Trem do Pantanal

Enquanto este velho trem
Atravessa o Pantanal,
As estrelas do Cruzeiro fazem um sinal
De que este é o melhor caminho pra quem é como eu,
Mais um fugitivo da guerra.

Enquanto este velho trem
Atravessa o Pantanal,
O povo lá em casa espera que eu mande um postal,
Dizendo que eu estou muito bem e vivo
Rumo a Santa Cruz de la Sierra.

Enquanto este velho trem
Atravessa o Pantanal,
Só meu coração está batendo desigual.
Ele agora sabe que o medo viaja também
Sobre todos os trilhos da Terra.

Paulo Simões / Geraldo Roca
(Interpretação de Almir Sater, Doma, Som Brasil/RGE 308.6025, 1982)

A Grécia em destaques (IV): os calhaus

Antiga Corinto

Sítios arqueológicos
Há-os por todo o território continental e ilhas, de diferentes épocas, mais ou menos bem conservados. Regra geral, subsistem no local as pedras: esculturas, baixos-relevos, frescos e mosaicos foram retirados e encontram-se em museus, na Grécia ou no estrangeiro, juntamente com todo o tipo de objectos encontrados.
A Acrópole de Atenas é imponente. Situada numa elevação, domina toda uma cidade plana e cinzenta. Junto à Acrópole, o Areópago, a rocha do tribunal dos deuses; em frente, o monte Licabetos; em baixo, a cidade. O Parténon é inconfundível, com a brancura gritante das suas colunas sólidas. Curiosamente, era um templo muito colorido, como de resto a generalidade da arte helénica; o tempo é que se encarregou de limpar a pedra, devolvendo-lhe a brancura original. Transformado pelos turcos em armazém de pólvora, o Parténon explodiu, no século XVII, tendo sido reconstruído depois, com o que foi possível aproveitar. Também o Erecteion, com as suas cariátides, o Templo de Atena Nike, à entrada, o teatro de Dionísio, na encosta, todo o complexo, enfim, é digno de visita atenta.
Ainda em Atenas, a Ágora antiga, a Ágora romana e uma quantidade de pequenas escavações, aqui e ali.
Dos muitos outros sítios arqueológicos que visitei, destaco o de Delfos. Absolutamente impressionante, a situação geográfica, com uma paisagem de cortar a respiração. O complexo foi todo cuidadosamente reconstruído; as pedras não aproveitadas encontravam-se alinhadas, como peças de dominó. Episódio curioso: ao tentar identificar os vários edifícios pelas ilustrações do guia, dei-me conta de que o templo de Apolo, totalmente reconstruído na fotografia dos anos 80, encontrava-se, ao vivo, em 2000, em construção! Apercebi-me de que, como já tinha suspeitado noutros locais, as investigações devem ter provado que a reconstrução não estava exacta, pelo que o templo foi cuidadosamente desmontado e remontado, como uma construção Lego.

Delfos

Museus
Os mais importantes na Grécia são, sem dúvida, os de arqueologia. O maior é o Museu Nacional, em Atenas, com uma colecção impressionante de vestígios de várias épocas e civilizações, de entre as quais se destacam a cicládica, a micénica, a helénica clássica e a romana. Grande quantidade de estelas fúnebres, de jóias (entre elas, as do Tesouro de Atreu), de objectos do quotidiano, vidros e faianças, e de esculturas, com grande incidência de "mulas sem cabeça". Aprendi que a estatuária era uma indústria florescente entre gregos e romanos e que havia um grande cuidado não só com a realização como com a reciclagem das peças. Ou seja, estátuas de políticos mortos ou depostos e de senhores que não as tinham podido manter eram reaproveitadas para novos donos: escolhiam o corpo que mais lhes agradava, a cabeça que mais se lhes assemelhava, faziam-se as trocas e os retoques necessários e nascia nova obra. Eram negócios prósperos, os estaleiros de escultura!
Por entre salas e salas e salas profusamente recheadas, encontram-se peças absolutamente incríveis, de grande beleza, técnica e delicadeza, algumas com mais de 4000 anos!
Grande, também, o museu de Eraklion, em Creta, com o espólio das escavações de Cnossos e grande destaque para as civilizações cretenses, a minóica em particular.
Os maiores sítios arqueológicos têm espaços onde estão expostas as peças que não foram recolhidas pelos grandes museus. Assim, há museus na Acrópole e na Ágora antiga de Atenas, em Delfos, em Corinto, em Epidauro, etc. O de Delfos é pequeno (16 salas), mas tem peças belíssimas. Entre elas, uma estátua de Antinoos. Antinoos era um jovem egípcio (um kouros) de beleza estonteante, por quem o imperador Adriano se perdeu de amores. De tal forma que, quando o moço morreu prematuramente, aos 18 anos, afogado no rio Nilo, o imperador, transtornado, elevou-o à categoria de um deus, ordenando a colocação de imagens suas em lugares públicos de todas as grandes cidades do império romano. A estátua do museu de Delfos ainda congrega amontoados de visitantes em seu redor e suscita olhares lascivos e suspiros, de admiradores de ambos os sexos.

Antinoos

Uma aventura em Viena

Não gosto de estereótipos, não acredito que os portugueses usem todos suspensórios, que os americanos sejam todos burros e que as espanholas se perfumem para não se lavarem. Na relação com os estrangeiros, acho tão verdade que os alemães sejam todos xenófobos como que os portugueses sejam todos acolhedores. Pessoalmente, encontrei alemães muito hospitaleiros em Berlim, espanhóis muito abertos aos portugueses em Madrid e brasileiros mais cépticos no Rio de Janeiro. A minha teoria é que, em todo o lado, é preciso dar-lhes tempo, para eles nos conhecerem melhor e nós a eles. Talvez por isso, por no total ter lá passado mais tempo, é que guardo piores recordações de França (das relações interpessoais, entenda-se).

A Stephansdom reflectida nos vidros espelhados do edifício da Zara

Lembra-me um fim de tarde em Viena, quando eu e a Ana Isabel decidimos aproveitar os últimos raios de sol e a calidez da tarde para darmos um passeio, a pé, ao longo do Ring. É uma avenida circular muito bonita e muito sóbria que contorna e delimita o centro histórico da cidade, ladeada por palácios, igrejas e edifícios muito imperiais e muito cuidados. Íamos andando e conversando, comentando a hospitalidade, a simpatia e a eficiência dos austríacos (por acaso, também a excelência do clima, e nos dias que se seguiram foi o que se viu...). Jantámos perto da pensão e fomos dormir, felizes como dois passarinhos.
Na manhã seguinte, acordámos com um pecúlio de cerca de um euro e meio, manifestamente insuficiente para dois cafés matinais na cidade mais cara da Europa central. Aprendemos nesse dia, à nossa custa, que nunca, mas nunca, se deve deixar acabar o dinheiro no estrangeiro, nem confiar excessivamente na rede de caixas ATM. Descemos a Mariahilfer Straße, uma grande rua comercial que vai dar ao centro, e parámos no primeiro banco, para vermos todos os ecrãs Multibanco rirem-se dos nossos cartões e das nossas caras. Entrámos na agência e fomos extremamente mal recebidas pelo funcionário, que reclamou por os cartões não estarem assinados, desdenhou dos nossos bilhetes de identidade e exigiu passaportes a sério. Ainda argumentámos com a União Europeia, o tratado de Schengen, mas nada. Voltámos à pensão para buscarmos os passaportes, que, por acaso, tinham ficado como caução do quarto, que ainda não tínhamos pago. A dona não achou muita graça, mas foi sensível aos nossos argumentos. Regressámos ao banco e dirigimo-nos a outro funcionário, a quem relatámos o episódio anterior. Este foi mais atencioso, desculpou-se pelo colega, aceitou os nossos bilhetes de identidade, mas não os cartões Multibanco, porque não estavam assinados. Quem é que lhe garantia que não os tínhamos roubado? Aconselhou-nos a assiná-los e a dirigirmo-nos a outra agência, de preferência do Banco de Áustria, porque ali já não teríamos sorte nenhuma, que eles não queriam ser cúmplices de um presumível caso de falsificação de assinaturas.
Andámos mais uns quarteirões até à agência mais próxima do Banco de Áustria, onde as máquinas tiveram a mesma reacção (soubemos, mais tarde, que tinha havido uma avaria nos sistemas, que inviabilizava as comunicações internacionais). Pedimos ajuda a uma funcionária, muito simpática, que nos disse não poder fazer nada; a alternativa seria um cash advance com o cartão de crédito. Infelizmente, naquela agência, o sistema Visa estava avariado havia uns dias, teríamos de nos dirigir à agência mais próxima, mesmo no centro, na Stephansplatz, junto à catedral de Santo Estêvão, a Stephansdom. E lá fomos, ao longo da Mariahilfer, que é enorme, cheias de calor, de fúria e de fome. Só conseguimos arranjar dinheiro para comer pelo meio-dia, e depois de termos desembolsado uns contos de reis em comissões de Visa.

Palácio de Schönbrunn

Duas doses de Schnitzel mit Kartoffelsalat acalmaram-nos os ânimos e os estômagos, e resolvemos dar continuidade ao programa do dia: uma tarde no Schloß Schönbrunn. Era o palácio de Verão da família imperial, em tempos no campo, hoje na periferia da cidade. Os quartos da imperatriz Maria Teresa, o escritório do imperador Francisco José, a Gloriette da Sissi, uns jardins lindíssimos, cheios de esquilos, que vêm comer às mãos dos turistas, e uma funcionária muito simpática, que nos confirmou que a hora de fecho do bengaleiro, onde deixámos todos os nossos haveres, era às 17h30.
Pelas 17h20, já refeitas dos aborrecimentos da manhã e com a confiança restaurada nos austríacos, nos esquilos e no Apfelstrudel, descemos o jardim, para encontrarmos o palácio fechado (e com ele o bengaleiro). Entrámos em pânico, batemos a todas as portas, sem resultado, até que pedimos ajuda ao porteiro, que, a contra-gosto, lá saiu do portão e, pesadamente, se encaminhou para o palácio (atenção que, num palácio com aquelas dimensões, todas as distâncias são enormes). A moça simpática estava na sala de convívio, com os outros funcionários, a beber café. Quando a confrontámos com a disparidade entre o horário de fecho e a hora a que ela, efectivamente, tinha abandonado o local de trabalho, argumentou que não havia mais ninguém, que os outros visitantes se tinham já todos ido embora... Os nossos pertences estavam encafuados numa arrecadação...
Não, não é só em Portugal que estas coisas acontecem. Mas também não foi por isto que fiquei com má impressão dos austríacos. Prefiro lembrar-me da senhora da bilheteira da DDSG, que ficou tempos a conversar connosco, a mostrar-nos a colecção de euros e a procurar moedas repetidas para nós.

A Grécia em destaques (III): as ilhas

Praia de Matala, Creta

Creta
A maior das ilhas gregas, acima do Norte de África. Devido à sua situação geográfica, teve, desde sempre, grande importância histórica. Berço da civilização minóica, alberga as ruínas do palácio de Cnossos, cuja escavação esteve a cargo de um grupo de jovens e ricos aventureiros do início do século XX, que, no espaço de um (!) mês, puseram à vista a maior parte dos vestígios (que não conseguiram estragar com as pressas). Mesmo assim, provêm de Cnossos achados impressionantes, entre faianças, frescos e jóias, em exposição no Museu Arqueológico de Eraklion, a capital da ilha. Importantes são também os sítios arqueológicos de Phaistos e Gortys, no último dos quais foi encontrado o famoso código da lei. Mais interessantes em Creta, quanto a mim, são as influências turcas e venezianas, em cidades como Rethymnon e Chania, na parte ocidental da ilha. E ainda os curiosos túmulos romanos escavados nas rochas da praia de Matala, que serviram de abrigo aos hippies que para aí foram viver, nos anos 60 e 70.

Porto de Rethymnon, Creta

Rodes
A ilha mais oriental do Dodecaneso, muito próxima da costa turca, teve grande importância geo-estratégica, no tempo das cruzadas. A capital, a cidade de Rodes, possui uma belíssima cidadela medieval (Património da Humanidade), e pouco mais do que isso: o resto da cidade é preenchido com ruas apinhadas de hotéis, restaurantes e lojas para turistas. É um paraíso de férias para jovens escandinavos, que bebem e cantam nas esplanadas noite fora (até a polícia aparecer para acabar com a festa). Não é, decididamente, um bom sítio para descansar. À entrada do porto, duas colunas encimadas por, respectivamente, um veado e uma corça marcam o local onde assentariam os pés do mítico Colosso de Rodes, uma das sete maravilhas da Antiguidade. Destaque, ainda, para a cidade de Lindos, uma perolazinha de casinhas caiadas que se estendem por uma encosta, até à praia. E uma curiosidade: um pequenino santuário, no cimo de um monte, 297 degraus acima da praia de Xaraki. Depois de íngreme escalada, soube que aquele é um santuário onde as mulheres gregas vão pedir fertilidade, graça que, uma vez obtida, é paga atribuindo ao bebé o nome do santo que a concedeu (Trampiko ou Trampika, consoante o sexo). Não sei como é que o nome soa em grego, mas escusado será dizer que fiquei muito feliz por não ter visto a minha família aumentar, nos meses que se seguiram.

Colosso de Rodes

Mar vão?

Marvão

Aqui se despenharam horizontes
que os séculos sorveram.
Na lenta criação da rocha
– a abrir caminho –
ampliou-se a luz,
e a vibração do ar
sonorizou o espaço.

De infindas lonjuras temporais
foram desabando os céus
por sobre a ignição do território,
chegando até aqui
a assombração do magma
que a terra lubrifica
– e que no caos conduz
ao incêndio do granito,
ao deflagrar do mundo.

Em busca da sua própria glória,
espraiando-se ao longo
da incandescente pele da geografia,
este mar rochoso aparelhou-se
para o espesso rumo da eternidade
com o obstinado vagar
dos minerais.

Aqui as pedras falam
– mas só a quem conheça
a sua língua lenta
e assombrosa.

Júlio Henriques
Cadernos Periféricos, nº 5: Da permanente ameaça do Progresso,
Porto da Espada, Marvão, 2004 (contra-capa).

Marvão
Foto de Ivan Bohátka

Praia de Pedrógão

As férias!!!
Tudo começou por sermos um grupo de amigos que estuda em Portalegre.
Depois dos exames estava tudo a pensar em praia, férias, noitadas… e foi então que nos juntámos para planearmos umas férias "baratuchas"...

Onde vamos?
Pensámos logo em alugar um apartamento para todos, mas o dinheiro era escasso. Foi numa conversa com outro amigo adepto do campismo, que optámos por escolher um parque de campismo em Portugal para fazermos as nossas férias.

Praia... campo...
Como éramos 7, as hipóteses eram muitas: Algarve, Costa Alentejana, mais acima...
Como a Marufas era de Pedrógão Grande, conhecia melhor as praias perto de Leiria e falou-nos da Praia de Pedrógão, fartando-se de apregoar o seu parque de campismo de 3 estrelas!!! Já estávamos fartos de a ouvir!...

Praia de Pedrógão

A viagem...
E fomos para a Praia de Pedrógão. Partimos de Portalegre com malas para uma semana de férias, que mais parecia para 3 meses.
Fomos com um amigo do Balsa, o Mano que era estudante da Academia Militar. De carrinho até ao Entroncamento, para nos encontrarmos com a Joana e os pais, que iam levar a filha para férias.

Praia!...
Chegámos lá e aquilo era... fantástico! Um parque com bar, restaurante (tudo muito barato), com supermercado, casas de banho com espelhos e chuveiro, sítios para lavar a loiça e perto das tendas havia umas torres de cimento com 1 metro de altura com tomadas para carregar telemóveis e outras coisas mais. Fantástico!

Então e a praia?...
A praia fica do outro lado da rua. É só sair do parque e atravessar a rua que encontramos uma praia linda! Um pouco fria à tardinha, mas muito quente de dia.

Parque de campismo

Aiaiaiai...
Como bons portugueses que somos, queremos ficar logo bronzeados no primeiro dia!
Nas primeiras horas da manhã foi um luxo de protector solar, mas depois do almoço (pelas 15 horas) foi a loucura do bronzeador!
Depois de quase 7 horas de sol, descobri que tinha o maior escaldão da minha vida! Estávamos tão inchados que nem nos reconhecíamos uns aos outros! "Creminho!", gritava eu, para me darem o creme Nívea ou outro qualquer... Durou-nos a semana toda! E foi o primeiro e o último dia que fomos à praia... todo o dia!

Namoros!!...
A Tê queria "curtir" as férias, mas trazia na bagagem o "ex" dela, o Ju. Enquanto que o Balsa e a Marufas davam vida à canção "The Love Boat" e a Tê e o Mano iam lançando olhares melosos um ao outro, eu aturava os ataques de ciúmes e existencialismo do Ju... Ai!

Comidinha!
Como era a primeira vez que íamos para um parque de campismo, pensávamos que faríamos sempre as refeições nas tendas. Por isso, comprámos milhentas latas de conservas, fruta, sumos, arroz, levámos panelas, tachos, um fogão pequenino e gás... Resumindo, levámos uma tenda só para a comida.
Como o restaurante era a 3 euros a refeição e com sobremesa e café eram 5 euros, decidimos levar a comida de volta para Portalegre e começámos a comer no restaurante...

Noitadas!
Fomos à discoteca "Stress-less" que tinha a pior música de toda a minha vida! Mas o mais engraçado foi a salsada de culturas que encontrámos, nunca antes vista por estes belos olhos. E o que me fez mesmo rir foram as várias maneiras de dançar desta miscelânea de gentes. Juro! Parecia que estávamos num filme. Matrix! Muitos movimentos eram iguais aos do Matrix!!!

Praia de Pedrógão

Ladras!!!
Esta juventude...
A Joana queria comprar um biquíni num mercado diário que há à entrada da praia. Coisas muito baratas! Enquanto ela foi experimentar um, a Marufas foi buscar outro e deu-lhe para ela experimentar. Ficou com dois no vestiário... A senhora da banca foi lá, a Joana disse que não lhe servia e deu-lhe um dos biquínis. A Marufas entrou no vestiário enquanto que a Joana se vestia, agarrou no biquíni que lhe deu e meteu-o na mala! Ao sairmos da banca, disseram-me. Fiquei vermelha! Acho que corri dali para fora, pois estava com medo de levar um "arraial de porrada" daquela gente toda!!! Os outros é que a fazem e eu é que fico com cara de parva! Pelo menos a Joana ganhou uma prenda...
Mas ainda não acabou!
Durante as férias este exercício de "levar ao bolso" contagiou o grupo e todos queria provar que eram capazes de levar uma recordação para casa, sem pagar...
A Joana "levou" um baralho de cartas de uma loja, o Balsa uns chinelos de praia para a Marufas, de uma mercearia, a Marufas repetiu a proeza e "levou" um conjunto de pires e chávena para a mãe do Balsa... Acho que foi só. Eu não consegui, pois pensava sempre no que me podia acontecer se fosse apanhada! Ai!

Conselhos
> Não levem muita comida para a Praia de Pedrógão, pois podem lá comprar coisas muito baratas e as refeições dentro do parque também são baratas, bem servidas e de fazer crescer água na boca...
> Não gastem o dinheiro em discotecas, pois há bares muito "catitas" que merecem ser conhecidos
> Há sempre (ou quase sempre) aeróbica na praia, pela manhãzinha! Se se conseguirem levantar cedo...
> Levem um colchão ou dois (dos de espuma) mais fortes, pois em muitos sítios do parque o chão é muito duro e há pedras.
> Esta praia parece que não queima, mas é como a Nazaré: queima e muito! É preciso muito cuidado! Não façam como nós e abusem do protector e não do Sol...

Muitas coisas mais se passaram, mas não posso revelar, pois iria expor muitas vidas e a minha poderia correr perigo...

Texto de Ana "Péu"

A Grécia em destaques (II): as serras

Canal de Corinto

Peloponeso
É uma península, ligada pela Natureza ao sul da Grécia, e dele separada pelo Homem, pelo canal de Corinto. O dito canal foi uma das maiores obras de engenharia do final do século XIX, concebido para ligar o mar Egeu ao Golfo de Corinto, encurtando assim o tempo de navegação entre o Adriático e o Egeu. Actualmente, a largura do canal é insuficiente para a passagem segura de navios de maior porte, pelo que é essencialmente usado para cruzeiros turísticos. Corinto alberga ainda o sítio arqueológico da antiga Corinto e o respectivo museu. A uma distância aceitável, encontramos o sítio arqueológico de Micenas, com as ruínas do palácio, a Porta dos Leões e os túmulos do tesouro de Atreu, onde foi encontrada, no meio de um espólio magnífico (em exposição no Museu Nacional de Arqueologia), a famosa máscara de ouro que se diz ser de Agamémnon. Ainda na zona da Argólida, o complexo de Epidauro, com o santuário de Asclépio e o teatro, em belíssimo estado de conservação, com uma acústica excepcional.

Teatro de Epidauro

Ática
A região do sul, onde fica Atenas, tem muitas praias, mas pouca areia, pelo menos que eu tivesse visto. A Grécia foi dotada pelos deuses com um mar divino, límpido, calmo e quente, mas a areia deixa a desejar, variando entre areão grosso, acinzentado, e grandes calhaus. Areia fina e clara, que me asseguraram haver, nunca vi. Na ponta sul, no cabo Sounion, o santuário de Poseidon oferece uma vista fabulosa. Numa das colunas do templo, a assinatura vândala de Lord Byron, que, depois de ter sucumbido aos encantos de Sintra, foi arrastado para a Grécia pelo fulgor romântico das lutas pela independência. Apreciei, em particular, as estradas de montanha, com vistas incríveis; o peixe grelhado, fresquíssimo; a maneira de cozinhar o polvo (primeiro cozido e depois grelhado), que o torna muito suave e saboroso; a salada grega, com ingredientes tipicamente mediterrânicos (tomate, cebola, pimento, pepino e alface), temperados com azeite, orégãos e queijo feta; a riqueza dos olivais, imensos, com oliveiras centenárias, cujos troncos assumem diâmetros descomunais (faziam, para aí, 5 de mim).

Templo de Poseidon, Sounion. «Byron», na primeira mancha castanha a contar de baixo

InterRail 2003 / Mediterrâneo (II)

Corfu
Passei quatro dias fantásticos nesta pequena ilha grega. É um local paradisíaco de águas cristalinas e sol radioso, o local ideal para descansar uns dias, que foi o que aconteceu, tendo aproveitado para conhecê-lo melhor. Aluguei um carro (na Grécia nota-se logo que se praticam preços bastante inferiores, na sua maioria, aos praticados em Itália), e sem dúvida que este constitui o melhor meio para visitar a ilha, apesar de as estradas serem estreitas, sinuosas e de fraca qualidade. Esta não possui monumentos dignos de relevo, mas tem muitas praias fantásticas com paisagens de cortar a respiração, desde que se saiba encontrá-las. Gostei muito do artesanato e da gastronomia, sendo que nas localidades do interior, mais afastadas da costa, os preços praticados são bastante inferiores, pelo que devem ser a melhor opção. Nesta ilha voei num barco (depois de pagar 30€, claro!). Era um barco de borracha com uma asa delta acoplada e um motor para impulsão. Foram apenas quinze minutos, mas a paisagem que se tem das alturas (o piloto disse que estivemos a 600 metros de altura, mas ainda hoje eu acho isso muito improvável, apostaria mais nos 300 metros) recompensa largamente o investimento inicial. Não se vê a ilha toda, mas dá para ver o outro extremo da costa, a uns dez quilómetros de distância. Vi também umas danças tradicionais chamadas Sirtaki que me agradaram muito. Adorei a coreografia... feita a um ritmo alucinante!

Palaiostratiska, em Corfu, onde o azul da água se confunde com o azul do céu

Patras
É uma das principais portas de entrada marítimas do continente grego. A arquitectura não é nada de especial, mas enquanto espera pelas ligações por comboio e se se sentir com forças para subir as incontáveis escadarias até ao Castelo (de origem medieval), a visão de lá é deslumbrante. Vê-se o porto, os barcos e uma linha de montanhas ao longe excelente para tirar fotografias. Decidi entrar nalgumas igrejas locais, de estilo Bizantino. Comi um pouco de pão oferecido à entrada e observei como são as suas missas e sermões religiosos. São completamente diferentes dos da Europa Ocidental, mais vivos, têm mais cor e notei também um maior fervor religioso. Aliás, a própria aparência exterior em abóbada e a ornamentação dos templos é muito rica e distingue-se perfeitamente dos nossos templos religiosos.

Atenas
Foi o ponto mais afastado de Portugal em que me encontrei. Eu por mim continuava até à Turquia, que creio ser um local fabuloso com uma cultura completamente distinta da nossa (apesar das notícias nos meios de comunicação, não creio que haja grande perigo em viajar para esta região, desde que se vá acompanhado), mas como os meus companheiros de viagem não tinham mais dias livres, tive de fazer marcha-atrás, para grande pena minha. Atenas tem quatro milhões de habitantes, como se pode constatar através da vista da Acrópole: um imenso manto branco de construções em todas as direcções, vendo-se o mar a este (a uns vinte quilómetros de distância) e o Monte Lycabetus a Oeste. É imprescindível uma visita a este monumento de importância mundial, símbolo da cultura helénica, da qual somos herdeiros. É uma pena esta ter sido bombardeada e quase completamente destruída por uma esquadra turca há cerca de trezentos anos, mas o que restou permite-nos ainda sonhar com esse dias que já fazem parte do passado. A entrada é 12€, mas eu não paguei e inclusive fiz duas visitas, pois na primeira não consegui ver tudo. A estratégia utilizada foi entrar pela saída. Envolve alguns riscos, mas quando um InterRailer vê o dinheiro a voar a cada instante, tem-se outra perspectiva das coisas. Só em água gastei à vontade mais de 50€!! A área envolvente é imensa e possui centenas de pontos de interesse a visitar, apesar de em muitos casos se notar não haver conservação das ruínas que subsistiram até aos dias de hoje. No entanto, devo fazer uma ressalva. Por causa de os Jogos Olímpicos de 2004 serem realizados em Atenas, a cidade é um imenso estaleiro. Inúmeros monumentos e fachadas de edifícios encontram-se cobertos por andaimes e a serem restaurados, estando nalguns casos encerrados e inacessíveis, como foi o caso do Museu Nacional. O melhor meio de transporte é o metro, e, novamente, o meu conselho é o mesmo: se for adepto de correr riscos, poupe nos bilhetes de metro, pois a fiscalização é ainda mais reduzida que em Roma.

No topo da Acrópole, em Atenas. Uma pena existirem andaimes por toda a parte

Impressões da viagem
O balanço global foi muito positivo. Regressei cansadíssimo, mas cheio de boas recordações. Mesmo os momentos menos agradáveis, quando são recordados, são-no sempre com um misto de nostalgia e deslumbramento pela forma como se resolveram (ou não!). E é engraçado que quanto mais afastado de casa estava, mais longe queria ir... e ao mesmo tempo, crescia dentro de mim um sentimento muito português chamado saudade por tudo o que tinha deixado para trás. Talvez por isso, as notícias chegadas de Portugal eram sempre recebidas com alguma emoção e os frequentes encontros com compatriotas nossos em cada cantinho por que passei eram sempre momentos especiais. Não sei se o Portugal de tanga de que alguns falam tanto existe mesmo, ou se não fará parte de um equívoco intencional para ocultar outras coisas, essas bem reais. Mas que havia imensos portugueses a passear pela Europa, isso posso confirmar que havia. Eu gastei, no total, perto de 1200€, mas reconheço que poderia ter poupado bastante dinheiro. O problema é que, infelizmente o "savoir-faire" vem depois e não antes dos acontecimentos. Por esse motivo, é fundamental esboçar um plano de viagem, ver muito bem o que se quer fazer e até onde se pretende ir, levar bebida e alguma comida perecível para os primeiros dias e fazer um orçamento do que se pretende gastar. Deve-se levar roupa leve e prática (mas não muita), umas sandálias de qualidade (para evitar as bolhas que vêm com as constantes deambulações pelas cidades) e deve-se ter sempre um sorriso nos lábios, mesmo ao perdemos uma ligação por comboio... afinal, férias são férias!
A provar que de facto é uma boa alternativa às tradicionais férias algarvias em que uma pessoa passa uma substancial parte do dia estendido ao sol como os lagartos, está a minha pretensão de fazer nova viagem este Verão. Desta feita, pelo norte da Europa. A nível histórico, as cidades do norte têm legados culturais diferentes, talvez menos ricos que as suas congéneres do sul e a cultura europeia no seu conjunto apresenta muitas similitudes, mas se de facto acabar por ir, sei que vão ser de novo momentos inesquecíveis. Lá bem no fundo, viajar de InterRail é uma pequena aventura, feita à escala das nossas modernas sociedades. A diferença é que depois de todas as grandes explorações estarem feitas, a única que resta por fazer é ao interior de nós mesmos. Esse é o melhor "souvenir" que podemos trazer destas viagens pelo estrangeiro...

(1ª parte)

Texto e fotos de Pedro Luís Laima Bicho