A Grécia em destaques (I): as cidades

Atenas
A capital, fica no Sul, na região da Ática. É uma cidade estranha, há até quem a considere feia; é barulhenta, buliçosa, algo suja. É uma mistura de culturas e influências. Incontornáveis, a Acrópole; a Ágora antiga; a Ágora romana; o Museu Nacional de Arqueologia, com um espólio extraordinário (atenção: em 2000, não tinha ar condicionado na maior parte das salas, o que, no pino do Verão, resulta num efeito de estufa pouco agradável); o Museu da Acrópole (está em projecto o novo museu, que espera albergar os mármores do Parténon, actualmente no British Museum, em Londres); a Plaka, o bairro antigo, ao fundo da Acrópole; o render da guarda na praça Sintagma, em frente ao Parlamento, todos os domingos às 11h00. Aconselho também uns passeios pelas ruas, para sentir a vida da cidade, tropeçando, aqui e ali, em todo o tipo de vestígios históricos, de diversas épocas. Mar, estranhamente, não há: capital de um país com uma grande vocação marítima, Atenas é interior; o seu porto fica no Pireu, uma cidade suburbana e feia.

Templo de Teseu na Ágora antiga, Atenas

Tessalónica (ou Salónica)
A segunda maior cidade grega, berço de Alexandre o Grande, fica no Norte, na Macedónia. Mais europeia que Atenas, aparentemente mais ordenada, mais arejada (é costeira). Alberga uma grande quantidade de monumentos paleo-cristãos e bizantinos, cerca de uma centena de igrejas e basílicas. A ver: a Rotunda, uma igreja circular, de origem romana, integrada num complexo triunfal, de que subsiste também o arco de Galério (Kamara); a Torre Branca, antiga prisão para condenados à morte, abriga, actualmente, um museu; as ruínas dos banhos turcos. De entre as muitas igrejas, visitei: a de Santa Sofia (Aghia Sophia); a de S. Demétrio (Aghios Demetrios), santo padroeiro da cidade, onde podemos encontrar o túmulo do santo, no local do seu martírio, às mãos dos romanos; a do Profeta Elias, mais pequena e moderna; a capela de Osios David, que alberga um belíssimo mosaico do século V com um dos raros retratos conhecidos do Cristo sem barba.

Interior da igreja de Santa Sofia, Tessalónica

Romance de Cnossos

Entrada norte do Palácio de Cnossos, Creta

Este canto rouco rouco
das cigarras de Cnossos
Ouvi-o logo no porto
depois nos caminhos tortos
que sobem do porto ao ponto
onde ressurge Cnossos
Mais tarde à beira de um poço
Por fim diante dos cornos
destes inúmeros touros
que há no palácio minóico
Posso fingir que não o ouço
mas atravessa-me os ossos
alastra por todo o corpo
até me escalda nos olhos
este canto rouco rouco
das cigarras de Cnossos
Quando num último sopro
souber que não mais acordo
e tudo estiver em torno
imerso no mesmo ópio
decerto ouvirei de novo
no sono dos outros mortos
este canto rouco rouco
das cigarras de Cnossos
Contudo na manhã de hoje
nem só com isso me importo
Pior é sentir que o fogo
lateja sob este solo
Todo este calor de forno
não sei já como o suporto
Parece haver um acordo
feito entre o solo e o Sol
E terem ambos proposto
como língua de seus votos
este canto rouco rouco
das cigarras de Cnossos
Mas se o palácio percorro
eis que sofro de outro modo
Ver que o palácio é dos outros
mas que o labirinto é nosso
Que alimentamos o monstro
com o sangue de nós próprios
Que lhe damos o contorno
da sombra do nosso ódio
Que lhe buscamos no dorso
os nossos próprios remorsos
E de tudo isto em coro
nos vai verrumando os poros
este canto rouco rouco
das cigarras de Cnossos
Ó Grande Sala do Trono
dos tronos o mais remoto
onde Minos no seu posto
julgará todos os homens
Não de assassínios nem roubos
Só do que entregam à morte
E uns colocados no topo
outros no fundo dos fossos
vai repercutir-se em todos
vibrando de pólo a pólo
este canto rouco rouco
das cigarras de Cnossos

David Mourão-Ferreira
in As Lições do Fogo, Lisboa, D. Quixote, 1976, pp. 68-70.

Uma sala do Palácio de Cnossos, Creta

O lugar da História

Não visitei muitas ilhas gregas, muito turísticas, muito apetecíveis, mas posso gabar-me de ter ficado a conhecer razoavelmente bem a Grécia continental.

Santuário de Poseidon, Sounion, Ática

Lembrei-me, frequentemente, de ter ouvido os meus professores de História dizerem que o que levou os antigos gregos a viajarem e a dedicarem-se ao comércio e à navegação foi o facto de terem um país montanhoso, com solos pobres (em certa medida, o mesmo que se passou com os portugueses). De facto, a Grécia é um país com uma geografia muito acidentada, com paisagens deslumbrantes, sobretudo por ser fácil vislumbrar o mar de quase qualquer ponto do seu território. Mar e ilhas, que são imensas.
A minha amiga Marisa, que, curiosamente, me precede na maior parte das viagens, avisou-me: «Primeira paragem: estádio olímpico: tiras fotografias. Segunda paragem: estádio olímpico: tiras fotografias. Terceira paragem: estádio olímpico: já nem te dás ao trabalho. Chegas a um ponto que deitas estádios olímpicos pelos olhos!». Efectivamente, o que provoca o primeiro impacto e o que cansa mais depressa são os vestígios arqueológicos, que os há, literalmente, por todo o lado, uns mais bonitos, mais bem preservados e menos pilhados que outros. Incontornáveis (justamente classificados como património da humanidade), a Acrópole de Atenas, o santuário de Delfos, o teatro de Epidauro, a cidade de Micenas. Todos reconstruídos como construções Lego. O teatro de Epidauro impressiona pela paisagem magnífica e pelo facto de ainda se encontrar vivo e em funcionamento. Delfos, pela vista deslumbrante sobre o Mar das Oliveiras (um imenso olival). Já Cnossos, em Creta, é conhecido como a Disneylândia dos arqueólogos.

Meteora

Impressionantes, todos estes vestígios do passado. Mas o que mais me marcou foi a convivência de diferentes culturas e, em particular, o meu primeiro contacto com a arte bizantina e com a religião ortodoxa. Só Tessalónica conta com cerca de uma centena de igrejas e basílicas (património da humanidade), mas o mais fenomenal é o complexo de Meteora: cerca de 20 mosteiros medievais (6 ainda em funcionamento) encarrapitados em cima de umas formações geológicas estranhíssimas, que se assemelham a imensas estalagmites no meio da planície da Tessália. Belíssimo, também, o mosteiro de Osios Loukas, a cerca de 150 Km de Atenas.

Osios Loukas

Mas os traços da História, na Grécia, não se ficam por aqui: além das civilizações pré-helénicas, helénica, romana, bizantina, por lá passaram e deixaram marcas os turcos, os cruzados, os venezianos, os ingleses (bom, estes não deixaram marcas, levaram-nas com eles...) e por aí fora. Como resultado, um país jovem (a independência foi conseguida em 1828, depois de séculos de invasões e domínio estrangeiro), produto de múltiplas influências culturais, que, juntamente com a situação geográfica privilegiada, o Sol e o Mediterrâneo, o tornam um dos destinos turísticos mais procurados da Europa.

Fortaleza veneziana, Eraklion, Creta

O império dos sentidos

Há tempos, encontrei no Turista Acidental um belíssimo texto sobre Marraquexe que me trouxe recordações de umas férias, em 1992.
Marraquexe encanta, sobretudo, pela profusão de sensações que nos desperta: o calor, os odores, a quantidade gritante de cores, formas e texturas, o movimento que nos envolve e nos arrasta. É muito diferente da Europa, com uma oferta quase exclusivamente visual. E fica aqui tão perto…

Jamaâ El Fna

Impressões:
> a tonalidade vermelha das casas e da terra;
> a medina labiríntica (património da humanidade), com os seus souks ou mercados divididos em profissões pelas diferentes ruas: o souk das especiarias, o dos tintureiros, o dos tapetes, o dos cobres e latões...
> a praça central, Jamaâ El Fna, onde, durante o dia, se foge do calor e que, ao cair da tarde, se enche de vendedores, clientes e turistas, num enorme mercado que dura até ao fecho das portas da cidade, pela meia-noite. No interior de uma cintura de carros de vendedores de sumo de laranja, podemos encontrar de tudo um pouco: vendedores de água, com os seus trajes típicos, amestradores de macacos, encantadores de serpentes, engolidores de fogo, vendedores de tudo e mais alguma coisa, sempre prontos a regatear, em frente a um aromático chá de menta;
> os minaretes, com os seus chamamentos cantados. O da Koutoubia (século XI), no centro, é o maior e o mais imponente (quase 70 metros);
> a beleza delicada dos mosaicos que adornam os túmulos Saadianos, criados, no século XVI, pelo sultão Ahmed el Mansour, com a finalidade de albergarem os seus restos mortais e os dos seus sucessores;
> as indicações, nas ruas em torno das mesquitas: «Interdito a não-muçulmanos», que reflectem o orgulho na preservação das tradições («Os tunisinos são uns vendidos»);
> a frescura do lago artificial e dos jardins da Menara, na periferia;
> a pobreza gritante, patente na grande quantidade de homens em idade activa que se ofereciam, em frente aos hotéis, como guias para turistas, cobrando, à época, 1 dirham diário (cerca de 0,60 euros). Ou nas condições de vida e de trabalho dos curtidores de peles. Ou na ânsia generalizada de dar o salto para a Europa.

Um souk coberto

Ligações de interesse:
> Guias e informação variada: site oficial do Ministério da Comunicação de Marrocos, em inglês e em francês; I love Marrakesh; outro I love Marrakech; LexicOrient; Moroccan Gateway; Columbus Guides; Mini-guia Fodor's; Rough Guides; The Travel Room; Tourism in Morocco; World66
> Fotos

Menara

Uma tarde em Amesterdão

Se há coisa que me incomoda, é aterrar em cidades que não posso conhecer. Esta era a minha quarta escala em Amesterdão, com a aparente desvantagem de ser a mais longa (cerca de 5 horas e meia). Mas, numa tarde de sol, quando se comemoravam os 150 anos de Van Gogh, aquela conexão longa veio mesmo a calhar.
Apanhámos o comboio, que passa no subsolo do aeroporto, até ao centro da cidade, onde passámos uma tarde deliciosa, antes de retomarmos a viagem com destino a Lisboa.
Amesterdão, com o seu ritmo muito próprio, é um choque para quem vem da calma dos lagos finlandeses. Milhares de bicicletas a circularem freneticamente, automóveis que nos perseguem por todo o lado, hordas de turistas, tudo nos pareceu atentar contra a nossa integridade física.

Amesterdão

Gostei:
> do pulsar da cidade;
> da beleza dos canais e das pontes;
> da arquitectura muito típica;
> das ruas estreitas do Bairro da Luz Vermelha;
> do Museu Van Gogh, onde, além de obras do pintor, reencontrei velhos conhecidos (de exposições temporárias no CCB e em Serralves, agora na exposição Gogh Modern) e conheci novos interesses (por exemplo, duas obras de Kiefer que me impressionaram bastante).

Anselm Kiefer, Innenraum, 1981

Não gostei:
> do fraco apoio turístico prestado por quem tem consciência de que não precisa de cativar. No posto de turismo, tudo era pago: um simples mapa da cidade custava 2 euros.

Amesterdão

Ligações de interesse:
> Fotos: Preview Amsterdam; Panoramsterdam; Amsterdam Webcams; Grachten (canais); visitas virtuais
> Guias: Simply Amsterdam; Amsterdam Hotspots; Time Out; Let's go Amsterdam; Amsterdam.info
> Hotéis e reservas: Official Amsterdam Reservation Center; Book a Hotel in Amsterdam; Amsterdam Hotels Discount; Amsterdam hotel guide; Amsterdam Hotels Tours; Amsterdam Hotel Service
> mais ligações

Cidades mimosas

Quando, há cerca de um ano, à mesa de almoço, discutíamos destinos de férias e eu disse que ainda não me tinha decidido entre a Escandinávia e o Benelux, a minha colega Maria José aconselhou-me o último: «Lá para cima, não há nada para ver. As cidades cá para baixo são mais mimosas».
É um facto que as cidades da Escandinávia têm um ar mais actual: foram originalmente concebidas em madeira, pelo que arderam e foram frequentemente reconstruídas ao longo da história. Mas não deixam de ter a sua personalidade. Outro facto é que, quando pensamos em turismo na Europa, vêm-nos à ideia monumentos, bairros históricos e museus recheados de pilhagens de guerras e invasões. Foi por isso que a minha amiga Marisa me disse que do que gostou mais na Finlândia foi da Estónia.

Tallinn

Tallinn, a cerca de uma hora e meia de barco de Helsínquia, ali mesmo em frente, do outro lado do Báltico, foi uma tentação: tirámos um dia de sol para um passeio simpático.
É uma perolazinha medieval, classificada como património da humanidade. Igrejas, edifícios medievais, ruas estreitas, miradouros, num centro histórico bem preservado. E um sentimento nacional que espelha o orgulho numa independência conquistada com dificuldade.
Uma visita guiada conduziu-nos aos locais mais turísticos da cidade:
> o recinto aberto, em Pirita, onde se realiza, de 5 em 5 anos, o Festival da Canção da Estónia, que, durante o domínio soviético, manteve vivo o espírito nacional;
> as muralhas da cidade, com as suas torres. Entre elas, a Kiek in de Kök (literalmente, "espreitadela na cozinha"), do alto de cujos 18 metros se acreditava poder ver, através das chaminés, o que se passava nas cozinhas da zona baixa;

Aleksander Nevski

> as várias igrejas: a catedral (Toomkirik); a igreja de Santo Olavo (Oleviste kirik), considerada, na Idade Média, um dos edifícios mais altos do mundo; a catedral ortodoxa de Aleksander Nevski; entre outras;
> a praça central, ou Praça da Câmara Municipal (Raekoja Platsi), rodeada por esplanadas e dominada pela Câmara Municipal (Raekoda), o edifício gótico não religioso mais antigo do mundo. Na praça, podemos encontrar também a segunda farmácia mais antiga do mundo (Raeapteek), ainda em funcionamento (ininterruptamente desde 1422, no mesmo lugar, mas não no mesmo edifício -- o actual tem cerca de 300 anos);
> as ruas chamadas Pikk jalg ("perna longa") e Lühike jalg ("perna curta"). Ligavam, na Idade Média, as duas cidades que, em 1889, foram unidas, dando origem a Tallinn: All-linn, a cidade baixa, pertencente à Liga Hanseática, e o monte de Toompea, o centro do poder e da nobreza. Pela Pikk jalg circulavam cavalos e carruagens, pelas escadas íngremes da Lühike jalg, os peões;
> o Museu da Cidade, que cobre a história de Tallinn, do século XIII aos anos 90. Gostei particularmente dos bonecos interactivos (com cordelinhos para puxar…), despretensiosos, e da sala sobre o domínio soviético, mordaz.

Pikk jalg

Nota (para quem ainda não reparou): Desde o último texto, as imagens passaram a ser legendadas por cima, basta pousar o rato.

Järvet ja Metsät

Lago Saimaa

Lagos e florestas são o mais marcante na Finlândia, pelo menos no Verão. Mil, não sei se serão, mas são muitos e são muito bonitos. O lago Saimaa é o maior: um puzzle de água, ilhas, pântanos, florestas e lagos interligados. É também o mais turístico, o que não constituiu qualquer problema, visto que já lá chegámos na época baixa, mais chuvosa, é verdade, mas muito mais calma.

Helsínquia, catedral ao centro

Antes, sucumbimos aos encantos de Helsínquia, que nos prendeu mais um dia do que o planeado. Uma cidade costeira, muito marcada pela presença do mar, pontilhada por grandes parques. Gostei, em particular, do parque de Sibelius, que rodeia o monumento ao músico. Belíssimos, os reflexos do pôr-do-sol na escultura...
Uma nota também para o parque da Casa da Finlândia (Finlandia-talo), esta, da autoria de Alvar Aalto. No parque, encontrámos uma curiosa exposição sobre a arte do sol e do vento (um conjunto de esculturas com efeitos móveis e sonoros), outra de arte viva: um coelho em terra e relva (como uma escultura de areia), uma mandala de arbustos... E finlandeses que se passeavam, a pé, de patins, de bicicleta. Uma instituição local, os parques.
Monumentos: a catedral, na Praça do Senado, muito branca, muito clássica; a igreja ortodoxa (Uspenski), monumental, a maior da Europa, fora da Rússia; a igreja na rocha (Temppeliaukio); a fortaleza de Suomenlinna, uma das maiores fortalezas marítimas do mundo, classificada como património da humanidade.

Monumento a Sibelius

Selecção de museus:
> o Ateneum, museu nacional de arte, onde se destacam pinturas e desenhos de artistas finlandeses como Akseli Gallen-Kallela, Hugo Simberg, Helene Schjerfbeck, Albert Edelfelt, entre outros;
> o Museu de Arte e Design, imprescindível, uma bela mostra de design escandinavo;
> o Kiasma, museu de arte contemporânea, que deixámos por ver (o tempo não chegou para tudo...).

Lago Saimaa

E zarpámos para a região dos lagos. Ficámos sedeadas em Savonlinna, uma cidade pequena, calma e muito bem situada. O seu ex-libris é o castelo medieval de Olavinlinna (século XV), onde todos os anos, no Verão, se realiza o Festival de Ópera. Curiosos, os narizinhos das torres, que eram as instalações sanitárias da época (as águas do lago funcionavam como autoclismos).

Olavinlinna

Demos bastantes passeios pela zona dos lagos. Linda, a estrada turística de Punkaharju, com uma vista fenomenal entre lagos.
Último poiso, Lappeenranta. Um dia chuvoso, muito perto da Rússia: as vistas, o castelo, o cemitério de guerra, o memorial aos soldados finlandeses caídos em Viipuri, uma das maiores cidades da Finlândia, tomada pela União Soviética e rebaptizada como Vyborg.

Lappeenranta

E foi assim a Finlândia, sem Pai Natal, renas ou neve...

Estocolmo à chuva

Dois diazinhos muito chuvosos apanhámos nós em Estocolmo... Mas foram bem aproveitados, dentro do possível (e dentro de portas, sempre que possível). No fundo, não foi mais do que uma escala entre a Noruega e a Finlândia, que eram os nossos destinos de eleição, mas pareceu-nos um pecado passar ao lado ou por cima de uma cidade que todos nos diziam ser muito bonita. E é.



Estocolmo é uma cidade construída sobre 14 ilhas, ligadas por 50 pontes, entre o lago Mälar e o mar Báltico. Como não podia deixar de ser, tem água por todo o lado, canais e baías, o que lhe dá um encanto muito especial e o cognome de "Veneza do Norte".
Ficámos alojadas num hotelzinho simpático, numa esquina da Olof Palmes Gata com a Drottninggatan, uma grande rua comercial. Muito central: Drottninggatan abaixo e estávamos na Gamla Stan, a cidade velha medieval.



Mesmo em frente, Riddarholmen, a ilha dos Cavaleiros, com igrejas e monumentos, muito bem preservados. Visitámos a Riddarholmskyrkan, igreja construída em 1270, que alberga os túmulos de reis e nobres suecos. Destaque para a torre de tijolo, rematada por uma estrutura pontiaguda em ferro forjado, delicadamente trabalhado (a primeira à esquerda, na primeira foto).
Com o tempo que estava, deixámos escapar poucas igrejas: a Catedral (Storkyrkan), a igreja alemã (Tyska kyrkan), a finlandesa (Finska kyrkan), implantada num antigo campo de ténis coberto, oferecido pelo rei, a Jakobskyrka, a Klara kyrka, qualquer uma delas serviu o ancestral propósito de nos proteger das condições adversas do exterior.
Fora de portas, destaque, sem dúvida, para a Gamla Stan, com o seu encanto medieval, os monumentos, as praças, as ruelas estreitas: a Mårten Trotzigs Gränd, a mais típica e estreita de todas, faz lembrar Alfama.



E, quando o tempo o permite, é de aproveitar para passear ao longo dos muitos canais e pontes que entretecem a capital de um país com uma história que oscilou entre fases de pobreza e de opulência e oferece hoje um dos melhores níveis de vida do mundo.



Quando não, ainda há os museus. Visitámos dois, na ilha de Djurgården, rodeados por belíssimos jardins: o Vasa e o Nordiska museet. Este último, o Museu Nacional de História da Cultura, alberga exposições sobre o quotidiano e as tradições suecas, e ainda moda, sapatos, casas de bonecas, mobiliário, pinturas e fotografias de Strindberg, entre muitas outras coisas.
No Vasamuseet, encontramos um navio com uma história deveras curiosa. O Vasa foi construído, no século XVII, a mando do rei Gustav Adolf, o II do nome, herdado do seu antepassado Gustav Vasa, que, em 1523, após liderar o movimento independentista, foi eleito rei de uma Suécia livre do poderio dinamarquês e do vizinho norueguês, dando início à dinastia hereditária dos Vasa. O navio com o mesmo nome foi concebido como o mais grandioso da grandiosa frota sueca, que estava prestes a entrar na Guerra dos Trinta Anos, em defesa do protestantismo. Contra a opinião dos mais experimentados construtores navais, o rei insistiu num navio alto, imponente, com dois andares de canhões. Tão esguio era o Vasa, que o lastro foi insuficiente para o manter muito tempo na vertical. Em 1628, no dia da sua viagem inaugural, entre pompa e circunstância, os presentes viram-no zarpar do porto de Estocolmo, tem-te-não-caias, até que se virou mesmo, 20 minutos e poucos metros à frente, velas enfunadas e bandeiras esvoaçantes. O inquérito subsequente foi, como não podia deixar de ser, inconclusivo e o Vasa manteve-se no fundo do mar, onde nem bactérias havia que lhe desfizessem o casco, foi recuperado em 1961, restaurado e conservado numa solução de parafina e mais não sei o quê, e é hoje a principal atracção do museu mais popular da Escandinávia.



Para quem gosta de histórias de navios e naufrágios, aconselho a instrutiva leitura do Marítimo.