos pés lá da estranha casa
Do largo do cemitério,
Frente aos ciprestes que em frente
Mostram os céus,
Como dedos apontados
De gigantes enterrados...

Quem desespera dos homens,
Se a alma lhe não secou,
A tudo transfere a esperança
Que a humanidade frustrou:
E é capaz de amar as plantas,
De esperar nos animais,
De humanizar coisas brutas,
E ter criancices tais,
Tais e tantas!,
Que será bom ter pudor
De as contar seja a quem for.

O amor, a amizade, e quantos
Sonhos de cristal sonhara,
Bens deste mundo, que o mundo
Me levara,
De tal maneira me tinham,
Ao fugir-me,
Deixando só, nulo, atónito,
A mim, que tanto esperara
Ser fiel,
E forte,
E firme,
Que não era mais que morte
A vida que então vivia,
Auto-cadáver...

E era então que sucedia
Que em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Aos pés lá da casa velha
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- A minha acácia crescia.

Vento soão!, obrigado
Pela doce companhia
Que em teu hálito empestado,
Sem eu sonhar, me chegava!
E a cada raminho novo
Que a tenra acácia deitava,
Será loucura!..., mas era
Uma alegria
Na longa e negra apatia
Daquela miséria extrema
Em que eu vivia,
E vivera,
Como se fizera um poema,
Ou se um filho me nascera.

Poema de José Régio ([1941] 1971). Fado. 3ª edição. Lisboa: Brasília Editora, pp. 97-107.

Casa do Poeta José Régio v2



O Poeta Régio chega para ser professor do liceu e fica superdeprimido não com o que isto é, mas com o que isto não é, nem tem, nem representa, e pensa matar-se.
Cidade onde então sofria coisas que terei pudor de contar seja a quem for.
Anos mais tarde, habituou-se e, diz até quem o conheceu, mais ao seu feitio austero e carrancudo, que nem queria outra coisa e odiava as grandes cidades.
A base dessa mudança foi a casa.
A ideia dele para um bom lar seria um casarão enorme que pudesse encher de crucifixos. Encontrou-o, alugou-o e encheu-o de crucifixos. Uma antiga pensão de pedra grossa, voltada para o cemitério e colada a umas cavalariças malcheirosas da GNR. Aos sábados e domingos saía com motorista e corria os campos, de quinta em quinta, de monte em monte, azuis na distância, como ele dizia, convencendo velhotes a vender velharias religiosas por dois tostões. Salvou vários tesouros artísticos religiosos de alimentarem a lareira dum camponês qualquer, no Inverno.
Sol na vidraça, escuro nos recantos. Casa tosca e bela à qual quis como se fora feita para morar nela.
Na verdade, a casa até arrepia de crucifixos. Crucifixos de madeira, de barro, de metal, cristos elegantes, toscos, esquisitos, serenos, agonizantes, zangados por serem o Messias, descrentes na ressurreição, optimistas quanto a isso, cristos antigos, recentes, europeus, asiáticos, cristos às centenas, há mesmo um de marfim branco com rubis a fazer as gotinhas de sangue. Paga-se bilhete à entrada, menos quem está isento.
Da bela janela da casa, via passar os funerais, o cemitério é mesmo em frente, os dedos gigantes dos ciprestes apontando o céu, um poético cinema de varanda.

Texto de Rui Cardoso Martins ([2006] 2007). E se eu gostasse muito de morrer. 3ª edição, Lisboa: Publicações Dom Quixote, p. 199.

Maio


IP2, a sul da estação de Portalegre, 8 de Maio de 2007

Casa do Poeta José Régio



José Maria dos Reis Pereira nasceu, em 1901, em Vila do Conde, onde faleceu, em 1969.
Em 1912, frequentou o curso dos liceus no Instituto de Vila do Conde.
Dos 12 aos 13 anos, escreveu o primeiro caderno de versos, Violetas, por necessidade de comunicar e de se exprimir.
Em 1919, licenciou-se no curso de Filologia Românica (Português e Francês) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
No ano de 1925, publicou o seu primeiro livro de poesia, Poemas do Deus e do Diabo, com o pseudónimo de José Régio.


Ventura Porfírio, Poeta de Deus e do Diabo, 1958
Óleo sobre tela, 138,5 x 108 cm
Câmara Municipal de Portalegre, Casa-Museu José Régio


Em 1927, foi director da revista Presença (folha de arte e crítica). Além disso, escreveu para vários jornais (Diário de Notícias e Comércio do Porto).
Fez frente ao Estado Novo, tendo sido integrado no MUD (Movimento de Unidade Democrática) e tendo apoiado a candidatura de Humberto Delgado. Como escritor, dedicou-se ao romance, ao teatro, à poesia e ao ensaio.
Em 1927, José Régio iniciou a sua carreira de professor no Liceu Alexandre Herculano (Porto). No ano seguinte, foi transferido para o Liceu Mouzinho da Silveira, em Portalegre (então no edifício onde funciona actualmente a Escola Superior de Educação de Portalegre), onde leccionou durante 34 anos.



A Casa-Museu José Régio (ou Casa do Poeta José Régio) foi instalada na casa onde José Régio se hospedou, quando foi dar aulas para o liceu Mouzinho da Silveira. Aí funcionava a Pensão 21, onde o poeta começou por ter um quarto, mas foi alugando mais quartos, para albergar as peças da sua colecção, até que se transformou num hóspede único.
O escritor afirmava que o coleccionismo nasceu por influência do seu avô. Desenvolvera-se e ampliara-se no Alentejo, pois era uma região bastante fértil em artesanato e antiguidades. José Régio tinha fascínio por antiguidades e acreditava que muitas peças desapareceriam, se não fossem bem guardadas.
As colecções existentes neste museu consistem em obras de escultura e de faiança, também numismática e medalhística, registos, trabalhos pastoris e ferros forjados. De entre estas colecções, destacam-se: Cristos, Santos Antónios, barros de Portalegre e peças de mobiliário rústico. Podemos, ainda, destacar os santos chatos (com as costas achatadas) e os reis da casa de David (representação da ascendência de Jesus). Os Cristos, feitos por mestres iletrados, mas com um certo talento manual, serviam para o enxoval das noivas, no Alentejo. Os barros de Portalegre revelam o seu poder e a sua expressão, através das suas formas poderosas. O seu ar gracioso e as suas cores intensas são necessários à intensidade sensitiva do homem que vive em contacto com a natureza.



O museu tem duas cozinhas: uma destas cozinhas possui pratos típicos de Coimbra, denominados de "ratinhos", pois eram trazidos por pessoas que vinham trabalhar para o Alentejo, cuja alcunha era "ratinhos" (trabalhavam curvadas na ceifa e vestiam-se de cinzento). Esses pratos (faiança colorida popular) eram deixados pelos ceifeiros, nas suas habituais deslocações para o Alentejo (trabalho sazonal), para serem trocados por tecidos e roupas.
Existem, ainda, peças em ferro, como suportes dos espetos. O ferro forjado foi bastante utilizado para as formas dos mesmos suportes (nas cozinhas) e para a decoração de portas e janelas, aliando a arte à funcionalidade.
A outra cozinha possui trabalhos pastoris (chavões ou pintadeiras) que serviam para marcar o pão, nos fornos comunitários. Possui, ainda, dedeiras (protecção dos dedos dos ceifeiros, na sua função) e polvorinhos (para a pólvora).

 

A arte pastoril representava a psicologia dos próprios autores. Se tivessem à mão um pedaço de madeira, de cortiça, cana ou chifre, brotariam pintadeiras, dedeiras e polvorinhos, tarros e tarretas, com inscrições, datas e nomes.
Podemos ver um quadro que representa Portalegre há um século atrás, almofarizes e peças de estanho, um oratório com peças de arte popular.
Podemos ver, ainda, a sala de visitas e uma diversidade de peças de arte popular.
Existe, no museu, um quadro da autoria de um amigo de José Régio, Ventura Porfírio, em que o poeta aparece retratado.
Além disso, há o quarto do poeta, o salão nobre (peças de mobiliário) e o escritório, onde o poeta dedicava muito tempo à sua actividade (por isso é o espaço mais emblemático do museu).
Por fim, destacam-se os trabalhos conventuais de Portalegre.
Em 1965, pensando no futuro e na preservação da memória, José Régio vendeu a sua colecção à Câmara Municipal de Portalegre, para que a casa se transformasse em museu. Ficaria com o usufruto, que passaria para a Câmara Municipal de Portalegre, após a sua morte. Tal não aconteceu, pois José Régio morreu em 1969 e o museu só abriu em 1971.

 
Dedeira ou canudo, em cana, e marcadores de pão e bolos, em madeira (séc. XIX)

FONTES
"José Régio". Wikipédia (pt).
"Museu José Régio". Wikipédia (pt).
NOVAIS, Isabel Cadete ([1999] 2001). "José Régio e os mundos em que viveu". Instituto Camões.

Trabalho realizado por Ciro Rodrigues

A cidade dos sete conventos


Alpendrada do colégio de S. Sebastião

Portalegre é uma cidade única, caracterizada pela sua riqueza arquitectónica, onde conventos e mosteiros assumem um papel preponderante. Após a extinção das ordens religiosas, todos eles foram transformados e adaptados a novas funções. É conhecida como a cidade dos sete conventos, que são:
> o convento de São Francisco;
> o convento de Santo Agostinho;
> o convento de Santa Clara;
> o convento de Santo António;
> o mosteiro de São Bernardo;
> o colégio de São Sebastião;
> o convento de São Brás, hoje desaparecido.


O convento de S. Francisco e, à direita, a Manufactura de Tapeçaria de Portalegre

O convento de São Francisco é o mais antigo, a sua fundação remonta a 1275. Depois da expulsão dos franciscanos, parte do convento albergou a primeira corticeira do mundo, outra, o quartel.


Oficinas da GNR, antigo convento de S. Agostinho

Erguido pela ordem dos Eremitas Descalços, o convento de Santo Agostinho é hoje ocupado pela Guarda Nacional Republicana. Da primitiva construção resta-nos a fachada exterior e a igreja.


Entrada da Biblioteca Municipal de Portalegre

A fundação do Convento de Santa Clara data de 1376, e deve-se à Rainha D. Leonor Telles. Após a morte da última abadessa, a sua utilização é sempre de cariz benevolente, ora como recolhimento de senhoras pobres, ora para raparigas em "perigo moral". Depois da Revolução dos Cravos, aí se alojam alguns serviços municipais e associações culturais. Ocupando todas as instalações do convento, desde Maio de 1999 que podemos desfrutar de um agradável espaço cultural, a Biblioteca Municipal de Portalegre.


Câmara Municipal de Portalegre, antigo colégio de S. Sebastião

Em 1605, inicia-se a construção do Colégio de São Sebastião. Doze anos depois já funcionava, dedicava-se à formação de sacerdotes. Em 1759, aquando da expulsão dos jesuítas, o colégio passa a propriedade estatal. No seu plano de industrialização para o país, o Marquês de Pombal determina que em Portalegre se estabeleça "uma fábrica de panos", destinada à transformação de lã e algodão. Em Julho de 1772, é oficialmente inaugurada a "Real Fábrica de Lanifícios de Portalegre". A fraca sustentabilidade e as condicionantes externas levaram à desintegração da mesma. No século XX, parte do edifício é ocupado pela Banda Euterpe de Portalegre e pela COOPOR. Já neste século, o edifício foi restaurado, adaptado às exigências contemporâneas, sem no entanto descuidar a original estrutura do colégio. Trata-se das novas instalações da Câmara Municipal de Portalegre, que pela sua excelente obra foram galardoadas com um prémio (o Prémio Nacional de Arquitectura "Alexandre Herculano", entregue ao arquitecto Sequeira Mendes e ao Município de Portalegre, a 17 de Novembro de 2006, em Lamego, durante o XI Encontro Nacional de Municípios com Centro Histórico, pela recuperação da Antiga Fábrica Real).


Mosteiro de S. Bernardo

O mosteiro de São Bernardo foi a abadia da Ordem de Cister mais importante a sul do rio Tejo. A sua fundação data do século XVI. Se o exterior foi alvo de diversas remodelações durante os séculos seguintes e hoje se assemelha a um monte alentejano, o seu interior deixa-nos boquiabertos quer pela sua beleza arquitectónica e azulejaria, quer pelo túmulo do Bispo D. Jorge de Mello, fundador do mosteiro, esculpido em mármore. Espaço amplo e polivalente, onde se realizam exposições e reuniões, alberga a escola prática da GNR.


Convento de S. António

O Convento de Santo António foi mandado edificar pelo Bispo D. André de Noronha, em 1572, e destinava-se a ajudar os mais carenciados. Com uma vista privilegiada sobre Portalegre, dali se via, sem ser visto, como convinha. É um edifício de traça simples.
Do convento de São Brás, actualmente pouco se sabe, mas pela estrutura e divisões do edifício da Casa-Museu José Régio sabe-se que ali existiu um convento.


Casa do Poeta José Régio, encostada ao Centro de Artes do Espectáculo de Portalegre

FONTES
Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.
Município de Portalegre.
RODRIGUES, Jorge; PEREIRA, Paulo (1988). Cidades e Vilas de Portugal – Portalegre. Lisboa: Editorial Presença.

Trabalho realizado por Andreia Rosário e Lisete Pires

Museu da Tapeçaria de Portalegre


Diana, 1947, 403 x 254 cm

O Museu da Tapeçaria de Portalegre Guy Fino situa-se num antigo palacete, conhecido por Palácio Castelo Branco, na Rua da Figueira, cidade de Portalegre. O seu nome deriva da homenagem prestada a Guy Fino, que inventou esta tapeçaria e integrou Portugal na lista dos grandes produtores internacionais de tapeçaria, devido ao seu enorme conhecimento na área dos lanifícios. Este trabalho foi completado com a invenção do ponto de Portalegre, por Manuel do Carmo Peixeiro, que confere às tapeçarias uma excepcional capacidade de expressão, uma total fiabilidade na interpretação do desenho e rigor ao reproduzir as obras de arte de diversos pintores.
A Manufactura de Tapeçaria de Portalegre é imprescindível para o museu, uma vez que contribui para o seu recheio.
No Museu podemos encontrar a Exposição permanente, uma Galeria de Exposições Temporárias e um Auditório. Trata-se de um museu de arte contemporânea, exprimindo os movimentos artísticos na tapeçaria, onde é possível encontrar obras de arte concebidas por artistas de renome, como Almada Negreiros, Vieira da Silva, entre outros.


Le Roi Soleil, 2001, 60 x 100 cm
Cartão, desenho e tapeçaria


FASES DA ELABORAÇÃO DAS TAPEÇARIAS

A obra de arte é cuidadosamente estudada pelo atelier técnico-artístico. É ampliada para a dimensão da obra final e projectada numa transparência, isto é, um papel quadriculado de quadrícula de 2 mm (o que corresponde à espessura do ponto). Aqui são traçados os contornos das formas e as fronteiras das cores, ou desenhados pormenores que têm de ser traduzidos em tecelagem.
Procede-se depois à demorada limpeza, que requer uma grande precisão de desenho e sensibilidade, assim como rigor do trabalho. Esta corrige as formas e linhas traçadas durante a ampliação e realiza a coloração de todas as formas com aguadas semelhantes à tonalidade do original, que, após o estudo da cor, são marcadas com um número ou código com a escolha da lã.


Amostra de mil cores do Museu da Tapeçaria de Portalegre

A tapeçaria de Portalegre é de alto-liço. Os linhóis são colocados lado a lado e os fios de teia em tensão formam uma cortina uniforme bastante grossa, com 10 fios por centímetro. A tapeçaria suspensa começa a ser tecida a partir da base pelas tecedeiras, que estão sentadas com o desenho colocado à altura dos olhos.
O ponto utilizado, denominado ponto de Manuel do Carmo, corresponde ao cruzamento simples de fios de teia com os de trama, alternando os fios pares com os ímpares, da técnica tradicional, o que consiste no envolvimento completo dos fios de teia pela trama decorativa, desenhando-se, assim, ponto a ponto, as manchas de cor, com contornos precisos e tonalidades delicadas que nos maravilham pela sua textura aveludada.



Na fase terminal executa-se a tirela de remate. Os fios são cortados da teia, libertando a peça, que posteriormente é esticada e posta à esquadria, onde é molhada com água e sujeita a tratamento anti-traça. Por último, são realizadas as bainhas e, no avesso da tapeçaria, é colocado o bolduc (que consiste num pedaço de tela que contém o título da obra, dimensões, nome e assinatura do pintor).
Em suma, devido à complexidade do processo de tecelagem, e pelo facto de ser um trabalho 100% realizado à mão, estas tapeçarias são executadas ao longo de pelo menos um ano (data mínima para as tapeçarias de menor dimensão), tendo, portanto, um custo bastante elevado. O preço mínimo ronda, neste momento, os 9 mil euros e o mais exuberante 91 mil euros.
Contudo, as manufacturas não deixam de receber encomendas nacionais e internacionais. São colocadas em exposição em locais de bastante relevo, como por exemplo entidades bancárias, a Fundação Calouste Gulbenkian, hotéis prestigiados e galerias, das quais se destaca uma em Madrid.


O Poeta, 190 x 155 cm

Trabalho realizado por Emilie Baptista e Susana Menezes

Portalegre



O concelho de Portalegre fica situado no Norte Alentejano. É constituído por dez freguesias, duas urbanas (Sé e S. Lourenço) e oito rurais (Alagoa, Alegrete, Carreiras, Fortios, Reguengo, Ribeira de Nisa, S. Julião e Urra). Tem uma superfície de 464 Km2 e cerca de 26 mil habitantes.
Portalegre desenvolveu-se sobretudo a partir do século XVI, época em que foi elevada a sede de Bispado e à categoria de cidade, o que, com o desenvolvimento económico da agricultura, do comércio e também da indústria, levou ao aparecimento de famílias nobres e burguesas que mandavam construir residências com uma certa grandiosidade.
A cidade possui uma grande tradição industrial. O fabrico de panos de lã data da Idade Média, desenvolvendo-se mais a partir do século XVII. No século XIX surgiu a Fábrica Robinson, dedicada à preparação e transformação de cortiça, sendo parte integrante da memória de Portalegre e possuindo um valioso espólio de arqueologia industrial. Em 1947, surge a Manufactura de Tapeçarias, que, devido à originalidade e ao valor artístico dos seus trabalhos, rapidamente se converteu no ex-libris da cidade.



CRONOLOGIA

1259 - Possível concessão de foral por D. Afonso III;
Século XIII - Remodelação da fortaleza por D.Dinis; fundação do Convento de S. Francisco;
1376 - Foi fundado o Convento de Santa Clara;
1387 - Em 6 de Julho, D João I, grato pela atitude dos portalegrenses ao pugnarem pela sua causa, deu a Portalegre o título de "Leal";
1511 - Em 29 de Março, D. Manuel I concedeu novo foral à vila;
1533 - D. João III, em 3 de Janeiro, tornou-a sede de uma nova correição (área de jurisdição do corregedor - juiz presidente dos círculos judiciais);
1550 - O mesmo monarca elevou Portalegre à categoria de cidade em 23 de Maio e conseguiu de Roma a criação da Diocese portalegrense;
1552 - Início da construção do Convento de Santo António;
1556 - Foi lançada a primeira pedra da Sé Catedral, a 14 de Maio;
1605 - Os Jesuítas instalam na cidade o colégio de S. Sebastião;
1640 - Portalegre foi uma das primeiras localidades do país a reconhecer a independência de Portugal e sofre os embates dessa patriótica atitude, durante as lutas da restauração;
1683 - Foi fundado o Convento de Santo Agostinho;
1704 - Filipe V de Espanha conquista Portalegre durante a Guerra da Sucessão de Espanha;
1772 - Fundada a Real Fábrica de Lanifícios de Portalegre, por iniciativa do Marquês de Pombal, instalada no antigo Colégio de S. Sebastião;
1801 - "Guerra das Laranjas". Portalegre é conquistada pelos espanhóis;
1808 - Invasões francesas. Portalegre tem de pagar um pesado tributo imposto pelo general Loison, o «Maneta»;
1835 - Instituição dos distritos a 18 de Julho. Portalegre passou a ser capital de um deles, ficando-lhe associados 15 concelhos;
1848 - O industrial inglês George Robinson instala-se em Portalegre;
1848 - É plantado o famoso Plátano no Rossio;
1947 - Nasceu a Manufactura de Tapeçarias.

ROTEIRO DE PORTALEGRE

Portalegre desfruta de um património arquitectónico extraordinário. Visite o nosso centro histórico:
Casa-Museu José Régio;
Convento de S. Francisco;
3º Praça da República, com o Palácio Acchioli (séc. XVIII), onde funciona a Escola Superior de Educação, e o Palácio Avilez (séc. XVIII), actual Governo Civil de Portalegre;
4º Pela Porta de Alegrete, entramos na Rua 19 de Junho (antiga Rua da Deveza), que dá acesso à Praça do Município e também ao Convento de Santo Agostinho (séc. XVII),
à Rua de Santa Clara, com o Antigo Convento de Santa Clara, e à Rua do Castelo (séc. XIII, XIV, XVI);
5º Praça do Município: Paços do Concelho (séc. XVII) e Sé Catedral (séc. XVI, XVII, XVII), consagrada a Nossa Senhora da Assunção;
6º Museu Municipal;
7º Museu de Arte Sacra e Artes Decorativas;
Museu de Tapeçaria Guy Fino;
9º Largo Cristóvão Falcão: Palácio Amarelo, também conhecido como Palácio dos Abrançalhas;
10º Rua 5 de Outubro: Igreja de S. Lourenço;
11º Rossio: Palácio Povoas;
12º Avenida da Liberdade: Edifício da Misericórdia e Igreja do Espírito Santo;
13º Mosteiro de S. Bernardo.



DISTÂNCIAS, ACESSOS E ITINERÁRIOS

- 380 Km do Porto, 230 Km de Lisboa e 105 Km de Évora.
- 450 Km de Madrid, 134 Km de Cáceres e 74 Km de Badajoz.

Portalegre é servida por três auto-estradas (A1, A6 e A23) que entroncam em 2 itinerários principais (IP2 e IP6).

Partindo de Lisboa, sugere-se o seguinte itinerário:
A6 (Lisboa - Estremoz), IP2 (Estremoz - Portalegre).
Partindo do Porto:
A1 (Porto - Lisboa até à saída de Torres Novas), A23 (até Gardete), IP2 (Gardete - Portalegre).



FONTE
Município de Portalegre.

Trabalho de pesquisa realizado por Sara Margarida Torres e Maria Alexandrina Capão